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“O valor médio por metro quadrado é 30% inferior e a previsibilidade orçamental é de 98%”

Mais de duas mil casas produzidas, prazos encurtados e um modelo industrial assente em investigação e desenvolvimento colocam a Fábrica das Casas no centro do debate sobre a habitação em Portugal. Num setor pressionado por custos, escassez de mão-de-obra e imprevisibilidade, a empresa apresenta a construção modular como resposta técnica a um problema estrutural. É esse o ponto de partida da entrevista ao Arquiteto Márcio Paiva, presidente do Conselho de Administração.

Márcio Paiva, Arquiteto

A Fábrica das Casas já produziu mais de duas mil casas modulares em Portugal. Onde é que hoje sente, no terreno, que este trabalho está a fazer mais diferença na vida das pessoas?

Com a escassez de mão-de-obra, aumento dos custos de matérias-primas e avanços tecnológicos, a produção em fábrica permite uma escolha mais célere, um maior controlo dos valores de investimento e menores prazos de implementação da construção.

A crise da habitação em Portugal tem sido descrita como um problema estrutural, marcado por escassez de oferta, prazos longos e forte imprevisibilidade de custos. A partir da vossa experiência industrial, onde é que a construção modular consegue responder de forma mais concreta a este cenário?

Resolve todos estes problemas, sobretudo nos modelos pré-definidos, ou de catálogo, por já estarem estudados, com preços de produção e venda validados e prazos de entrega razoáveis em relação aos da construção tradicional. Por exemplo, uma moradia T3 de rés-do-chão com 160 m² custa em média 170 mil euros e é entregue num prazo de 3 a 6 meses, para modelos standard.

A Fábrica das Casas tem vindo a afirmar um modelo assente em produção em fábrica, controlo de processo e previsibilidade. Em que medida esta lógica industrial permite tornar a construção habitacional mais rápida, mais estável e mais controlável?

A produção em fábrica tem um ritmo constante de processamento, inigualável quando comparado com os trabalhos executados no local.

A variável tempo surge frequentemente associada à vossa proposta de valor. Onde é que o vosso modelo permite encurtar de forma mais significativa os ciclos entre projeto, construção e entrega da casa?

Nos modelos personalizáveis, os tempos de projeto e aprovação são semelhantes. Já na produção, estimamos que sejam cerca de três vezes mais rápidos e a entrega é praticamente imediata, porque toda a construção no caso dos modelos de catálogo é estudada para ser instalada num único dia.

Num contexto em que o custo da habitação se tornou um fator de exclusão, onde sente que está o principal contributo da construção modular? No preço final ou na previsibilidade orçamental ao longo de todo o processo?

Em ambos, porque o valor médio por metro quadrado é 30% inferior e, sobretudo, como referido, a previsibilidade é de 98%.

Portugal apresenta uma grande diversidade de enquadramentos municipais e procedimentos de licenciamento. Como tem sido a vossa experiência na articulação entre o vosso modelo industrializado e esta realidade administrativa?

Neste momento e com toda a experiência de mais de 14 anos no modular, os nossos processos são encarados como construção tradicional, têm a mesma certificação, as mesmas ou melhores caraterísticas técnicas, térmicas, acústicas e de estabilidade, a mesma durabilidade e as mesmas garantias.

O discurso em torno da construção modular tornou-se mais visível e ambicioso nos últimos anos. Que fatores concretos explicam essa afirmação do modelo e o crescimento do interesse por soluções como as da Fábrica das Casas?

A Fábrica iniciou o seu processo de fabricação no sentido de resolver problemas práticos relativos aos processos de produção, utilização de novos materiais e inovação de produtos, tendo sido referência para milhares de novas empresas que surgiram posteriormente. As estatísticas apontam para mais de 55 mil novas empresas registadas a laborar, apenas nos últimos dez anos. Embora a maioria sem capacidade industrial de produção, a verdade é que o conceito de pré-fabricação total ou parcial entrou no dia a dia das pequenas e grandes empresas, sobretudo pela otimização de resultados e melhoria dos processos de fabricação e produto. Fatores que em muito reduzem a imprevisibilidade da mão-de-obra e aumentam a qualidade do produto final.

O perfil de quem procura casas modulares tem vindo a evoluir. Quem é hoje o vosso cliente-tipo e que problemas concretos traz quando vos procura?

Completamente transversal, mas por uma questão de risco de mercado e opção de negócio, a Consoc permite à Fábrica das Casas fornecer 40% da sua capacidade de produção para clientes particulares, seja ela primeira habitação, secundária, casais jovens ou seniores com mais de 70 anos; 30% vende a empresas que comercializam o seu produto a terceiros, 20% de exportação e 10% institucional e estado.

A associação entre construção modular e soluções temporárias ainda persiste em alguns segmentos do mercado. Que argumentos técnicos e exemplos concretos têm sido decisivos para afirmar a durabilidade, o conforto e a qualidade das vossas casas?

No nosso caso temos ambos os produtos, os de carácter permanente que, depois de instalado no local, é impercetível tratar-se de construção modular, e temos modelos mais pequenos facilmente movíveis.

A produção em fábrica é frequentemente associada a ganhos ambientais. Em termos práticos, onde é que a construção industrializada permite maior eficiência de recursos e redução de desperdício?

Uma das áreas que hoje tem pouco impacto comercial, mas à qual há de ser reconhecida maior valorização futura, é precisamente a economia de recursos, meios, desperdícios e eficiência energética, quer do produto quer do processo produtivo. A Fábrica é das poucas empresas nacionais com estudos LCA (Life Cycle Assessment), com preocupações ambientais e energéticas extremas. Em números, em termos energéticos e de produção, estimamos um decréscimo de 90%. Por exemplo, na construção de uma habitação de 160 m², apenas em deslocações das diversas equipas durante mais de um ano, desperdícios de matérias-primas, água e luz, o custo seco das deslocações é de mais de 28 mil euros. Já em fábrica, o nosso custo médio de produção para a mesma unidade é de apenas 2.700 euros. No caso do produto, com uma redução média de 30% nos custos energéticos, que pode atingir os 90% nos casos em que são equipadas com sistemas de micro-geração, e resistência térmica dos materiais empregues.

O que precisa de mudar para que a construção modular possa ter um impacto efetivo na resposta à habitação em Portugal?

Esse impacto já existe. O conceito da pré-fabricação integra atualmente 40% dos sistemas construtivos, sejam eles totais ou parciais, e a tendência é o aumento desta percentagem.

Olhando para os próximos anos, como imagina o papel da Fábrica das Casas no ecossistema habitacional português a médio e longo prazo?

A Fábrica evolui constantemente e tem sido pioneira nos processos de fabricação, a estratégia é manter e reforçar o setor do I&DT na unidade de Vila Nova de Famalicão, que possui hoje 12 mil metros quadrados de área industrial, onde se produzem e testam novos modelos, novos produtos e processos de produção. Manter em Espanha a fabricação de componentes chave, estruturais e de estabilidade, com base em ligas de aço e metalomecânica de precisão, e adquirir ou estabelecer parcerias com unidades mais pequenas existentes, modelos específicos, próximos dos mercados de consumo, por forma a responder à gigante procura por construção.

Detentora da Fábrica das Casas, a Consoc Industries desenvolve atividade no setor da construção há mais de 18 anos, com uma forte base tecnológica e produtiva em Portugal. Com instalações de produção em Vila Nova de Famalicão, o grupo mantém uma aposta continuada em investigação e desenvolvimento aplicados à construção modular, concentrando investimento em novos materiais, processos produtivos e desenvolvimento de produto.

Reconhecida como entidade inovadora por organismos como a COTEC e a Agência Nacional de Inovação (ANI), a Consoc opera com produção própria, laboratório técnico de testes e uma capacidade produtiva orientada sobretudo para o mercado nacional, sem perder de vista a internacionalização e a exportação, mantendo em Portugal o núcleo de investigação, engenharia e desenvolvimento.