Ação Social Sociedade

A “saúde” do nosso interior

Num país onde o envelhecimento avança mais depressa no interior do que no litoral, a economia social tornou-se um dos pilares silenciosos da coesão territorial. No extremo norte do país, muitas comunidades transmontanas só mantêm acesso regular a serviços essenciais porque instituições locais, com décadas de enraizamento, assumiram responsabilidades que ultrapassam largamente a sua missão original.

Nas últimas duas décadas, o setor social ganhou uma dimensão que hoje se mede não apenas pelo impacto humano, mas também pelo peso económico. As Misericórdias e IPSS espalhadas pelo país empregam equipas numerosas, dinamizam serviços de saúde, educação e apoio aos mais idosos. Garantem, na prática, a presença de profissionais qualificados, a estabilidade de respostas continuadas e a capacidade de investimento num contexto demográfico adverso.

Em Trás-os-Montes, esta realidade é particularmente evidente. A quebra populacional, a dispersão geográfica e a distância aos grandes centros obrigam a uma organização do território assente na proximidade. É neste enquadramento que instituições locais têm desempenhado um papel determinante. Paralelamente, a articulação crescente entre o SNS e o setor social alterou o mapa da prestação de cuidados. Programas como o “Consulta a Tempo e Horas” reforçaram a colaboração entre hospitais públicos e estruturas do terceiro setor, aproximando consultas e cirurgias de populações que, historicamente, enfrentavam deslocações longas e listas de espera extensas. Esta colaboração, além de aliviar pressão sobre o sistema público, devolve dignidade a territórios onde a saúde é, tantas vezes, um indicador crítico de desigualdade.

Mas o impacto não se limita à saúde. As respostas sociais (lares, centros de dia, apoio domiciliário) tornaram-se indispensáveis num país onde a taxa de dependência aumenta e onde a ausência de uma rede nacional para as demências coloca pressão acrescida sobre famílias e instituições. Já na infância, creches e pré-escolares geridos por entidades locais contribuem para fixar população jovem e atenuar o risco de desertificação.

Este é, hoje, o contexto nacional em que se inscrevem as instituições que atuam no interior profundo. São organizações que combinam história, gestão competente e um conhecimento íntimo das comunidades que servem.