Blog Editoriais

EDITORIAL | EDIÇÃO 60 | JANEIRO 2026

Quando, demasiado cedo e de repente, não temos ninguém que nos diga que vai ficar tudo bem, aprendemos sozinhos que não faz mal.

Não se trata de transformar um trauma em virtude, nem de construir uma narrativa de superação. Trata-se de uma adaptação estrutural, lúcida, elementar.

A alternativa seria viver em pânico.

No espaço público, essa exigência aplica-se à linguagem. Quando se escolhe falar de forma vaga, tanto pode ser por cálculo como por incapacidade. Em alguns casos, evita-se o momento de assumir uma decisão. Noutros, simplesmente não se sabe dizer melhor. O efeito, porém, é idêntico. Cria-se uma zona intermédia, cinzenta, suficientemente respeitável para não ser questionada e imprecisa para não comprometer ninguém.

É aí que entra a palavra grande a ocupar o lugar da explicação concreta. Todos tivemos a experiência do bom professor que explica conceitos complexos de forma simples e inteligível. Essa simplicidade resulta de quem sabe exatamente o que está a dizer.

A palavra inflacionada cumpre a função oposta. Permite falar sem se expor, ocupar espaço sem assumir consequências. Nada esclarece. O seu único valor está em adiar, em ganhar margem, em manter tudo suficientemente aberto. Este mecanismo tornou-se habitual na comunicação profissional, institucional, política e mediática. Não porque todos os intervenientes sejam cínicos ou estrategas, mas porque a combinação entre mediocridade, conveniência ou simples medo de errar produz resultados semelhantes. Fica-se com um discurso aceitável, talvez formalmente correto, estruturalmente vazio.

Mas há contextos em que isso não funciona.

Há profissões em que o silêncio não é opção e o ruído também não. Onde falar é inevitável, mas cada palavra tem de aguentar o peso do que afirma, porque não há cortinas semânticas atrás das quais se possa recuar. A responsabilidade não surge em momentos excecionais, instala-se como condição permanente.

Quem aprendeu cedo a viver sem garantias traz essa exigência para a forma como comunica. Não por virtude moral, mas por necessidade prática. Palavras ocas são inúteis quando não há rede.

Há, no uso sistemático de linguagem vaga e inflacionada no espaço público, um paternalismo discreto que raramente se assume como tal. A complexidade aparente serve sobretudo para impressionar, não para explicar.

A linguagem clara incomoda precisamente por recusar essa condescendência. Trata quem ouve como adulto, sem confundir franqueza com rudeza, nem clareza com agressividade. Assume, isso sim, que compreender implica lidar com consequências.