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‘Joker’ fez mais pela saúde mental que o próprio Phoenix

Estreou no início do mês em 105 salas nacionais e foi um sucesso igual em tantos outros países, tendo sido a mais proveitosa estreia de outubro em Portugal. O filme que fala das origens do arquivilão de Batman tem reunido consenso: Joaquin Phoenix está fenomenal.

As receitas não enganam. São mais de 700 milhões de dólares (mais de 630 milhões de euros) feitos a nível mundial só para ver ‘Joker’ nas salas de cinema. Para quem ainda não viu, saiba que este texto não contém spoilers. No entanto, tem mesmo de ver a película.

Arthur Fleck é o nome da personagem interpretada magistralmente por Joaquin Phoenix. A sinopse é clara: “Durante o dia é um palhaço e à noite luta para se tornar um artista de stand-up comedy… mas descobre que é ele próprio a piada. Sempre diferente de todos em seu redor, o seu riso incontrolável e inapropriado, ganha ainda mais força quando tenta contê-lo, expondo-o a situações ridículas e até à violência. Preso numa existência cíclica que oscila entre o precipício da realidade e da loucura, uma má decisão acarreta uma reação em cadeia de eventos crescentes e, por fim, mortais”.

Depois de ver o filme, saímos de lá com três ideias: se Joaquin Phoenix não vencer o Óscar de Melhor Ator ou a Academia não gosta dele ou surgiu um outro com uma interpretação ainda mais espetacular; Arthur Fleck é um doente mental, fruto do seio em que nasceu e foi criado (antecedentes genéticos) e da sua experiência de vida (fatores externos que despoletaram a sua base já vulnerável), tal como o filme mostra; há paralelismos entre a sociedade de Gotham City (Nova Iorque), e a sociedade real atual, o que também diz muito sobre a saúde mental do mundo em que vivemos e que é tão desvalorizada.

Em ‘Joker’, Joaquin Phoenix transformou-se completamente na personagem – tendo, inclusive, emagrecido de tal forma e tão rápido que ele próprio, o ator, confessou que estava a chegar a um estado de loucura – e só vemos o Arthur Fleck no ecrã. Mas é inevitável fazer a analogia entre o artista e a ficção.

Todos sabemos que Joaquin faz parte de uma família de renome em Hollywood, sendo River Phoenix o seu irmão mais velho. River foi um músico e um dos “atores mais promissores” dos anos 80 (entrou no ‘Indiana Jones’), tendo morrido, de overdose, quando tinha apenas 23 anos. Foi Joaquin, que tinha 19 anos e estava com ele num clube de música do Johnny Depp, quem ligou para os serviços de emergência médica.

A história de vida de Joaquin, cujo nome verdadeiro é Joaquin Rafael Bottom, é toda ela repleta de polémica. Nasceu em Porto Rico, em 1974, filho de um casal hippie missionário que pertencia a uma seita chamada Children of God (Filhos de Deus), que instigava à prostituição entre os integrantes, à corrupção de menores e ao abuso sexual.

A família viajava pela América Central e do Sul, sendo que nenhum dos filhos ia à escola, até que se estabeleceu em Los Angeles. Joaquin adotou, durante uns anos, o nome de Leaf (folha). Os irmãos eram River (rio), Rain (chuva), Liberty (liberdade) e Summer (verão). O apelido de família vem da fénix, renascida das cinzas.

Uma vez em Los Angeles, os pais, John e Arlyn, decidiram procurar uma carreira em Hollywood para os filhos, em vez de os inscreverem na escola, o que marcou Joaquin. “Às vezes sentimos falta de ter uma infância normal. Quando vamos a um lugar novo conhecemos gente nova, mas depois temos de nos despedir”, disse, numa entrevista, quando tinha 13 anos.

O início do novo milénio trouxe tanto de bom no trabalho como de mau na vida pessoal do ator. Depois de fazer de Johnny Cash em ‘Walk the Line’, que lhe valeu uma nomeação para o Óscar, deu entrada num centro de reabilitação para alcoólicos.

A entrevista surreal que deu no “Late Show com David Letterman” tornou-se história da cultura pop. Foi em 2009. Joaquin esteve sempre de óculos escuros e pouco ou nada falou, exceto que queria apostar numa carreira como rapper. Veio a saber-se depois que estava em modo personagem para um documentário, realizado pelo amigo de adolescência – e também ator – Casey Affleck, que visava mostrar o lado sombrio de uma estrela da sétima arte. Foi aliás no decurso da filmagem desse documentário que surgiram, por parte da produtora e da diretora de fotografia, as acusações de assédio sexual a Casey Affleck. Phoenix acabou por se distanciar do amigo à conta disso.

Era ainda amigo de Heath Ledger, outro dos atores que fizeram ‘Joker’ no cinema, papel pelo qual recebeu um Óscar a título póstumo. E terá feito várias homenagens ao australiano já falecido neste filme da Warner Bros.

Já quanto ao seu colega Robert de Niro – que também entra no filme -, dizem que Joaquin estava tão compenetrado na personagem que até lamentou o facto de não ter aproveitado mais a contracena com um dos seus ídolos.

“A razão pela qual é tão bom a dar vida a personagens traumatizados é porque ele também foi um”, comentou um produtor de cinema no site ‘Page Six’ sobre Joaquin Phoenix. E isso diz tudo.

@AnaSofiaCoelho – IN Corporate Magazine