O ano passado recordei neste mesmo espaço a forma como cresci rodeado de mulheres e como isso continuou naturalmente na universidade e na vida profissional. Sugeri que talvez isso ajudasse a explicar o meu incómodo com a forma simplificada e retórica com que muitas vezes se fala delas. Tal como referi nessa crónica, a palavra Mulher (que é, diga-se, uma palavra particularmente bonita) não me remete para uma categoria abstrata nem para um elogio automático e fácil. Penso em mulheres concretas, naquelas de quem gosto, nas que marcam e marcaram a minha vida, e em tantas que admiro.
Creio que quem faz da comunicação e da escrita a sua vida acaba inevitavelmente mais sensível a clichês, fórmulas feitas e adjetivação automática. Essas palavras gastas, que distribuem mérito a todos apenas por pertencerem a uma categoria, mais não fazem do que retirar valor a quem verdadeiramente o tem. Não confundamos respeito com admiração. O respeito é devido a todas as pessoas. A admiração cada um de nós saberá a quem a atribuir. Há pessoas mais consensuais do que outras, mas os lampejos de genialidade raramente são compreendidos por todos, muitas vezes já fora de tempo.
A propósito disto, lembrei-me muitas vezes nos últimos dias de uma frase de António Lobo Antunes, que morreu este mês: “são precisas muitas mulheres para fazer esquecer uma mulher inteligente.”
Para quem vive da escrita, as palavras têm outro peso. Não há como fugir disso, por mais que o humor possa aligeirar conversas e a autodepreciação faça baixar barreiras. Na realidade, a forma mais simples de perceber quem temos à nossa frente já foi descoberta há muito tempo e não tem nada de sofisticado. Basta perguntar e, sobretudo, ouvir. Quanto mais honesta e sincera for a resposta, menos espaço sobra para interpretações erradas ou rótulos.
Esse hábito de colocar adjetivos onde deveriam estar ideias e argumentos sustentados costuma revelar insegurança ou uma vontade excessiva de agradar. Pode parecer um caminho mais fácil, mas a credibilidade raramente se constrói assim.
Num projeto editorial, essa é uma regra simples de higiene profissional. Cada história pede tempo, contexto e perguntas que geram novas perguntas. A notoriedade pode abrir portas, mas raramente dispensa o trabalho de compreender percursos, escolhas e circunstâncias. O critério tem de ser o mesmo para todos. É dessa coerência que nasce a confiança dos leitores.




