Destaque Gastronomia Turismo

Realeza da doçaria regional vive no “Forno”

Na primeira visita régia aos Açores, no início do século XX, um grupo de senhoras de Angra do Heroísmo criou um bolo exótico e com especiarias para surpreender a rainha. Hoje, a receita original está com a pastelaria de Ana Maria Costa, que registou a marca. Mas nem só de Bolos D. Amélia se faz “O Forno”.

Na primeira visita régia aos Açores, no início do século XX, um grupo de senhoras de Angra do Heroísmo criou um bolo exótico e com especiarias para surpreender a rainha. Hoje, a receita original está com a pastelaria de Ana Maria Costa, que registou a marca. Mas nem só de Bolos D. Amélia se faz “O Forno”.

Há várias versões da história, mas aquela que conta a proprietária e gerente da pastelaria “O Forno”, mesmo no centro de Angra do Heroísmo, na ilha Terceira, é a que reúne mais unanimidade. O que é inegável é que, no início de julho de 1901, o rei D. Carlos e a rainha D. Amélia visitaram pela primeira vez o arquipélago dos Açores e as senhoras da burguesia de Angra quiseram presentear a monarca com um doce especial e com tudo do melhor que a ilha podia oferecer. O resto é História, contada por Ana Maria Costa, apaixonada pela doçaria regional e pela rainha D. Amélia.

“Em cinco séculos de conquistas e descobertas, nunca um monarca português tinha visitado oficialmente um território conquistado pelo mundo. Havia por isso uma grande preocupação dos naturais da ilha em receber com dignidade as Suas Altezas Reais, inclusivamente na parte gastronómica. Decidiram presentear a rainha com um doce diferente da doçaria conventual, à qual ela estava habituada (com ovos e perfumada a amêndoa)”, conta, com rigor nos detalhes. “Um grupo de senhoras, que vivia no centro de Angra e habituadas a receber com muito requinte, engendraram bolos com produtos oriundos da ilha: farinha de milho, açúcar, manteiga das nossas pastagens, ovos das nossas galinhas e introduziram o mel de cana, as passas e as especiarias, como canela e cravinho”.

As especiarias podem parecer algo demasiado exótico – ainda que efetivamente tivesse sido esse o objetivo das senhoras de Angra: criar um bolo novo, com impacto e cheiro exótico -, mas é preciso ter em conta o papel central de Angra do Heroísmo na História. E nada melhor que Ana Maria Costa, detentora da receita original e da marca ‘Bolos D. Amélia’ e por isso habituada a explicar a origem destes, para continuar essa narração. “A partir do século XVI todas as naus das Índias Ocidentais e Orientais aportavam à nossa baía de Angra, antes de partirem para Lisboa. Habituámo-nos a consumir as especiarias, que existem em vários pratos de gastronomia (na alcatra, nas morcelas, no sarapatel e sopas do Espírito Santo) e nalguns doces tradicionais. O mel de cana vinha do Brasil. Havia trocas comerciais nas ruas principais
de Angra”.

Resumo histórico feito, agora percebemos como nasceram os “bolinhos com aspeto simples, mas requintado paladar que impressionaram a rainha e a deliciaram”, recebendo por isso o nome daquela que viria a ser a última rainha de Portugal. Já a história de Ana Maria Costa, antiga professora de Matemática, acaba por tocar neste e noutros doces há mais de 30 anos. “Os meus pais tinham uma pastelaria muito bem frequentada e famosa na época, chamada ‘Lusa’, que ficava na rua Direita. Tive acesso a muitas receitas manuscritas que existiam em casa da minha mãe, entre elas as dos Bolos D. Amélia”, explica.

Na posse da receita original – há até uma foto que o comprova e que pode ser vista numa parede de “O Forno”, onde estão expostos outros marcos históricos da pastelaria -, Ana Maria incrementou o uso do Bolo D. Amélia no seu espaço, tendo registado a marca no Instituto Industrial de Propriedade Industrial.

O bolo tem o formato de uma queijada, apesar de também ser vendido em formato de bolo normal para os restaurantes da ilha poderem vender cada fatia como sobremesa. “Além de ter marca registada, tenho o selo da Marca Açores ‘Certificado pela Natureza’, atribuído pela Sociedade para o Desenvolvimento Empresarial dos Açores (SDEA)”.

Outro fator que caracteriza e distingue “O Forno” das demais pastelarias é que se trata de uma UPA (Unidade Produtiva Artesanal), concedida pelo CRAA. O foco está em reconstituir
fielmente as receitas, de forma artesanal. “E acho que somos a única pastelaria no centro de Angra com a produção à vista do cliente, que é uma mais-valia, porque o cliente gosta de ver. Os estrangeiros gostam de tirar fotos”.

Os Bolos D. Amélia são vendidos localmente e em Portugal continental, “principalmente para Lisboa, nalgumas lojas com produtos açorianos”. No entanto, e dado o facto de haver semanalmente voos diretos low cost do continente para a Terceira, saiba que mesmo que vá à ilha em turismo, pode levar estes bolos para casa, pois “têm duração de um mês”.

E quando estiver no “Forno” vai perceber que nem só de Bolos D. Amélia é feita a reputação desta casa. “Independentemente da doçaria regional, também temos a tradicional e salgados”. Claro que o destaque vai para a doçaria regional. “Há senhoras que herdam cadernos manuscritos de receitas antigas e que vêm oferecer-me. Aceito-os com muito carinho, porque me traz mais conhecimentos e é uma grande consideração que têm por mim”.

No caso do Pudim Conde da Praia – outro doce com muita saída de “O Forno”, a par com as Caretas, sendo que ambos também têm o selo Marca Açores. A receita do pudim foi cedida pela família do fidalgo “muito influente no nosso meio, que até ajudou D. Pedro IV aquando das lutas liberais”. Trata-se de um pudim que leva batata (“tem a ver com a introdução da batata no século XVIII aqui na ilha”) e muitos ovos, “mas a confeção é difícil e tem muitos segredos”. Quanto às Caretas, é um pudim
de amêndoa com pele castanha, receita da mãe de Ana Maria.

Com mais de 70 primaveras, a “Ana Maria patroa” não se consegue dissociar da “Ana Maria pasteleira” e por isso é usual vê-la na cozinha a meter ainda as mãos na massa. Não é necessidade, até porque tem uma equipa competente de cinco/seis pessoas na produção, “dependendo se é época alta ou não”, e de mais cinco ao balcão. “É mesmo por gosto”, diz.

O Carnaval correu bem, com muitas filhoses de forno vendidas, e na Páscoa será a vez dos folares e da massa sovada. Mas também tem outra doçaria regional, como os feiticeiros (pudim de amêndoa), os africanos, os ladrilhos espanhóis (que também levam especiarias), a morcela doce e os torresmos de cabinho (estes dois últimos levam doce de leite, muito usual na doçaria açoriana). Se quiser saber mais e aprovar, faça como a rainha e desembarque em Angra do Heroísmo.