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“O meu principal objetivo é levar a saúde mental aos quatro cantos do mundo”

Abrimos o ano com Eduarda Figueiras, psicóloga, fundadora de um projeto clínico que tem crescido de forma sustentada entre a prática presencial e online. Nesta conversa, partimos da escuta, um traço fundador do seu percurso, para percorrer os desafios da construção de um consultório, o equilíbrio entre clínica e gestão, a expansão da equipa e uma abordagem terapêutica marcada pelo rigor, pela empatia e pela atenção ao ritmo de cada pessoa.

Eduarda, abrimos esta primeira edição do ano consigo. Na nossa entrevista anterior revelou-nos que, desde cedo, era reconhecida como uma boa ouvinte. Hoje, com o percurso que construiu, como avalia essa vocação inicial e que lugar ocupa ainda na forma como exerce o seu trabalho clínico?

É verdade que desde muito cedo percebi que ouvir não era apenas uma característica minha, mas sim a minha forma de estar no mundo. Claramente que, na altura, não tinha consciência do quanto escutar era importante. Mas hoje, olhando para o percurso que construí até ao momento, reconheço que essa vocação inicial é um dos pilares fundamentais para a minha prática em contexto clínico.

Escutar ativamente continua a ocupar um lugar central no meu trabalho, mas com novos contornos. Já não se trata apenas de escutar o que a pessoa diz, trata-se de compreender o que não consegue pôr em palavras, de acolher silêncios, de reconhecer emoções e de criar um espaço seguro onde os clientes se sintam verdadeiramente ouvidos e compreendidos.

Numa fase inicial falou-nos das dificuldades em encontrar um espaço físico no centro de Braga para iniciar o consultório. Que aprendizagens retirou desse início e que conselhos deixaria a quem procura hoje erguer um projeto semelhante?

O início do meu percurso foi marcado por diversos desafios, e encontrar um espaço físico no centro de Braga foi um dos maiores. Na altura, sentia que cada sítio que visitava deixava o meu sonho mais longe! Isto porque, depois de visitar alguns espaços e não encontrar nenhum que tivesse as condições necessárias, fez com que o desânimo e a desmotivação começassem a aparecer. Mas como ter um espaço físico era um dos maiores sonhos, isso fazia com que eu no dia seguinte arregaçasse as mangas e voltasse à luta.

A constante procura fez-me perceber que ter um consultório não é apenas encontrar uma sala, mas sim encontrar um espaço que faça sentido para a prática clínica, um espaço acolhedor, onde os clientes entrassem e se sentissem bem, acolhidos num sítio harmonioso. Estas características do espaço são importantes para o tipo de relação terapêutica que queremos promover e para o bemestar das pessoas que acompanhamos.

Esse início obrigou-me a ser criativa, a procurar alternativas, a negociar e, sobretudo, a confiar no processo mesmo quando o caminho parecia lento. Por isso, o que eu diria a alguém que está nessa fase é para ter paciência e confiar no processo. A flexibilidade e a proatividade também são fundamentais, uma vez que, muitas vezes, é importante parar e pensar em novas soluções e não “desistir” apenas porque as coisas não estão a ser como planeadas.

Entre a prática clínica e a gestão há sempre um ponto delicado de equilíbrio. Como foi construindo esse equilíbrio no consultório e que princípios definiu para assegurar consistência e qualidade no trabalho diário?

Conciliar as consultas com a gestão do consultório foi, no início, desafiante, mas aprendi com o tempo que era um exercício de equilíbrio e que para tal tinha de existir gestão de prioridades e, consequentemente, gestão de tempo. Fui percebendo ao longo do tempo que para garantir a qualidade nas consultas precisava de criar blocos de tempo. Por isso, diria que ter uma rotina clara e estruturada, uma vez que permite dividir o tempo entre a gestão do consultório e a prática clínica.

Foi esta gestão que me permitiu manter o foco, reduzir o stress e assegurar que cada área recebesse a atenção necessária. É de igual modo importante ser realista e definir limites para que possa dar o meu melhor em ambas as partes. Contudo, posso dizer que no meu caso sempre dei prioridade à parte clínica, isto porque o centro do consultório continua a ser a relação terapêutica. A qualidade do trabalho diário assenta na escuta, na ética, na formação contínua e na capacidade de refletir sobre a prática em supervisão.

A entrada de duas novas psicólogas marcou uma nova fase no seu projeto clínico. Que significado pessoal atribui a esse momento e de que forma escolhe as pessoas que quer ao seu lado?

A entrada de duas novas psicólogas – Dra. Rita Peixoto e da Dra. Filipa Pereira e de uma psiquiatra – Dra. Inês, representou um marco importante no meu percurso, uma vez que sempre quis ter uma equipa de saúde mental. No entanto, marca também o crescimento natural do projeto e faz-me crer que estou no bom caminho quando digo que o meu principal objetivo é levar a saúde mental aos quatro cantos do mundo com profissionalismo, empatia, responsabilidade e ética. Foi um passo que exigiu responsabilidade da minha parte, mas que também me trouxe um sentimento de realização.

No recrutamento procuro profissionais que partilhem os mesmos valores que eu: ética, empatia, compromisso com a formação contínua e respeito profundo pelo processo terapêutico de cada pessoa. Mais do que competências técnicas, são, na minha opinião, essenciais nas consultas de Psicologia e Psiquiatria. Ninguém cresce sozinho! Acredito que os projetos só se sustentam verdadeiramente quando são construídos com pessoas que se alinham nos valores, missão e visão. Os meus foram descritos no Manual de Cultura do Consultório e partilhados com a minha equipa. Por isso, esta nova fase não é apenas um crescimento estrutural; é, acima de tudo, um crescimento humano, que reforça a identidade e a qualidade do trabalho que quero oferecer.

Enquanto psicóloga, desenvolveu um método próprio de olhar para as pessoas. Como descreveria hoje a sua abordagem clínica, os elementos que a distinguem, a forma como integra diferentes modelos e o que considera essencial numa sessão consigo?

Ao longo do meu percurso, sempre foi claro para mim que para eu poder atender os meus clientes com qualidade, profissionalismo e rigor, o conhecimento teria de ser constante e o principal pilar da minha abordagem. Este poderia ser obtido através de formações, workshops e com supervisão contínua para melhorar o meu raciocínio clínico. Outro dos meus principais valores é a empatia e a individualidade de cada cliente.

Cada caso é um caso e, mesmo que o caso seja muito semelhante, existem sempre experiências, vivências, crenças e histórias de vida diferentes e, por isso, os valores são os mesmos, mas a abordagem pode ser diferente. Desta forma, a minha intervenção não é rígida, isto é, não trabalho apenas com a Terapia Cognitivo-Comportamental, apesar desta ser a minha abordagem de base, mas uso outras quando necessário como, por exemplo, a Terapia Dialética. Para mim, o importante é que a abordagem seja adequada ao ritmo e às necessidades do meu cliente.

O que distingue a minha forma de trabalhar é, sobretudo, a combinação de três elementos: uma escuta ativa e intencional. Para mim, escutar não é apenas ouvir o que a pessoa diz – é compreender, é validar, é acolher o que está a sentir, é criar um espaço onde a pessoa se sinta verdadeiramente segura. Integração de diferentes modelos. Dependendo do caso, recorro a modelos como a Terapia CognitivoComportamental, a Terapia Focada nas Emoções, Terapia Dialética e abordagens de base humanista, escolhendo aquilo que melhor se ajusta ao momento e ao objetivo terapêutico e uma relação terapêutica de confiança, onde eu e o cliente sejamos uma equipa.

Acredito que a mudança acontece dentro de uma relação segura, transparente e baseada na confiança. Por isso, valorizo muito a presença, a clareza e o respeito pelo ritmo de cada pessoa. O essencial numa sessão comigo é a pessoa sentir-se acolhida, compreendida e acompanhada desde o início ao fim do processo terapêutico, que não se sinta julgada/criticada.

O crescimento da prática online obrigou-a a encontrar um registo próprio para estar com as pessoas à distância. Que competências sentiu precisar de refinar para que a relação terapêutica se mantivesse profunda, mesmo através de um ecrã?

As consultas on-line têm muitas vantagens e uma delas é levar a saúde mental aos quatro cantos do mundo. Desde o início do meu Ano Profissional Júnior que eu trabalho com consultas on-line. Neste momento, estou em mais de dez países diferentes e de norte a sul de Portugal, incluindo os Açores e a Madeira. O que eu senti inicialmente é que as consultas on-line requerem uma abordagem estruturada e bem definida, desde a escolha da plataforma pela qual a pessoa vai fazer a consulta até ao acompanhamento entre consultas.

A comunicação deve ser mantida e potenciada nesta forma de consulta com uma boa dicção e com um tom de voz ajustado, com pequenos gestos. É importante ir perguntando ao cliente se está a acompanhar, de modo a poder ir clarificando sempre o que possa não ter sido tão bem percebido ou partes menos audíveis. Quanto mais clara e eficaz for a comunicação, melhor serão os resultados. No online, perdemos parte da linguagem não verbal, por isso aprendi a ser mais clara na forma como acolho, valido e devolvo o que a pessoa traz. Pequenos gestos, pausas e entoações ganharam um peso ainda maior. Continua a ser muito importante a comunicação empática (tal como nas consultas presenciais), transmitindo segurança e compreensão.

É fundamental explicar todo o processo para que a pessoa se sinta mais confiante e tranquila na consulta. Eu envio sempre antes da sessão um documento com estas orientações. Outra competência que aprofundei foi a gestão do espaço terapêutico. No online, o setting não é apenas o meu consultório, é também o ambiente onde a pessoa está. Então, na primeira consulta ajudo cada cliente a criar um espaço seguro do lado dela, garantindo a privacidade, o conforto e a presença. É importante passar através do ecrã o mesmo acolhimento, empatia e segurança que damos nas consultas presenciais.

O seu trabalho implica escuta profunda, exposição à dor dos outros e atenção constante ao estado emocional alheio. Que práticas pessoais considera essenciais para manter a própria saúde mental enquanto cuida da dos outros?

Cuidar da saúde mental dos outros é um processo exigente, por isso, antes de cuidar da saúde mental dos meus clientes, tenho de cuidar da minha. Ao longo do tempo, fui percebendo que a qualidade do meu trabalho depende muito da forma como eu me cuido fora do consultório. Por isso, tenho um conjunto de práticas pessoais que considero fundamentais para manter o meu equilíbrio emocional.

Em primeiro lugar, não deixo as minhas consultas de psicologia por nada! São, claramente, um pilar fundamental na minha estabilidade emocional. É um espaço onde posso olhar para mim, conhecer-me mais, compreender e validar as minhas emoções e garantir que não levo para a relação terapêutica aquilo que me pertence a mim. A terapia permite-me crescer pessoalmente e isso é fundamental para puder cuidar de quem acompanho.

A par disso, a supervisão clínica continua a ser uma âncora fundamental. Ajuda-me a refletir sobre a prática, a ganhar novas perspetivas e a assegurar que estou no caminho certo. A supervisão ajuda-me a aprofundar o meu raciocínio clínico, fundamental para o meu trabalho.

Também tive de aprender a colocar limites, na verdade, autolimites sobretudo reconhecer quando o meu corpo precisa de descansar e abrandar o ritmo acelerado. É bom permitir-lhe esse descanso sem sentir culpa, garantindo assim que chego às consultas com energia, presença e qualidade.

Fala muitas vezes da importância da prevenção em saúde mental. A partir da sua experiência, que atitudes simples, individuais ou coletivas, fazem realmente diferença antes de surgirem sinais de sofrimento?

A prevenção em saúde mental é, para mim, uma das áreas mais importantes do trabalho clínico. Muitas vezes, só procuramos ajuda quando o sofrimento já se tornou difícil de gerir, mas há atitudes simples, individuais e coletivas, que podem fazer uma diferença enorme antes de surgirem sinais mais evidentes. Reservar momentos para perguntarmos a nós mesmos como nos sentimos, identificar emoções e necessidades, fazer o básico bem feito e assegurar uma alimentação saudável, uma rotina de sono reparadora e atividade física. Pedir ajuda sempre que necessário, quando não conseguimos lidar com as nossas emoções e sentimentos.

Ter em consideração que a pressão constante, a falta de pausas e a cultura de produtividade extrema são fatores de risco para a saúde mental e torna-se cada vez mais importante termos consciência de que devemos abrandar o nosso ritmo. No fundo, a prevenção não depende de grandes gestos, mas de pequenas mudanças diárias.

Tem ganho espaço a ideia de que o bem-estar depende tanto da atenção ao presente como da forma como nos ligamos aos outros no dia a dia. A partir da sua experiência clínica, como pode esta aproximação melhorar a dinâmica de equipas e lideranças?

A capacidade de estarmos presentes e de nos relacionarmos de forma assertiva com os outros aumenta não só o bemestar individual, mas também a forma como as pessoas colaboram e se posicionam nos contextos profissionais. Por exemplo, a atenção ao momento presente aumenta a capacidade de cada pessoa reconhecer o seu estado emocional antes de reagir impulsivamente. As equipas que desenvolvem esta competência tendem a comunicar com mais clareza e assertividade, tendo mais facilidade em gerir conflitos de forma construtiva e manter um clima emocional mais estável. Quando isto acontece, a colaboração entre os membros da equipa torna-se mais fluida. A empatia passa a ser uma prática diária. Posso acrescentar ao que foi dito anteriormente que com estes dois pilares (atenção ao momento presente e ligação com os outros) permite também um aumento da coesão e da confiança. As relações mais presentes e autênticas criam ambientes mais seguros, onde é possível partilhar ideias, pedir ajuda e assumir vulnerabilidades sem receio de julgamento.

Alguns ambientes profissionais desenvolvem padrões de ansiedade ou até mesmo de toxicidade que condicionam a forma como as pessoas se relacionam. A partir da sua experiência clínica, que indicadores reconhece nesses contextos e que intervenções rápidas podem mitigar o seu efeito emocional?

Os ambientes profissionais marcados por elevados níveis de ansiedade ou toxicidade tendem a revelar padrões de funcionamento muito específicos, que se tornam visíveis na forma como as pessoas se comportam e se relacionam umas com as outras.

As equipas com estas características funcionam em estado de alerta permanente, com níveis elevados de tensão, irritabilidade e/ou reatividade, o que pode levar a uma comunicação agressiva ou passiva-agressiva, caraterizada pela dificuldade em comunicar as necessidades, pelo receio em pedir ajuda, pelo medo de errar e por não expressar a opinião.

Comummente, as mudanças bruscas de expectativas, a ausência de feedback construtivo e decisões pouco transparentes aumentam a insegurança, mas também os níveis de ansiedade, a desmotivação e o desânimo. Nestas equipas existe também a normalização do excesso de trabalho. São valorizados os ritmos insustentáveis, a ausência de pausas e a valorização da disponibilidade permanente.

Contudo, existem algumas estratégias que podem transformar estes ambientes laborais como, por exemplo: clarificar prioridades, definir expectativas realistas e estruturar rotinas, isto ajuda a reduz a ansiedade e devolve a sensação de controlo. Criar espaços seguros para conversar, por exemplo, reuniões curtas focadas no alinhamento emocional permitem identificar tensões mais cedo e evitar assim a acumulação de mal-estar.

Nestes ambientes é também fundamental reforçar limites saudáveis como, por exemplo, definir horários, cumprir os horários de pausas e ajustar as cargas de trabalho. Estas estratégias simples reduzem o risco de burnout e restauram o equilíbrio emocional dos colaboradores, mantendo-os mais satisfeitos e com uma maior qualidade de vida e bem-estar, o que se vai refletir nos resultados.

Como referi no início desta entrevista, abrimos 2026 com a sua voz. Quando olha para o ano que passou, que momento sente estar a viver e que direção gostaria de imprimir ao seu trabalho e à sua vida nos meses que se seguem?

O ano de 2025 foi um ano de trabalho muito intenso. Foi um ano marcado profissionalmente pelo crescimento e expansão. Um ano de muitas conquistas: aumento do número de consultas; inúmeras palestras e workshops presencias sobre diversos temas, vários convites para entrevistas, lançamento de dois grupos terapêuticos, lançamento de um Workbook. Tudo isto fez com que tivesse de aumentar rapidamente o número de psicólogas na minha equipa.

Para 2026 quero continuar a levar a minha marca cada vez mais longe. Continuar a dar consultas é claramente algo que me preenche, mas existem muitos outros projetos que até então estiveram na gaveta, mas que em 2026 vão sair dessa gaveta para o mundo. Em 2026 quero também continuar a investir em formação e continuar a construir um projeto que seja coerente com os meus valores. Sinto a vontade de melhorar processos, fortalecer a equipa e continuar a criar condições para que o consultório continue a ser um espaço que transmita paz, harmonia, acolhimento e segurança.

A nível pessoal, desejo viver 2026 de forma leve e tranquila. Quero continuar a ter os meus tempos de descanso, a estar junta dos que mais gosto e dos que me ajudam nos meus momentos de vulnerabilidade, porque sei que o meu bemestar é inseparável da forma como cuido dos outros. Em síntese, estou num momento de expansão e abertura: com objetivos bem definidos e, acima de tudo, realistas, que permitiram chegar onde sonho com flexibilidade, autocompaixão e proatividade.

Mestrado Integrado em Psicologia, Escola de Psicologia, Universidade do Minho;
• Estágio curricular no Serviço de Psiquiatria do Hospital de Braga;
• Ano Profissional Júnior – em contexto de clínica privada;
• Formação em Psicopatologia, com a Fernanda Landeiro (Brasil);
• Participação em vários congressos, workshops, formações;
• Abordagem de base Terapia Cognitiva-Comportamental;
• Intervenho com crianças (presenciais), adolescentes e adultos;
• Áreas de Intervenção em adolescentes e adultos: ansiedade, perturbações de humor (depressão), luto, perturbações do comportamento alimentar (anorexia, bulimia e compulsão alimentar), perturbações de personalidade, autoconhecimento/autodesenvolvimento, autoestima, Burnout, Perturbações do sono;
• Áreas de intervenção em crianças: perturbações de ansiedade, depressão, dificuldade de aprendizagem, dificuldades de atenção e concentração, medos e fobias e perturbações do sono (pesadelos, terrores noturnos).