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E depois do famoso “pico”?

Ultrapassar “o pico” significa que estamos mais perto do momento em que vamos poder voltar a rotinas mais parecidas com as que tínhamos antes da pandemia, mas não significa que isso vai acontecer imediatamente após “o pico”. Aliás, é sensato que esse retorno seja feito de forma gradual.

Sou bioquímico. Não sou epidemiologista, não sou virologista, não sou médico e por isso haverá possivelmente profissionais com competências mais adequadas do que eu para analisar a situação de que vos vou falar.

Patrick Joel Pais – Cientista

Envolvo-me ativamente na política e no associativismo sempre que considero oportuno. No entanto, não ocupo nenhum cargo que me dê acesso a informação privilegiada relativamente à maior parte dos portugueses.

Acho particularmente importante começar com estes dois parágrafos. Já que nem sempre se torna claro que competências têm as pessoas cujas opiniões, mais fundamentadas ou menos fundamentadas, estão espalhadas pela imprensa, pelas redes sociais e a influenciar as opiniões de vários outros portugueses espalhados pelo Mundo.

Posto isto gostaria de vos falar de alguns pontos relacionados com “o pico” de casos de CoViD-19 que assolam neste momento não só Portugal como a Humanidade em geral.

O primeiro ponto é sobre um momento que já passou. Há alguns dias foi referido na imprensa que já teríamos ultrapassado “o pico” de casos confirmados de CoViD-19. Essa informação ficou evidente nos dias seguintes, que não era verdadeira. O que foi ultrapassado foi o “ponto de inflexão”, que não é o mesmo que “o pico”. O número absoluto de casos de CoViD-19 continua a aumentar. “O pico” atingido foi atingido no gráfico de uma equação chamada derivada, ou seja, o que atingiu o máximo foi a velocidade de aumento do número de casos confirmados. Esse é realmente um indicador positivo. Realmente atingimos um dos “picos” que pretendíamos atingir. Mas não atingimos “o pico” do número de casos confirmados, esse está ainda por chegar. Embora este dado confirme que está menos longe do que estaria se ainda não tivéssemos atingido “o pico” da velocidade dos novos casos.

O segundo ponto que gostaria de levantar, e acho que neste até que já vai havendo alguma consciência por parte da população de que vai ser assim, é que atingir “o pico” não significa o final das medidas de contenção da doença. Vamos continuar em isolamento, vamos continuar com condicionamentos às atividades profissionais, vamos continuar a usar luvas, máscaras e outras formas de proteção e vamos continuar a evitar beijar, abraçar ou cumprimentar com contato físico os nossos amigos e entes queridos.

Ultrapassar “o pico” significa que estamos mais perto do momento em que vamos poder voltar a rotinas mais parecidas com as que tínhamos antes da pandemia, mas não significa que isso vai acontecer imediatamente após “o pico”. Aliás, é sensato que esse retorno seja feito de forma gradual.

No seguimento desta mesma perspetiva, a minha mensagem para a população é que continuem a ter um comportamento responsável e continuem a isolar-se voluntariamente. Dessa forma permitirão que seja possível dar mais liberdade àqueles que precisamos, mesmo que voltem às suas rotinas. Tal como se contribuiu para a proteção dos profissionais de saúde, dos trabalhadores de transportes de mercadorias e de passageiros, dos trabalhadores de superfícies comerciais de bens essenciais e de tantos outros que tiveram de andar no terreno sempre que ficávamos em casa voluntariamente, quando não era necessário estar na rua. Isso vai continuar a ser válido após “o pico”.

O terceiro ponto que queria abordar relaciona-se com os testes que são feitos para detetar a doença. Os exames chamados de PCR, do inglês “Polymerase Chain Reaction”, que permite-nos detetar porções de RNA (material genético) do SARS-CoV-2 recolhendo amostras biológicas da boca ou nariz das pessoas que se suspeita que possam estar contaminadas. Começa agora a falar-se muito em testes serológicos para determinar se a pessoa adquiriu imunidade. Estes testes são feitos em amostras de sangue e o objetivo é perceber se o nosso organismo está a produzir moléculas para combater o vírus e assim, podermos saber quem pode andar na rua com maior ou menor risco de contrair novamente a doença.

Com esta questão da imunidade levanta-se o último ponto que gostaria de abordar, a aquisição de imunidade por parte de quem já teve a doença. Não é ainda claro que essa aquisição de imunidade aconteça.

Há doenças em que se adquire imunidade depois de contrair a doença uma vez, há doenças em que se adquire imunidade temporariamente, há doenças em que nunca se fica imune. Não sabemos ainda o suficiente sobre o SARS-CoV-2 responsável para doença CoViD-19. 

Sabemos para já que há alguns casos em que a doença foi detetada em pessoas que já tinham contraído a doença, o caso mais recente noticiado foram 51 pessoas na Coreia do Sul, mas ainda é preciso confirmar que não houve nenhum erro nos testes de PCR (não ocorrem falsos positivos, mas podem ter ocorrido falsos negativos e as pessoas poderiam ainda não estar realmente curadas como se pensou).

Portugal está agora envolvido em projetos internacionais para tentar estabelecer qual a melhor estratégia para saber se foi criada imunidade individual e coletiva. Quantas, quais e quando é que as pessoas têm de ser testadas? Não temos ainda uma resposta a estas questões, mas a comunidade científica está a trabalhar nelas.

Atrasar “o pico”, baixar “o pico” e ultrapassar “o pico” são momentos essenciais para ganhar tempo. Ganhar tempo para não comprometer o sistema nacional de saúde, ganhar tempo para perceber quais os tratamentos mais eficazes (depois do Ibuprofeno parece que a Cloroquina também não terá tão bons resultados como se chegou a pensar), ganhar tempo para se comprovar a eficácia de uma das várias vacinas, em que a comunidade científica já está a trabalhar, e ganhar tempo para a comunidade científica perceber também qual a forma mais segura de voltarmos às nossas vidas.

Até lá, tal como até aqui, continua a ser um trabalho de todos. Com um particular agradecimento aos que não podem ficar em casa, mas uma palavra de apreço também por aqueles que ficam.

\Patrick Joel Pais