Pedro Abrunhosa regressa às livrarias com Vem Abrir a Porta à Noite, um volume que condensa trinta anos de letras e confirma a centralidade da palavra no seu percurso artístico.
Ao longo de mais de quatro décadas de atividade, Pedro Abrunhosa construiu uma das obras mais reconhecíveis e influentes da música portuguesa. Chegou este mês às livrarias Vem Abrir a Porta à Noite, editado pela Contraponto, um livro que reúne todas as letras escritas pelo músico desde o impacto inaugural de Viagens, em 1994, até à atualidade. Mais do que um exercício retrospetivo, o volume aproxima o leitor do território literário que sempre pautou as canções do autor, um espaço onde a emoção, o desassossego e a consciência social coexistem.
No prefácio, Lídia Jorge descreve o universo de Abrunhosa como “amor em carne viva”, sublinhando a forma como o artista introduziu uma dimensão visceral e sensível na palavra cantada. Essa leitura ajuda a perceber porque tantas das suas criações extravasaram a esfera musical para se fixarem como referências culturais e, nalguns casos, bandeiras de causas que marcaram diferentes gerações. O livro percorre essas geografias, revelando um escritor de canções que nunca escondeu o impulso de interpelar o mundo, seja através da intimidade, seja pela afirmação de uma cidadania ativa.
A edição apresenta ainda a coerência de um percurso que, apesar das mutações estéticas e dos diálogos com intérpretes internacionais, de Maria Bethânia a Carla Bruni, de Ney Matogrosso a Lucinda Williams, mantém uma matriz – o rigor da palavra. Entre textos que se tornaram hinos, refrões que entram no quotidiano e composições que se colam à memória coletiva, Vem Abrir a Porta à Noite funciona como arquivo e celebração, devolvendo às páginas impressas o que tantas vezes foi ouvido em palco. Distinguido com múltiplos prémios culturais e autor de treze discos multiplatinados, Abrunhosa afirma-se aqui como “senhor da palavra”, expressão usada no próprio livro e que ganha particular sentido quando se observa o conjunto da obra.
Esta edição, lançada a 20 de novembro, chega num momento de reconhecimento renovado — recorde-se que Viagens foi eleito, no ano passado, pelo júri reunido pela revista Blitz como o “Melhor Álbum Nacional dos últimos 40 anos”.
Com 400 páginas, Vem Abrir a Porta à Noite reúne uma obra que continua em diálogo com o país e com o tempo, convocando leitores e ouvintes para essa zona onde a música e a literatura se tocam.




