Cultura

“O FADO CANTA TODAS AS HISTÓRIAS”

Num local onde a tradição se encontra com a história de um país, o Museu do Fado é paragem obrigatória em Lisboa. Um equipamento da Câmara Municipal de Lisboa cujo principal objetivo é “preservar e promover a história do Fado.”

O Museu do Fado, aberto desde setembro de 1998, tem como principal missão “preservar a memória e todo o património físico associado ao Fado”. A iniciativa da Câmara Municipal de Lisboa começou por “reunir os testemunhos e documentos dispersos pela comunidade artística e seus herdeiros”, como nos explica Sara Pereira, diretora do Museu.

“Havia a necessidade de criação de um espaço que permitisse a preservação deste património, desde sempre associado à tradição oral. A relação dos portugueses com o fado nem sempre foi fácil. No final do século XIX, a nossa geração de 70, com Eça, Ramalho ou Fialho de Almeida, via no Fado uma marginalidade incómoda. Depois, à medida que caminhamos no século XX temos, por exemplo, António Arroio, com o famoso repto ‘rapazes, não cantem o fado!’. Toda a bibliografia ao longo desse período era essencialmente crítica. Hoje, o Fado é um objeto de estudo científico de legitimidade incontestada e sabemos que teve um papel estruturante”.

No que diz respeito ao debate entre fado antigo e fado novo, Sara Pereira adianta que “não é de agora. Existem periódicos da primeira metade do século XX onde podemos encontrar a polémica em torno do fado novo e do fado antigo. Nunca existiu um momento na história do fado de cristalização do género no estilo do Fado tradicional. O fado é um património popular, uma tradição viva, apropriada e cultivada por artistas com distintos percursos culturais”. Sara Pereira recorda que a própria Amália Rodrigues foi duramente criticada. “Por vezes incompreendida, Amália cantou sempre o que quis, livre de todas as amarras possíveis dos cânones fadistas, indiferente às vozes mais conservadoras que, logo na década de 1940, questionavam o repertório dos fados-canção de Frederico Valério, ou a partir dos anos 60, as melodias de Alain Oulman”.

Atualmente com uma média de 170 mil visitantes por ano, o Museu do Fado é procurado por portugueses, vários lisboetas, mas também por estrangeiros. “Ao implementar o Plano de Salvaguarda constante da candidatura do Fado à Lista Representativa do Património Cultural Imaterial da Humanidade (UNESCO), a EGEAC e o Museu do Fado assumiram um conjunto de compromissos de programação e promoção nacional e internacional do Fado. Desde 2011 coproduzimos Festivais Internacionais de Fado que acontecem por todo o mundo”.

“Nos últimos anos o Fado tem indiscutivelmente adquirido uma visibilidade crescente e uma presença marcante no conjunto da vida cultural portuguesa. Património intrinsecamente ligado às nossas raízes culturais, o Fado é também hoje, reconhecidamente, uma imagem de marca de modernidade da cidade de Lisboa e do País: algumas das suas figuras mais emblemáticas converteram-se em verdadeiros ícones das artes do espetáculo portuguesas e em símbolos da respetiva modernidade estética. O Fado conquistou definitivamente o território da poesia erudita, desde o património trovadoresco e renascentista à criação literária contemporânea; É uma presença frequente na programação das salas de espetáculos mais prestigiadas do mundo; Dialoga abertamente, em pé de plena igualdade, com outros géneros performativos poético- musicais, tanto populares como eruditos; e é uma das correntes em maior afirmação no âmbito da chamada “World Music” internacional correspondendo a uma parcela de 60 por cento do valor da exportação da música portuguesa quando, em 2010, esta percentagem não atingia os 40 por cento”.

Atualmente, o Fado chega aos quatro cantos do mundo. “O jovem guitarrista Gaspar Varela, por exemplo, que é bisneto de Celeste Rodrigues, aprendeu a tocar guitarra portuguesa para acompanhar a avó. Agora está em digressão internacional com Madonna. E, de repente, num concerto dela, aparece a guitarra portuguesa, faz-se referência ao fado, a Celeste, a Portugal… E isso é incrível”.

Sara Pereira não tem dúvidas de que para qualquer português, a visita ao Museu do Fado “é especial”. “É a nossa expressão musical por excelência. Já Rui Vieira Nery dizia que ‘o fado somos nós, portugueses, postos em música’. O fado canta todas as histórias. Existem fados progressistas, revolucionários, de intervenção, tristes, alegres… É uma espécie de literatura para todos”. “O fadista é, sobretudo, um contador de histórias. Percebemos logo se soa a verdade ou não. Quando não é verdadeiro, não passa, não é Fado”.