2020 Blog Março

Façam barulho. Sim.

Foto: Divulgação. Site da Eurovisão.

O Festival de Sanremo é um dos mais importantes e antigos eventos de música do mundo. Foi com esse festival, criado sob a ideia de unir as pessoas através da música depois da 2.ª Guerra Mundial, como inspiração que surgiu, anos depois, a Eurovisão.

Em 2020 Sanremo, nascido numa pequena localidade com o mesmo nome no norte de Itália, cumpriu a sua 70.ª edição. A maioria das notícias – fora do universo dos fãs da Eurovisão – que lemos cá em Portugal sobre o Sanremo deste ano foi o facto de uma namorada de um jogador de futebol ter sido uma das apresentadoras. Sim, Cristiano Ronaldo é um dos maiores jogadores de sempre, mas a Georgina ganhou mais do festival de Sanremo (literalmente) do que o contrário.

Entre os fãs o que interessava era que o vencedor, ainda que com uma balada e voz fortes, tinha sido um pouco surpreendente, até porque o favorito (e vencedor do televoto) era o Francesco Gabbani (aquele que muitos portugueses apenas conhecem porque era o favorito que perdeu para o Salvador Sobral na Eurovisão de 2017). 

Com a pandemia do novo coronavírus e a quarentena imposta em Itália – um dos países mais massacrados em termos de infetados e vítimas mortais, tendo superado a própria China, onde tudo começou -, as pessoas tiveram de se unir (ainda que não fisicamente). O que lhes tem dado alento nesta fase excecional não é uma bola de futebol nem convicções políticas. Das varandas e janelas das casas, um pouco por todo o país, ecoa música.

Na semana passada, quando o número de mortos escalava a um ritmo digno de um “Apocalipse” (como os próprios italianos descrevem), os que cumpriam quarentena não aplaudiam apenas os profissionais de saúde em jeito de reconhecimento. Metiam a música vencedora de Sanremo – que, depois da vitória no festival, tem dominado os charts, sendo que o vídeo oficial já conta com mais de 23 milhões de visualizações no YouTube – para todos cantarem o refrão:

“Che fai rumore qui

E non lo so se mi fa bene

Se il tuo rumore mi conviene

Ma fai rumore, sì

Ché non lo posso sopportare

Questo silenzio innaturale

Tra me e te”.

A canção, interpretada, escrita e composta por Diodato, fala sobre o silêncio que existe no fim de cada relação e o sofrimento que isso causa. Diodato ‘pede’ à antiga companheira para fazer barulho, porque aquele silêncio está a matá-lo. Em português, a tradução do refrão é mais ou menos esta:

“Faz barulho aqui.

E eu não sei se é bom para mim.

Se o teu barulho combina comigo. 

Mas faz barulho, sim.

Porque eu não consigo suportar mais.

Este silêncio nada natural.

Entre tu e eu”. 

Nós, portugueses, associamos sempre o 25 de Abril de 1974 ao tema “E Depois do Adeus”, senha da revolução que mais não era do que uma música sobre o amor entre um casal (portanto algo inocente, de forma a não levantar suspeitas sobre o que iria acontecer realmente depois da música passar na rádio), que tinha sido interpretada por Paulo de Carvalho alguns dias antes no Festival da Eurovisão desse ano. Curiosamente ficou em último lugar no certame. Mas não é uma classificação que faz imortalizar uma canção, como a nossa História o (com)prova.

No caso concreto de Itália, esta crise atual provocada pela COVID-19 ‘arrisca-se’ a ficar conotada com a música vencedora do Festival de Sanremo 2020. É que “Fai Rumore” tem sido cantada a ‘todos os pulmões’ – ironicamente – pelos que estão retidos em casa neste isolamento nada natural provocado por uma nova infeção respiratória. 

Pelas redes sociais têm sido postados pequenos vídeos em que, normalmente ao final da tarde/início da noite, alguém põe a música a tocar com as colunas de som viradas para a rua e restantes vizinhos. Ninguém manda pôr a música mais baixo. Nem ninguém discute com o vizinho por causa disso. Quando se apercebem, cantam também a música. Todos em uníssono. Com o refrão sabido de cor. 

“Fai Rumore” é, sem dúvida, uma balada forte e arrepiante que muito deve à interpretação de Diodato.

Tal como em Sanremo, seria muito provável que fosse uma das prediletas do júri profissional da Eurovisão. Não vai poder subir ao palco, porque a pandemia obrigou, pela primeira vez, ao cancelamento do maior e mais visto programa de entretenimento televisivo do mundo (o mais visto anualmente, no geral, é precisamente a final da Liga dos Campeões e outras importantes competições de futebol).

É pena, porque ao contrário do futebol que nos enche a vista, os canais de TV e as redes sociais todas as semanas, a Eurovisão é só uma vez por ano. E ao contrário do desdém de muitas pessoas ou do desconhecimento de outras tantas, este certame continua a unir famílias e povos de todo o mundo (até porque a Austrália participa, para mal dos pecados dos ‘haters’ de serviço e que pouco ligam ao concurso, mas que teimam em dizer que sendo um Eurofestival, deve ter só países europeus) em torno da música.

Não interessa se o nosso país leva uma música fraca (como a deste ano, na minha opinião de fã assumida do certame), eu queria e quero (ainda que isso seja pouco provável, ou não fossem 41 países a concurso, 2 semifinais e 1 final em direto, duas semanas de ensaios e toda uma logística de quase um ano de preparação) ouvir as músicas de todos a concurso.

Nem as famílias que vêem a Eurovisão pela Europa, Austrália e restante mundo fora (até a América Latina tem uma grande comunidade de fãs. E o próximo passo seria criar a Ásiavisão e uma versão só para os EUA) estão apenas a torcer pelo seu país e a desejar que os outros percam. Muito menos se insultam entre si ou os concorrentes só por fanatismo nacional. Apenas se juntam em frente à TV, uma vez por ano, para estarem unidos com o resto do mundo.

Como tal, não foi com grande admiração que vi imensos vídeos de italianos em quarentena a entoar “Fai Rumore”. Mas não deixou de me impressionar e emocionar. Porque agora o importante não é nem deve ser o ruído das redes sociais/internet/notícias. Só interessa que as pessoas façam barulho para mostrar que estão vivas e com força para a guerra.

Por isso, e porque estamos também prestes a viver uma Páscoa inédita, somos todos italianos.

Façam barulho. Sim. 

Porque o silêncio e a ausência de música e cultura pesam muito, especialmente em tempos difíceis como este. Bem mais que uma bola de futebol. 

Como canta Rui Veloso, “muito mais é o que nos une que aquilo que nos separa”.

Façam barulho. Sim.

Foto: Divulgação. Site da Eurovisão.
Vídeos: YouTube

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