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Boris Johnson: o implacável político que se consagrou primeiro ministro Britânico

Tem uma propensão para casos caricatos e promete abanar as chamas do euroceticismo: conheça o homem que está prestes a se tornar o próximo líder da Grã-Bretanha.

Boris Johnson, antigo mayor de Londres e ministro dos Negócios Estrangeiros, venceu confortavelmente a derradeira eleição do Partido Conservador, duplicando praticamente os votos do seu adversário, Jeremy Hunt. Boris revê-se em Churchill, nunca se esquece de lembrar o velho leão britânico para prometer aos seus compatriotas que tudo está ao alcance da velha nação imperial que foi capaz de fazer frente ao Blitz. Para um país exausto pelo caos provocado por uma decisão para a qual ninguém estava preparado, até pode funcionar.

Boris Johnson tem ascendência turca, nasceu em Nova York e, por ser filho de um funcionário da UE (União Europeia), passou uma parte de sua infância em Bruxelas. Batizado como Alexander Boris de Pfeffel Johnson, é conhecido do público britânico simplesmente como “Boris” e reconhecido por uma marca registada de cabelo loiro indisciplinado e um estilo de fala atrapalhado e propenso a imprecisões.

Por muitos anos, comentadores e colunistas britânicos entusiasmaram-se com as suas excentricidades, incluindo uma paixão por andar de bicicleta, fatos esgrouvinhados e uma lendária falta de pontualidade, contrastando o rigor britânico. Durante as Olimpíadas de Londres, em 2012, foi protagonista de uma cena caricata ficando preso durante alguns minutos num cabo que o faria descer até ao campo. A sua fraqueza por mulheres bonitas tem também figurado nos media britânicos, até porque são vários os casos extraconjugais.

A eleição de “Boris” vem atribuir algo, talvez inédito na história – assistimos à nomeação para primeiro-ministro de um indivíduo cuja formação académica é uma licenciatura em Estudos Clássicos, Grego e Latim. Sublinhe-se que esta não é uma licenciatura conferida por uma universidade qualquer. Boris Johnson é licenciado em Estudos Clássicos pela Universidade de Oxford. E, dentro da Universidade de Oxford, ele não frequentou um colégio qualquer. É fruto de Balliol College – tradicionalmente o colégio dos “inteligentes” (tal como Christ Church era tradicionalmente o colégio dos aristocratas ricos). Balliol nunca foi, por isso, um colégio de “burros”.

E, por isso, é preciso ter esta noção: por muito que Johnson pareça à opinião pública como uma espécie de palhaço, “he’s anything but”. Isto é: ele parece-nos um palhaço, porque foi essa a personagem que ele escolheu como via rápida para aquilo que sempre foi a sua ambição.
Antes de se inserir na política, Johnson era jornalista, embora a sua carreira no jornalismo tenha também sido marcada por controvérsias. O seu primeiro emprego, no jornal londrino Times, terminou dramaticamente após ter sido acusado de inventar uma citação de um entrevistado, para dar cor e autoridade a um artigo sobre uma descoberta arqueológica, decidiu incluir uma citação de um famoso professor de História que era também seu padrinho, Colin Lucas. O problema? Lucas nunca teria dito tal coisa. Como se não bastasse, a frase em si era historicamente errada. Boris tentou escrever um segundo artigo onde incluía nova citação de Lucas a corrigir a frase errada. Mas, mais uma vez, a citação era inventada.

Dois anos depois, foi nomeado correspondente do The Daily Telegraph, em Bruxelas , onde, começou a afiar a sua caneta contra a União Europeia. Com apenas 24 e de regresso a uma das cidades onde cresceu, Boris chegou pronto para dar uso ao seu francês impecável. Numa artigo escrito no New Statesman em 2017, o ex-editor do Times, Martin Fletcher, escreveu que uma das missões de Johnson era inflamar o euroceticismo e “desacreditar a UE”, uma prática que marcou o seu percurso como jornalista. e “ajudou a mudar a história moderna do Reino Unido”. O jornalista não hesitava no ataque. “O Plano de Delors para Governar a Europa”, era o título do seu artigo, publicado em vésperas de um referendo ao Tratado de Maastricht na Dinamarca. O tratado acabaria por ser rejeitado nas urnas e Boris passou a considerar que tinha contribuído para esse “Nej” dinamarquês. No Reino Unido, o efeito dos seus artigos na perceção que os britânicos iam formando sobre a UE era ainda mais avassalador. O euroceticismo começava a ser uma marca de Boris, que percebia que através do seu jornalismo poderia vir a ganhar uma grande influência nos círculos mais antieuropeus do Partido Conservador.A ambição feroz e de Johnson durante os anos em Bruxelas também seria o motivo do término do primeiro casamento, 12 dias depois o primeiro divórcio, acabaria por se casar com Marina Wheeler, agora advogada. Depois de voltar a Londres foi nomeado como colunista político do Telegraph e, mais tarde, assumiu o cargo de editor do Spectator e começou a marcar a sua presença regular em programas televisivos. É neste período que o seu estilo se consolida, incluindo nas suas colunas termos como a palavra “piccaninnies” ou a expressão “sorrisos de melancia”, ambos termos racistas do inglês norte-americano, para se referir a negros. A polémica acompanhá-lo-ia nestas matérias ao longo da vida, como na vez em que criticou Barack Obama por retirar uma estátua de Churchill da Casa Branca, chamando-lhe “o Presidente meio-queniano”, ou o momento, mais recente, em que comparou mulheres de burqa a marcos de correio.

Em 2001, Johnson foi eleito deputado por Henley, e, apesar de ter prometido aos eleitores que deixaria o cargo na revista, acabaria por mantê-lo durante mais quatro anos. Não obstante os problemas, seria reeleito deputado em 2005. Foi enquanto deputado que, apanhado numa nova mentira, seria novamente despedido por desonestidade – desta vez de ministro-sombra da Cultura. A mentira foi relacionada com a sua vida pessoal: Boris negou as notícias de um caso extraconjugal com uma das suas colunistas da Spectator, Petronella Wyatt, que veio a revelar-se verdadeiro (terá durado quatro anos e incluído dois abortos).

Mas, um ano após ser demitido, Boris era nomeado ministro-sombra da Educação Superior pelo novo líder conservador, David Cameron, optando então por deixar o cargo na Spectator. Continuou contudo a escrever no Telegraph, tendo sido obrigado a pedir desculpas quando comparou a constante mudança de líderes do Partido Conservador ao canibalismo na Papua-Nova Guiné. Uma de muitas gafes que tem ao longo da carreira.
Boris nunca teve grandes vícios ou segredos sórdidos do seu passado, mas a relação que mantinha com as mulheres tornou-se matéria de lenda ao longo dos anos, como as do tempo de Oxford, contadas por antigos colegas a Sonia Purnell, garantindo que não faltavam raparigas interessadas no presidente da Oxford Union. O poder de atração de Boris vai muito para lá do aspeto físico, como garantem todos aqueles que se cruzam no seu caminho. Isso vale para os casos amorosos que pode ter acumulado ao longo da vida, é certo, mas também vai para lá da sua vida privada: na política, são muitos os eleitores hipnotizados pelo estilo de Boris, que lhe perdoam todas as falhas.

Sem o destaque que queria no Parlamento britânico, Boris Johnson pôs os olhos na câmara de Londres e acabaria por ser eleito não para um, mas para dois mandatos (de 2008 a 2016). Isto apesar de ter ficado claro que não tinha quaisquer planos, parecendo ir ao sabor da opinião pública, mostrando também em várias ocasiões que não aceita bem as criticas e que procura sempre dar a volta à situação.

Na campanha para líder conservador, Boris Johnson falou por várias vezes do seu sucesso à frente da câmara de Londres, nomeadamente no que diz respeito à diminuição do crime. Os homicídios caíram de 22 por milhão de habitantes para 12, mas já vinham em queda durante o período do seu antecessor, Ken Livingstone. E os crimes com armas brancas só começaram a cair a partir de 2012 (sendo certo que voltaram a subir a partir de 2016, com o novo mayor Sadiq Khan). Apesar dos cortes a nível nacional, o número de polícias na capital subiu durante os seus mandatos (mas em menos de mil novos elementos). Um dos pontos-chave do seu mandato era o regresso dos autocarros de dois andares vermelhos, com a porta traseira aberta, que permitia entrar e sair em qualquer ponto do percurso e não apenas nas paragens. O Routemaster ou “Boris bus”, como ficou conhecido, chegou a Londres em 2012, mas, quatro anos depois, Khan deixou-os cair por serem demasiado caros para construir. Antes disso, a porta traseira já tinha sido fechada.

Um dos falhanços na sua política foram os três canhões de água para controlar multidões, que se ofereceu para testar e mostrar que eram seguros, apesar dos alertas dos peritos a dizer que não eram adequados a Londres. Os canhões nunca chegaram a ser usados e acabaram vendidos por 11 mil libras – tinham sido comprados por 320 mil libras.
Existem ainda outros projetos que ficaram pelo caminho: uma ilha-aeroporto no estuário do Tamisa, que foi rejeitada por motivos ambientais, assim como uma “ponte- jardim”, que nunca chegou a avançar mas custou pelo menos 43 milhões de libras aos cofres públicos.

Apesar de um passado em conjunto, a rivalidade com Davi Cameron iria acompanhá-los ao longo da vida e seria evidente em episódios caricatos como o de uma reunião entre os dois, quando Cameron já era primeiro-ministro e Boris mayor, em que ambos terão lutado fisicamente pelo documento em papel do Tesouro onde estava inscrito o orçamento de Londres. Contudo, se há alguém a quem Boris deve o cargo de mayor e a popularidade que este lhe trouxe, é ao próprio David Cameron, que apoiou a escolha do deputado como candidato do partido a presidente da Câmara da capital. Boris chegou, viu e venceu.

Ainda antes de chegar ao fim do seu segundo mandato como presidente da câmara de Londres, Johnson procurou ser novamente eleito deputado – sabendo que o próximo líder conservador tem de estar no Parlamento britânico, acabando eleito em maio de 2015 por Uxbridge and South Ruislip (considerado um lugar garantido para os conservadores).

Em fevereiro de 2016, Johnson tornou-se um dos rostos da campanha do Brexit (depois de alegadamente ter escrito duas colunas, uma para cada lado do referendo), lançando-se na campanha que iria terminar com a vitória do “sim” e na demissão do então primeiro-ministro David Cameron. Parecia que tinha chegado a hora de Boris, mas uma traição daquele que era considerado o seu diretor de campanha, Michael Gove, acabou com as suas expectativas. Gove lançou-se na corrida primeiro.

Mas seria Theresa May a ser eleita. O período que se seguiu foi de travessia no deserto. Boris tornou-se ministro dos Negócios Estrangeiros de Theresa May e protagonizou uma série de gaffes desastrosas. A ideia, dizem alguns, era mantê-lo fora de Londres e da política interna o maior tempo possível. Um dos seus momentos negativos na chefia da diplomacia foi quando fez uma declaração incorreta sobre Nazanin Zaghari-Ratcliffe, de dupla nacionalidade iraniana e britânica, condenada no Irão por alegada espionagem. Boris disse que ela estava a “ensinar jornalismo às pessoas”, antes de recuar e dizer que não tinha dúvidas de que ela estava de férias no país. O mal estava feito: as declarações reforçaram a ideia de Teerão de que ela estava envolvida em propaganda contra o regime, aumentando o seu tempo de prisão e acabando com negociações para que pudesse ser libertada. Ainda está detida.

Boris Johnson durou apenas dois anos como chefe da diplomacia, demitindo-se em julho de 2018 em oposição ao plano de Brexit de Theresa May (votaria a favor dele mais tarde, no Parlamento). Fora do governo, retomou a sua plataforma preferida: a sua coluna no Telegraph. A decisão de bater com a porta no governo de May, a propósito do plano de Chequers, e de passar a conspirar na sombra cimentou ainda mais a ideia de que Boris estava desesperado pelo lugar de líder dos conservadores. Mas não foi preciso esperar muito: apenas três anos depois do referendo, Boris Johnson tornou-se o favorito à substituição de May e conseguiu criar as condições para que essa mesma substituição ocorresse ainda antes do tempo.

Tudo graças a um fenómeno chamado Brexit e a uma decisão — quer seja por convicção, quer por conveniência — que era arriscada e que compensou. E graças também a um estilo inconfundível, que não agrada a todos, mas que é eficaz. Johnson, na sua carreira de político e de jornalista, já disse tudo e o seu contrário. Já foi pro-europeu – e agora é anti-europeu. Já foi anti-gay – e agora é pro-gay. Num famoso debate com Mary Beard, defendeu o ponto de vista de que a literatura grega era muito melhor do que a romana. Beard, bem munida para o debate, leu em voz alta um elogio rasgado da literatura latina onde se afirmava que o melhor livro alguma vez escrito em toda a história da humanidade é a Eneida de Vergílio. Palavras (sublinhou ela) de um texto escrito por… Boris Johnson.

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