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Nem China, nem Itália: Muitos europeus infetaram-se numa estância de ski

Resort austríaco de luxo em Ischgl foi o foco do contágio de seis países da Europa, com mil infetados. Local foi frequentado por milhares de pessoas nas férias de Carnaval, tendo as festas aprés ski sido o barril da pólvora COVID-19.

O primeiro alerta oficial chegou da Islândia, ainda que metade dos turistas na estância de ski de Ischgl, na Áustria, sejam alemães. Mas foi aquele país nórdico o primeiro a verificar que os conterrâneos que foram passar férias naquele resort de luxo, espalharam o vírus pelo país. Como é que o sabem? Porque, depois da situação se ter descontrolado em Itália, começaram a testar os passageiros no principal aeroporto de Reykjavik (capital islandesa) a partir do final de fevereiro. E a 4 de março detetaram 14 passageiros da Iceland Air que tinham regressado a casa via Munique depois de terem passado o Carnaval em Ischgl.

Seguiram-se a Noruega, a Dinamarca, a Suécia, a Alemanha e o Reino Unido (onde o paciente zero inglês terá sido infetado na estância austríaca, mas muito antes dos doentes nórdicos e alemães). Um total de mil infetados.

Ischgl foi de tal forma a porta de entrada da COVID-19 no país vizinho que o ministro da Saúde do governo da região Baden-Württemberg, no sul da Alemanha, disse mesmo que o “nosso problema não se chama Irão, chama-se Ischgl”, em declarações à agência DPA citadas pela CNN.

E o que fez a Áustria? Nada.

Até desvalorizou os avisos dos países nórdicos, ‘atirando a culpa’ a Itália e insinuando que os passageiros islandeses teriam sido infetados por alguém que seguia no mesmo avião e que tinha estado no norte do país transalpino. “Sob essa suposição, do ponto de vista médico, parece improvável a existência de contágios no Tirol”, afirmou Franz Katzgraber, responsável sanitário daquele land.

Um land é um estado, pois, tal como a Alemanha, a Áustria é uma República Federal e os diferentes estados têm competências alargadas, nomeadamente em termos de saúde. Ou seja, podem decidir sozinhos. E como tinham tido antes, a 25 de fevereiro, um casal de italianos (dois rececionistas de um hotel em Innsbruck) como os primeiros infetados pelo novo coronavírus, desvalorizaram o aviso islandês recebido a 5 de março.

O que correu mal na ‘Ibiza do ski’?

Para percebermos isto, temos de perceber como funciona aquele tipo de resorts. Muito procurados no Carnaval, altura em que há neve e as pessoas estão de férias, reúnem uma enorme quantidade de pessoas, de todas as faixas etárias, mas sobretudo das classes sociais mais elevadas.

Depois de esquiarem, todos se juntam nos restaurantes, bares e discotecas com festas aprés ski. São espaços pequenos, onde a folia – e a falta de higiene, como iremos comprovar – reina.

Ischgl, pequena vila dos Alpes austríacos, é conhecida por ‘Ibiza do ski’ por alguma razão. Localizada no vale de Paznaum, da região do Tirol, é muito frequentada por jovens alemães, austríacos e nórdicos. A socialite e DJ Paris Hilton, a supermodelo Naomi Campbell e o antigo presidente dos EUA, Bill Clinton, são alguns dos clientes famosos. Naqueles resorts, uma noite pode custar mais de 5 mil euros.

Os resorts são igualmente conhecidos em toda a Europa pelos seus aprés ski, espaços pequenos que ficam apinhados ao final da tarde, depois de esquiarem, mas o principal foco terá sido no Kitzloch.

Porquê Kitzloch?

Um barman terá sido o responsável por infetar mais de 100 clientes de diferentes nacionalidades que transportaram a COVID-19 para diversos países europeus. Porquê? Porque os empregados do Kitzloch usam um apito, que têm ao pescoço, para conseguir abrir caminho na multidão. Segundo a tradição do bar, os clientes também sopram do mesmo apito, o que terá promovido o contágio.

Além disso, há um jogo famoso no Kitzloch e noutros bares de aprés ski de Ischgl: o beer pong. O jogo consiste em colocar uma bola pequena, tipo ping-pong, na boca e lançá-la para dentro de uma caneca de cerveja. A mesma bola terá sido utilizada por dezenas e centenas de jovens, o que facilitou a troca de saliva e, claro, o contágio.

Além do barman de 36 anos que terá infetado mais de 100 clientes (e cuja nacionalidade não é clara, com uns media austríacos e alemães a garantirem que é norueguês e outros a assegurarem que é alemão), mais de 15 dos 22 restantes empregados do Kitzloch deram positivo para o novo coronavírus, segundo referiu o dono do Kitzloch.

Ischgl demorou dias a reagir nas estâncias de ski e encerrá-las, esperando quase até ao final da temporada para isso. Não só por desvalorizarem os avisos dos outros países, mas também porque as autoridades sanitárias do estado do Tirol não tomaram qualquer medida, mesmo depois do país já ter fechado a fronteira com a Itália.

“Ganância e fracasso no Tirol”, título de um artigo de opinião de Thomas Mayer no jornal austríaco ‘Der Standard’, pode muito bem descrever o que se passou em Ischgl.

Entretanto os resorts foram encerrados e já foi aberto um inquérito criminal na Áustria para apurar eventuais responsabilidades criminais na alegada negligência das autoridades do land do Tirol.

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