Da curiosidade pelo funcionamento do cérebro à vontade de ajudar quem enfrenta momentos de vulnerabilidade, o percurso da psicóloga Eduarda Figueiras tem sido guiado por uma missão clara: tornar a saúde mental mais acessível, mais compreendida e mais integrada no quotidiano das pessoas. Com consultório próprio no centro de Braga e presença consolidada em mais de dez países através das consultas online, acredita que a saúde mental deve ser tratada com a mesma importância que a saúde física, e que essa mudança de paradigma começa pela forma como cada um aprende a cuidar de si.
Licenciou-se e concluiu o Mestrado em Psicologia na Universidade do Minho, passou pelo Hospital de Braga e, pouco tempo depois, criou o seu próprio consultório no centro da cidade, hoje com presença em mais de dez países através de consultas online. Quando olha para este percurso, o que a motivou a seguir este caminho?
Antes de mais gostava de salientar que ao longo deste percurso nem tudo foi um mar de rosas, houve obstáculos sobretudo em encontrar um espaço físico onde pudesse dar consultas presenciais mesmo no centro da cidade. Mas respondendo mais especificamente à pergunta, o que mais me motivou a seguir este caminho foi a paixão pelo cérebro humano, mas também o querer ajudar as pessoas a sentirem-se bem, a terem qualidade de vida e sobretudo ouvir e ajudar as pessoas nos momentos de maior vulnerabilidade. Desde muito cedo que me diziam que era boa ouvinte e que falarem comigo já ajudava muito, por isso, optei pela área em que estou hoje! Sinto-me muito realizada e feliz em poder ajudar pessoas todos os dias. O objetivo será sempre o mesmo, levar a saúde mental mais longe e, por isso, a equipa tem agora mais duas psicólogas com quem podem contar.
O seu trabalho centra-se sobretudo na psicologia clínica e da saúde, com especial enfoque na ansiedade, depressão e autoestima. São temas que hoje afetam uma parte significativa da população. Na sua opinião, que medidas devem ser tomadas para uma melhor saúde mental e para uma maior consciencialização da sua importância?
As áreas mencionadas são áreas que eu intervenho maioritariamente. No entanto, intervenho noutras áreas como luto e perturbações de personalidade. Como referiu, estas afetam uma grande parte da população. E a verdade é que para mudarmos isto temos de mudar o paradigma. A saúde mental tem de ser encarada como a saúde física. Infelizmente ainda não é! Apesar de nos últimos tempos terem existido alguns avanços ainda não são os suficientes, na minha opinião. É necessário existirem mudanças sérias para que não só se trate estas perturbações, mas também se previna o aparecimento das mesmas. Se formos a ver ainda não existe uma resposta adequada no Serviço Nacional de Saúde (SNS) porque existe um número muito baixo de profissionais que não conseguem dar conta do elevado número de casos e, além disso, não conseguem agendar consultas tão regulares quanto pretendiam para mais e melhores resultados. Não nos podemos esquecer que infelizmente nem todas as pessoas têm estabilidade financeira para ter consultas semanais ou quinzenais no privado. Além disso, é importante falar de saúde mental em diferentes contextos – escolas, empresas, famílias – a saúde mental não deve ser tabu, ela faz parte da definição de saúde pela Organização Mundial de Saúde. É necessário a implementação de mais psicólogos nas escolas, nas empresas. É necessário aumentar a literacia em saúde mental e sobretudo mostrar que não é vergonhoso ter ansiedade, que a pessoa que tem uma depressão não é fraca ou preguiçosa. É importante combater o estigma na saúde mental. Por isso, a meu ver enquanto psicóloga, ainda há muito trabalho a fazer para que a saúde mental seja vista como a saúde física.
“A espalhar a saúde mental por + de 10 países” é a mensagem que nos recebe na sua página no Instagram. Pode partilhar connosco como foi o momento em que decidiu ir além da prática presencial em Braga, e como é que essa “ponte” para o online e a internacionalização aconteceu?
Neste momento, estou em países como Espanha, França, Suíça, Holanda, Luxemburgo, e em Portugal de Norte a Sul incluindo as ilhas. Para mim é um orgulho conseguir acolher pessoas de todos estes sítios e contribuir para que se sintam melhor com o meu acompanhamento. Eu comecei desde logo a ter os dois tipos de consultas – presenciais no local onde fiz o Ano Profissional Júnior e on-line, uma vez que estávamos em época de Covid-19 e foi uma forma de conseguir chegar a mais pessoas que naquela altura precisavam de ajuda. Depois disso, e também com a divulgação nas redes sociais, começaram a chegar pessoas de outros países, onde muitas delas tinham como principal entrave a língua e claramente que nas consultas on-line não existe a barreira geográfica, o que faz com que pessoas que não sejam de Braga possam iniciar o processo psicológico comigo sem pensar no meio de transporte, no tempo que gasta na viagem, etc. Apenas precisa de um telemóvel ou computador com acesso a internet. Posso afirmar que neste momento o número de consultas on-line rondam os 80%.
“É necessário aumentar a literacia em saúde mental e mostrar que não é vergonhoso ter ansiedade, que a pessoa que tem uma depressão não é fraca ou preguiçosa”
Uma das ideias que mais defende é a importância da prevenção. Quais são, na sua experiência, os primeiros sinais de alerta e que pequenos gestos diários podem realmente fazer diferença no bem-estar emocional?
É verdade, uma das ideias que eu defendo muito é a prevenção! Não devemos procurar ajuda apenas quando já ultrapassamos há muito a linha vermelha do nosso bem-estar. Devemos procurar ajuda antes disso, antes do “corpo gritar por socorro”. Podemos procurar ajuda para implementar pequenos hábitos saudáveis, para aprendermos a colocar limites assertivos de modo a não ficarmos sobrecarregados com imensas tarefas e negligenciar o autocuidado. Quando começamos a caminhar para o nosso limite existem sinais dados pela nossa mente e pelo nosso corpo, por exemplo, alterações no sono (insónias, sonolência excessiva ou dificuldade em manter um sono reparador); no apetite (aumento ou diminuição), no humor (irritabilidade, tristeza), isolamento social; dificuldades de concentração, falhas de memória, estar constantemente preocupados. Importa salientar que estes sinais não definem que existe uma perturbação, mas são sintomas aos quais as pessoas devem estar atentas e devem ter sempre em mente que pequenos gestos diários como pausas conscientes, conversar sobre o que estão a sentir com pessoas de confiança.





