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Fazer ‘renascer das cinzas’ a Olaria Negra de Bisalhães

Talvez nunca tenha ouvido falar em Bisalhães. Esta pequena aldeia serrana do concelho de Vila Real tem uma particularidade: os seus artesão produzem ali o “barro preto”, a chamada “olaria negra de Bisalhães”. Em novembro de 2016, a UNESCO declarou esta arte Património Cultural Imaterial. Esse facto não impede, todavia, que esta tradição esteja em vias de extinção. Dos artesãos que conheciam os segredos desta arte apenas cincos persistem. Acresce que muitos não têm a quem transmitir o seu saber. O que encerra em si mesmo o risco de este património nacional se perder. Foi na voz de Eugénia Almeida, vice-presidente, que ficamos a conhecer mais sobre esta arte e sobre os vários esforços de preservação e valorização concretizados pelo do Município de Vila Real.

O Barro de Bisalhães tem vindo a tornar-se, fruto de um grande investimento no seu reconhecimento e salvaguarda, num património reconhecido um pouco por todo o país e pelo mundo. O que é, afinal, o Barro de Bisalhães?

A Louça Preta de Bisalhães é um património cultural relevante que pertence, por direito, ao ADN das gentes de Bisalhães e, por amor, à maioria da população de Vila Real. Atualmente, após classificação pela UNESCO, pertence a toda a Humanidade.

Este património cultural, cujo processo de confeção o torna único e diferente, resulta de um conhecimento ancestral, colocado nas diferentes fases necessárias à confeção das peças de barro. Aqui reside o segredo desta louça negra que, transmitido em contexto ou oralmente, de geração em geração, pessoa a pessoa, normalmente na mesma família, se envolve, num determinado conjunto de tarefas, devidamente distribuídas, mas que se revelam de grande importância, na confeção da Louça Preta de Bisalhães.

As peças que nascem pelas mãos dos artesãos são cozidas em velhos fornos abertos na terra, onde são queimadas giestas, caruma, carquejas e abafadas depois com terra escura, a mesma que lhe vai dar a cor negra. Que métodos de produção dão as características tão peculiares das peças de Barro Preto de Bisalhães, e que características são essas? (Há ainda quem diga que aufere um sabor diferente à comida)

É de facto, um trabalho moroso que passa por diferentes etapas, desde o guardar e separar o barro no ‘celeiro’, ao picá-lo no ‘pio’, peneirá-lo para a ‘gamela’, onde é misturado com água, até se formarem as “peis”, guardadas em locais húmidos e depois usadas pelos oleiros que, as ‘coldra’, para amaciar e retirar o excesso de ar. Assim se consegue o ‘embolado’, colocado com perícia, no centro da roda baixa, ao ritmo pretendido pelo oleiro, que com ajuda dos ‘augueiros’, ‘fanadouros’ e ‘cegas’ faz nascer as peças que tanto admiramos.

Depois, são colocadas ao ar a secar, para que as mulheres as possam ‘gogar’, usando pequenas pedras, desenhando flores, folhas e linhas, ou outros motivos, cujo gosto ou a inspiração do momento, consigam representar.

Segue-se a cozedura, um dos principais passos do processo, talvez aquele que mais caracteriza a Olaria de Bisalhães, pois é durante a mesma, nos térreos fornos, que a louça adquire a tão característica cor preta.

E o que tem, de diferente e especial, a cozedura do Barro de Bisalhães?

Num trabalho familiar coletivo, com muita e ancestral sabedoria, vão-se colocando as peças, das maiores, no fundo, para as mais pequenas, em cima, todas devidamente acamadas e cobertas com giestas, carumas, carquejas (dias ou meses antes recolhidas e guardadas), ramas estas que também vão alimentar a boca do forno, que atinge elevadíssimas temperaturas. Quando o oleiro decide, este processo finaliza e toda esta pilha é abafada com terra, fazendo com que, durante várias horas, não exista qualquer fuga de fumo, ou entrada de oxigénio, para garantir que a cor negra seja uma realidade.

Após algumas horas, e por decisão dos oleiros (já que a cozedura é muitas vezes com louça de um ou mais oleiros), começa a abertura do forno, com muito cuidado e destreza, quer pela temperatura do mesmo, quer pela sabedoria que implica o afastar da terra, sem danificar as peças já cozidas.

E que acontece às peças de Barro de Bisalhães após essa cozedura tão única?

Após esta dura missão, são retiradas e arrefecidas uma a uma, pequeninas, pequenas, médias e grandes maravilhas que, com perícia e saber, são limpas do pó, com cuidadosas batedelas de farrapos. Depois, são colocadas em cestos, pelas mulheres, que incansavelmente ajudam em todo este processo, transportando-as até suas casas, a fim de as prepararem para as bancas de venda, chegando até nós dois fantásticos tipos de louça: a chamada louça ‘Churra’ (utilitária), alguidares de forno, assadeiras, talhas, e a louça ‘Fina’ (decorativa) bilhas de segredo, bilhas de rosca, pratos e pucarinhos de peito ou perna, etc. Este aspeto, marcadamente artesanal, caracterizado pela manufatura de todas as peças que, ainda hoje, mantém os tradicionais traços da preparação, modelação e cozedura, é o que nos proporciona o usufruto da Louça Preta de Bisalhães.

Qual a sua importância na identidade Vilarealense?

A Louça Preta de Bisalhães é parte integrante da alma Vila-realense, podendo mesmo afirmar-se que não existirá nenhuma família, em Vila Real, que não possua ou utilize as lindas e diferentes peças ‘churras’ ou ‘finas’, no seu quotidiano. Não há, atualmente, quem não associe este tipo de louça a Vila Real, tornando-a um verdadeiro símbolo da nossa cidade. Esta relação muito se deve à ligação histórica do processo de confeção da Olaria de Bisalhães, com as Festas da Cidade, na icónica ‘Feira dos Pucarinhos’, no dia de S. Pedro, e que se constituiu, durante muitos anos, como a principal oportunidade de venda das produções dos oleiros.

A autenticidade e riqueza deste processo leva-nos a valorizá-lo, preservá-lo e divulgá-lo com toda a força e alma do Ser transmontano e principalmente do ‘SENTIR’ Vila-realense.

E em Bisalhães, aldeia de onde é originada esta arte, como é sentida a olaria?

O orgulho nesta arte mostrado na sua terra de origem, Bisalhães, está patente na presença de uma bilha de rosca, no brasão da freguesia de Mondrões. Foi valorizando esta nossa identidade, fortemente associada ao património cultural imaterial, que se possibilitou chegar, com muita dificuldade até aos dias de hoje, ao usufruto desta raridade, a Louça Preta de Bisalhães, que é sentida, por ‘TODOS’, como muito ‘NOSSA’.

A autenticidade e riqueza deste processo leva-nos a valorizá-lo, preservá-lo e divulgá-lo com toda a força e alma do Ser transmontano e principalmente do ‘SENTIR’ Vila-realense.

A Louça de Bisalhães está também associada a outra das grandes marcas identitárias de Vila Real: as Corridas Automóveis. Como se relaciona barro com automóveis?

A relação com o Circuito Internacional de Vila Real é muito natural, estando esta marca presente nos cartazes que se foram produzindo, ao longo do século XX. Tanto a Feira dos Pucarinhos como as Corridas faziam parte das Festas da Cidade.

Já no século XXI, o troféu que é entregue aos vencedores das corridas, fruto de um concurso que conjugou a tradição e o futuro, foi o continuar desta memória.

Usando como referência o conhecimento produzido durante o processo de inventário e num esforço de valorização desta arte ancestral, elaborou-se um plano estratégico de salvaguarda, para o qual se efetuou, através de 4 eixos de intervenção, uma previsão de gastos, a inserir no orçamento do Município de Vila Real.

No final de 2016, o Barro Preto de Bisalhães foi inscrito na lista do Património Cultural Imaterial que necessita de salvaguarda urgente da Unesco. O que mudou desde então?

O reduzido número de oleiros e as dificuldades manifestadas neste procedimento, levaram a esse passo importante, o reconhecimento pela UNESCO. Assim, no dia 29 de novembro de 2016, o Processo de Confeção da Louça Preta de Bisalhães foi inscrito na Lista de Património Cultural que Necessita de Salvaguarda Urgente. Usando como referência o conhecimento produzido durante o processo de inventário, e num esforço de valorização desta arte ancestral, elaborou-se um plano estratégico de salvaguarda, para o qual se efetuou, através de quatro eixos de intervenção, uma previsão de gastos, a inserir no orçamento do Município de Vila Real.

Muito foi feito, muito ainda há para fazer, mas os resultados deste investimento material e imaterial começam a dar os seus frutos, com a crescente procura do barro de Bisalhães para casamentos, batizados, festas de curso, seminários, encontros, simpósios, provas desportivas, sorteios, decorações de lojas comerciais, materiais de cariz promocional, materiais de apoio à restauração, ofertas institucionais, etc.

A UNESCO contribui monetariamente para este processo de salvaguarda? Há algum apoio financeiro desta instituição para a preservação da Olaria de Bisalhães?

Não, não cabe à UNESCO a atribuição de qualquer verba para esse efeito. A UNESCO reconhece a importância do património e inscreve-o nas suas listas, mas cabe a todos nós, nomeadamente ao Município, o esforço financeiro necessário para atingir esse objetivo.

Como pretende o Município de Vila Real salvaguardar este património? Há algum planeamento elaborado com esse objetivo?

O Município de Vila Real, na valorização da arte de Bisalhães, delineou uma estratégia de intervenção, para a qual contribuíram as parcerias com várias instituições (Juntas de Freguesia de Mondrões e Vila Real, NERVIR, UTAD, IEFP, Rede Portuguesa de Museus, Museu da Olaria, Museu Alberto Sampaio, DRCN, DGPC) e com Vila-realenses e outras pessoas, portuguesas e estrangeiras, através de diferentes tipos de publicações e trabalhos no terreno. Nessa estratégia, priorizou-se a Inscrição no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial, do Processo de Confeção da Louça Preta de Bisalhães, muito contribuindo o trabalho de João Luís Sequeira, Paulo Costa e João Ribeiro da Siva.

E quanto às pessoas que fazem a arte, que preservam o Barro de Bisalhães, houve algum reconhecimento ou homenagem?

Sim, claro. Desde logo, a atribuição, em 2015, da mais alta condecoração do Município, Medalha de Ouro de Mérito Municipal, aos oleiros Albano Carvalho, Cesário da Rocha Martins, Manuel da Rocha Martins, Querubim Queirós da Rocha e Sezisnando Ramalho. É ainda de valorizar dois jovens oleiros, Jorge Ramalho, a trabalhar em exclusividade e a realizar, para além de outras, algumas peças de caráter inovador e Miguel Fontes, neto de oleiros que, não fazendo da olaria a sua principal atividade profissional, tem abraçado fielmente esta arte e ajudado, em todos os contextos, a manutenção desta tradição.

Que iniciativas têm sido realizadas para a preservação deste património, que estratégias podem ser criadas para valorizar esta arte e fazer perpetuar no tempo?

Apesar das iniciativas realizadas, nas últimas décadas, quer pelo Município de Vila Real, quer por várias outras pessoas e instituições, a preservação e manutenção desta arte tem sido uma tarefa muito árdua. No entanto, e no cumprimento das estratégias elencadas no Plano de Salvaguarda, o Município (exclusivamente com verbas próprias) pode, com orgulho, afirmar que são inúmeras as ações materiais e imateriais que tem levado a efeito, das quais destaco:

  • Instalação, numa rotunda da cidade, de uma escultura representativa da Bilha de Rosca de Bisalhães;
  • Medalha de Mérito Municipal – Grau Ouro, aos Oleiros que preservaram a arte;
  • Medalha de Mérito Municipal – Grau Prata, aos oleiros que estão a dar continuidade à arte;
  • Ofertas de peças, em Barro de Bisalhães, a altos dignatários, nacionais e estrangeiros, que visitaram o Município;
  • Oferta de uma Bilha de Bisalhães a Sua Santidade o Papa Francisco, em audiência no Vaticano;
  • Promoção de uma visita do Senhor Primeiro Ministro, António Costa, a Bisalhães;
  • Ofertas de Barro de Bisalhães a todos os cantores e artistas que atuaram no Município;
  • Emissão Nacional de Selos dos CTT alusivos ao Barro de Bisalhães;
  • Realização do I ENCONTRO NACIONAL “BISALHÃES A LOUÇA PRETA”;
  • Reportagem, com capa, na revista “MorningCalm”, da companhia aérea Sul Coreana;
  • Concurso de ideias para os troféus do Circuito Internacional de Vila Real;
  • Presença e divulgação, do Barro de Bisalhães, em mais de 40 programa televisivos;
  • Presença e divulgação, do Barro de Bisalhães, no dia aberto, no Palácio de S. Bento;
  • Dinamização/demonstração de várias ações vocacionadas para as crianças, jovens e idosos, por parte do serviço educativo dos Museus;
  • Atelier pequenos oleiros, realizado mensalmente, pelo serviço educativo dos Museus;
  • Pinheiro de Bisalhães – Árvore de Natal do Museu de Arqueologia e Numismática, feito com peças de barro;
  • Barro de Bisalhães – prémio nacional Cinco Estrelas Regiões 2019 e 2020;
  • Feira dos Pucarinhos (jogos e diversões relacionados com o barro), no largo da Capela Nova;
  • Exposição coletiva “CARUMA, UM OLHAR SOBRE BISALHÃES”. A visão de 15 jovens, através da risografia;
  • Leilão solidário de peças de barro preto de Bisalhães, personalizadas por graffiters do Pitoresco – Festival anual de Street Art;
  • Elaboração e distribuição de flyers informativos;
  • Aquisição, para a coleção particular do Município, de novas peças;
  • Presença do Barro de Bisalhães em todas as feiras de turismo, nacionais e internacionais, em que o Município esteve presente;
  • Mural dedicado ao Barro Preto de Bisalhães;
  • Reabilitação dos pontos de venda do Barro de Bisalhães, atribuídos gratuitamente aos Oleiros;
  • Visitas periódicas aos oleiros para acompanhamento do trabalho;
  • Elaboração de publicações, filmes, fotos e postais alusivos à arte;
  • Investimento de 498.865 euros, em pavimentações na freguesia de Mondrões, desde o início da gestão municipal por parte do atual executivo, melhorando as acessibilidades e o acesso a Bisalhães. Deste valor destaca-se a construção de uma nova ponte, paralela à Ponte dos Machados, no valor de 155.000 euros, melhorando os acessos a Mondrões, Vila Marim e Parada de Cunhos;

Portanto, há variadíssimas ações concretas que temos desenvolvido a favor do Barro de Bisalhães. Creio, portanto, que fica clara a existência de algumas das variadíssimas ações que temos desenvolvido a favor do Barro Preto de Bisalhães.

Em 2015, o Município de Vila Real reconheceu, através da mais alta condecoração, Medalha de Ouro de Mérito Municipal, os oleiros Albano Carvalho, Cesário da Rocha Martins, Manuel da Rocha Martins, Querubim Queirós da Rocha e Sezisnando Ramalho. É ainda de valorizar dois jovens oleiros, Jorge Ramalho, e Miguel Fontes.

Apesar de todas essas iniciativas, restam apenas 5 oleiros? Como manter esta arte viva e como atrair novos artesãos para esta arte?

Ao longo de décadas, a transmissão de conhecimentos às novas gerações (quer no seio das famílias da aldeia, quer nos infrutíferos cursos de formação realizados), não foi acautelada pela comunidade local. Essa é uma realidade que impede a vinda de novos artesãos para esta arte.

O árduo trabalho do processo de confeção da Louça Preta de Bisalhães (transporte, recolha da matéria prima, preparação das peças, processo de cozedura e venda), a tradicional divisão de tarefas, com a intervenção das mulheres, a pouca valorização social desta arte, levando as unidades familiares de produção, principalmente as gerações mais novas, a emigrar, procurando novos modos de vida, a progressiva substituição das peças de barro preto, por outros objetos de fabrico industrial, são também algumas das grandes razões para o abandono na produção da Louça de Bisalhães. E chegarmos aos dias de hoje, com apenas cinco oleiros, já com bastante idade, sendo que dois deles, praticamente já não conseguem trabalhar e os restantes mantêm a atividade, com algumas limitações. A esperança vem de dois jovens e promissores oleiros que, com a sua perseverança, têm dado continuidade a todo esse saber e nos quais, apesar de diferentes vicissitudes, mantemos a vontade de projetar o que todos nós pretendemos, a continuidade da Olaria de Bisalhães.

No momento da escrita deste texto é com pesar que vimos partir um dos mestres oleiros Sezinando Ramalho, o que deixa a todos mais pobres. Com ele desaparece mais um rosto de Bisalhães, que tanto dedicou a sua vida, mãos e amor a esta arte ancestral.