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Negada ajuda a lar de Resende, mas Vila Real com apoio

Há, pelo menos, 22 casos confirmados de COVID-19 entre utentes e funcionários da Santa Casa de Resende, que está em rutura. Dias depois, idosos de lar de Vila Real foram transferidos para o Porto após gritos das funcionárias à janela.

Numa altura em que o país entrou na fase de mitigação com transmissão comunitária da COVID-19, os lares de idosos são, cada vez mais, focos de preocupação e de possível contágio, mas a verdade é que tem havido dois pesos e duas medidas no que à ação social diz respeito.

Foi o que aconteceu a Resende, pequeno concelho do distrito de Viseu, que lhe viu ser negada ajuda, enquanto dias depois essa ajuda foi dada a Vila Real, capital de distrito.

Na Santa Casa da Misericórdia de Resende, onde se registou a primeira vítima mortal no interior do país com o novo coronavírus, há, pelo menos, 22 pessoas (entre utentes e funcionários) infetadas. Falta saber os resultados a cerca de 150 outros testes feitos a funcionários e utentes.

O ambiente é de desespero, especialmente depois da DGS – que só quis que se fizessem sete rastreios aos utentes com sintomas – ter mandado 32 funcionários para a quarentena, quando há falta de recursos e pessoal, como já criticou o provedor Jaime Alves.

“Não estamos a conseguir dar resposta porque são demasiadas horas, é demasiado trabalho. Estamos mesmo a atingir o nosso limite. Estamos numa fase de rutura. Não temos possibilidade de ser substituídos, neste momento, porque os nossos recursos estão cada vez mais escassos”, disse um enfermeiro da instituição num vídeo onde é possível perceber bem o grau de gravidade que ali existe e a exaustão dos poucos profissionais que restam, que já obrigou a uma intervenção do Sindicato dos Enfermeiros junto do Governo devido a tal “situação de catástrofe”.

“O nosso equipamento de proteção individual, neste momento, felizmente tem aumentado o stock com base nalgumas doações de pessoas atentas e solidárias. Portanto, não passa por aí o nosso principal problema, passa, sim, pela nossa capacidade de resposta, porque somos humanos e temos um limite também.”

Enfermeiro da Santa Casa da Misericórdia de Resende

Em constante articulação com a Santa Casa, a autarquia, na pessoa do seu presidente, pediu às entidades nacionais que os utentes fossem transferidos para um hospital militar, à semelhança do que aconteceu aos do lar de Famalicão, mas o pedido foi-lhe negado, alegadamente por falta de vagas. “Portanto ficámos um bocado surpreendidos quando hoje de manhã [ontem, quarta-feira, dia 25] acordámos com as notícias de que os doentes de um lar de Vila Real estavam a ser transportados para o quartel militar no Porto”, disse o autarca Garcez Trindade à ‘SIC Notícias’.

Já em Vila Real, a situação foi prontamente resolvida. Na quarta-feira, dia 25, as funcionárias do Lar Nossa Senhora das Dores gritaram à janela “ajudem-nos” e o presidente da câmara exigiu ao Estado uma “resposta imediata” para a instituição, onde 20 pessoas estão infetadas com a COVID-19. A ajuda veio no próprio dia e os idosos foram transferidos para o Hospital Militar do Porto.

“Lamentavelmente, temos de afirmar que nos sentimos abandonados, sem resposta da Direção-Geral da Saúde, entidade com a qual não conseguimos sequer contacto. Tais práticas são geradoras de frustração e desilusão”, lamentou o provedor da Santa Casa de Resende, Jaime Alves, num comunicado emitido no Facebook.

“Com a União das Misericórdias Portuguesas temos estado em permanente contacto, tal como com os organismos da Segurança Social e da Administração Regional de Saúde do Norte (ARS-N)”, disse, acrescentando que vão manter a mesma estratégia, sem abandonar os utentes.

“A nossa estratégia é: TESTAR, IDENTIFICAR, ISOLAR. No nosso entendimento, só assim, conseguiremos combater esta pandemia e conseguiremos minorar os efeitos desta enorme praga que nos atinge a todos, sem exceção. Não queremos demitir-nos das nossas responsabilidades, mas sozinhos estamos condenados ao insucesso.”

Jaime Alves, provedor da Santa Casa da Misericórdia de Resende

Segundo os dados do recenseamento eleitoral de 2019, Resende tem 10 318 eleitores, enquanto em Vila Real há cinco vezes mais (50 125). Fica aqui a dica para todos pensarmos nos dois pesos e nas duas medidas, até na ação social e durante uma pandemia.