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“Na KindCare cuidar é acima de tudo acarinhar, apoiar e motivar”

Na origem da KindCare está uma experiência pessoal que expôs, de forma simples e incontornável, uma fragilidade estrutural no quotidiano de muitas famílias: quem cuida de quem cuida? A resposta que Natália Dias não encontrou no mercado acabou por transformar-se num projeto que cruza cuidado, dignidade e liberdade, abrindo espaço a uma abordagem mais humana (e mais inclusiva) do envelhecimento.

A ideia nasceu de uma circunstância banal, mas reveladora. A mãe de Natália Dias, já idosa e com várias patologias, era acompanhada por diferentes especialistas, o que implicava uma gestão constante de consultas e deslocações. Num determinado dia, quando Natália também precisou de cuidados médicos, percebeu que as agendas colidiam. “Optei por desmarcar a minha consulta e adiar a respetiva resolução, que implicou que o meu mal-estar físico se mantivesse por mais uns dias.” A reflexão surgiu de imediato: “na altura pensei que caso existisse uma empresa que assumisse este tipo de serviços de acompanhamento em atos médicos, poderia ser uma grande ajuda para pessoas profissionalmente ativas.”

Fotografia realizada no hotel Sheraton Cascais Resort

A inexistência de respostas estruturadas no mercado abriu caminho a uma visão mais ampla. “Foi nessa fase que comecei a maturar a ideia de criar uma empresa que ajude pessoas em situações semelhantes, mas que vá ainda mais além e disponibilize outro tipo de soluções, que vão desde a gestão doméstica até apoio em férias, festas, restaurantes e inclusivamente espetáculos.” Assim nasceu a KindCare, não apenas como um serviço de apoio, mas como um conceito assente na continuidade da vida e das rotinas.

Fotografia realizada no hotel Sheraton Cascais Resort

A vida que continua em casa e lá fora

A idade avançada e a necessidade de apoio não anulam a pessoa, nem as suas legítimas aspirações ou momentos de lazer. É esta a ideia que está no centro da atuação diária da empresa. No quotidiano, a KindCare adapta-se às preferências e necessidades de cada pessoa, respeitando a sua individualidade e a forma como sempre organizou a sua vida. O trabalho estrutura-se em duas vertentes complementares: “a primeira é o apoio em casa, onde acompanhamos o idoso nas suas atividades básicas de higiene e de preparação para a saída para o exterior.” A segunda abre o mundo exterior, “direcionada para todo o tipo de atividades de rua, onde acompanhamos a Pessoa Maior nas mais diversas ocupações, sempre escolhidas por ela.”

São muitas vezes gestos simples, mas carregados de significado. “O nosso apoio pode ser algo muito simples mas prazeroso, como acompanhar na ida ao café ou cabeleireiro.” Trata-se da continuidade de hábitos construídos ao longo de anos, que permitem manter contactos, conversas e rotinas familiares, reforçando a segurança e o prazer de viver o dia-a-dia. Noutras situações, o horizonte alarga-se a saídas a restaurantes, espetáculos ou viagens, sempre com acompanhamento adequado.

É neste ponto que o trabalho da KindCare se cruza com o que hoje se designa como Turismo Inclusivo, ainda que a lógica subjacente seja mais profunda do que a etiqueta. “Acreditamos que a idade avançada não pode ser sinónimo de estagnação e que as pessoas devem continuar a manter objetivos.” Estes tanto podem ser quotidianos como excecionais, e vão “desde o prazer de se vestir bem, de manter a imagem cuidada, até ter uma experiência de conduzir um kart, um Lamborghini, andar de balão ou fazer uma viagem.” Para quem usufrui do serviço, a vantagem é clara, com as suas saídas organizadas, com total segurança e conforto, e onde tudo “flui de forma descontraída”.

Fotos: Pedro Villa

A inclusão passa também pela presença nos grandes momentos familiares, com o necessário apoio em eventos festivos, como casamentos, batizados ou aniversários. São momentos em que a importância emocional é determinante. “O facto de os idosos poderem fazer parte da festa do neto ou bisneto e celebrarem estes grandes momentos em família é crucial para o seu bem-estar emocional porque continuam a sentirse integrados, bem-vindos, criando recordações que podem partilhar com os amigos.” O impacto estende-se à família que fica, naturalmente, “feliz por manter a companhia dos Maiores nestes encontros memoráveis.”

Esta abordagem implica uma mudança de olhar sobre o próprio conceito de cuidado. “Na KindCare cuidar é acima de tudo acarinhar, apoiar e motivar”. O que implica também contrariar ideias feitas. “A grande mudança que pretendemos propor é que com o avançar da idade as Pessoas Maiores não precisam de se manter limitadas à habitação, rodeadas de recordações.” Pelo contrário, “através do nosso apoio podem continuar a criar as suas próprias histórias e manter atividades que lhes são prazerosas, combatendo a solidão e contribuindo para a sua longevidade.”

Fotos: Pedro Villa

A confiança começa em quem cuida

Nada disto é possível sem confiança, num setor em que o cuidado acontece dentro da intimidade da casa e da vida das pessoas. Na KindCare, essa confiança começa muito antes do primeiro acompanhamento e constrói-se logo na forma como são escolhidos os colaboradores. O processo de seleção valoriza a forma como cada candidato se expressa, se relaciona e fala da sua própria experiência de vida, procurando perceber atitudes, sensibilidade e capacidade de escuta. A entrevista é o primeiro passo, um momento em que, como sublinha Natália Dias, na realidade quer “ouvi-los falar”. Segue-se um percurso de formação com simulação de situações reais e acompanhamento supervisionado, que termina com feedback estruturado, garantindo que quem chega ao terreno o faz com preparação técnica e humana.

Num contexto de maior vulnerabilidade, o equilíbrio entre proximidade e respeito é permanente. Antes de iniciar qualquer acompanhamento, são recolhidas informações sobre hábitos, dietas, preferências, medicação e limites de intimidade, criando uma base de confiança desde o primeiro momento. No quotidiano, o cuidado faz-se de atenção ao detalhe e de diálogo constante, questionando e ajustando cada gesto para garantir conforto e bem-estar.

Fotografia realizada no hotel Sheraton Cascais Resort

Num país que envelhece rapidamente, Natália Dias acredita que projetos como a KindCare podem ajudar a desmontar preconceitos persistentes. “Atualmente existe o preconceito que com idade as pessoas tornam-se incapazes, estão menos ativas e devem permanecer em casa porque dão trabalho.” A experiência mostra outra realidade. “Através da ajuda da KindCare conseguimos aliviar a quantidade de tarefas e criar espaço para relações próximas, equilibradas e afetivas, onde o tempo partilhado deixa de ser dominado pelo peso da preocupação e passa a ser vivido com presença, cuidado e qualidade.”