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A perda de João Gilberto é também perceber que a cultura vive apenas do passado.

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“Chega de Saudades” são acordes sonantes e abertos que marcaram a cultura de uma língua. João Gilberto não foi apenas um músico no universo da língua portuguesa, a sua guitarra discreta, mas de som cheio tornou-se uma referência num estilo que mudou o panorama da música mundial. Raras vezes a guitarra foi tão amada na sua falsa simplicidade, acordes dificílimos e em suave atraso com a melodia de voz, o que por vezes causa uma aparente dissonância.

João Gilberto já conhecia bem a história da melodia brasileira, mas a bossanova seria um mundo inteiramente novo, numa harmonia melódica entre o samba brasileiro e a canção íntima, ancorada numa guitarra acústica e com pormenores do jazz americano. O dedilhado de guitarra numa harmonia entre acordes abertos e maiores, era tão tropical quanto delicado, tão leve quanto melancólico. Não esquecendo Tom Jobim e Vinicius Moraes, João Gilberto foi um dos nomes que trouxe o bossanova ao mundo. E destaque-se que viria a ser um dos estilos mais influentes da música – do jazz ao rock, passando pelo indie ou pelo folk, são vários os géneros em que a bossanova deixou a sua marca.

A perda de João Gilberto traz consigo a questão cultural. Onde paira a cultura nos tempos contemporâneos? Porque tem sido empurrada para um plano secundário?

A cultura é tão importante quanto a identidade e é muito mais que as artes. A cultura é também valores e história, é uma definição abstrata onde tudo se pode interpretar. Hoje a cultura vive de glórias passadas, nas artes enaltecem-se décadas passadas e esquece-se o presente, talvez por consequência de uma cultura que pretende capitalizar tudo, até o mais improvável – a identidade. As artes são o exemplo perfeito para falar de uma crise cultural. O saber nunca esteve tão acessível, no entanto consumimos o que o sistema de publicidade nos oferece.

É certo que não há uma definição concreta do que torna a arte em arte, interessa apenas que agrade quem a contemple. Mas existe uma grande manipulação para que o consumidor aprecie uma obra. A indústria da música é um dos exemplos da capitalização das artes. Hoje o mundo da música vive em torno de meia dúzia de agências e editoras que aproveitam a euforia coletiva para fazer do sensualismo o expoente máximo das artes. As produtoras intercalam três ou quatro acordes em ritmos semelhantes e colocam uma voz bonita numa lírica corriqueira e sem conteúdo, cientes que o minimalismo é cada vez mais um meio para chegar ao público.

Não se deve descredibilizar as músicas atuais, apesar de durarem meses até serem esquecidas. É importante ressalvar que atualmente existem grandes artistas nos mais diversos estilos musicais, incluindo géneros mais contemporâneos. Mas onde andam eles? A internet dá a resposta a quem pretende mais, a quem quer saber as razões de gostar de algo. Percebe-se com isto que a manipulação coletiva existe e é mais fácil de se colocar em prática do que aquilo que a maioria das pessoas pensa. A globalização está longe de ser algo negativo mas não devemos inferiorizar hábitos culturais, até porque a nossa identidade não é americana, e a cultura portuguesa (se ela ainda prevalece) tem bem mais história. Enaltecer a cultura é essencial para o funcionamento social e não é por acaso que uma empresa com uma boa identidade cultural tem melhores resultados e desempenhos. Serão meros acasos?

Não temos de gostar todos do mesmo, mas temos de saber porque gostamos. É necessário que no turbilhão diário de afazeres e nas enxurradas de trabalho sejamos mais exigentes no que consumimos e, consequentemente, no que somos. Queremos ser todos diferentes sendo todos iguais o que dissipa a primeira premissa. Somos portanto todos iguais, de identidade similar e devemos parar para perceber porquê. Infelizmente uma crise cultural existe há muitos anos. A indústria cultural – ou uma tentativa de afirmação da mesma –, continua a ser olhada com desconfiança em Portugal. É urgente que os órgãos de poder e as empresas percebam a importância que a cultura pode ter na economia nacional. Queremos mais personalidades como João Gilberto para que a cultura não viva apenas do passado. Na era do conhecimento, não podemos deixar que o dinheiro se torne a cultura.

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