Entrar na casa de alguém é entrar também nas rotinas, nas histórias e nas pressões invisíveis da vida quotidiana. Foi a partir desse contacto íntimo com o espaço doméstico que Sónia Garcia construiu o seu trabalho como personal organizer nos Açores. Foi também daí que nasceu a vontade de criar encontros entre mulheres e momentos de conversa partilhada. Mais recentemente, essa experiência começou a ganhar forma numa comunidade onde procura transformar a ideia de casa num lugar de pertença e ligação entre pessoas.
O seu trabalho como personal organizer passa por entrar nas casas das pessoas, mexer nos seus espaços e, muitas vezes, no que está por trás deles. O que encontra com mais frequência quando chega a uma casa? Objetos a mais, tempo a menos ou vidas em processo de mudança?
Entrar na casa das pessoas é de muita responsabilidade e impacto, pois o meu propósito é facilitar a vida e poupar tempo aos meus clientes. No geral, é tempo a menos que têm e está tudo certo com isso. Para isso é que cá estou.
Trabalhar nos Açores tem um peso próprio. A proximidade, o ritmo das ilhas e a forma como o tempo se mede dão outra textura à vida doméstica. Que diferenças sente na forma como os açorianos habitam as suas casas em comparação com outros contextos?
A vida nas ilhas também tem a sua agitação e rotinas com qualquer outra pessoa noutro ponto do planeta. A grande vantagem aqui é a proximidade e facilidade de acessos que nos poderão dar mais tempo para outras atividades que não o trabalho.
E, nesta sequência, há mais oportunidade e vontade das pessoas viverem e conviverem com outras nas suas próprias casas, com jantares, convívios e celebrações que por estarmos mais perto pode proporcionar. Daí que as casas devem ser e transparecer a essência e objetivos dos seus habitantes, para os facilitar. A casa organizada é só um meio, vivê-la para o que realmente importa é que é um fim em si mesmo.

Ao longo do seu percurso, já entrou em casas grandes e pequenas, muito vividas e outras quase vazias. Independentemente da dimensão, há gestos ou padrões humanos que se repetem e que dizem algo sobre a forma como nos relacionamos com o lugar onde vivemos?
No geral, sinto que há uma distribuição desigualitária de tarefas, que por norma, sobrecarregam a mulher. E é por isso que são mais as mulheres que me procuram. Há a crença de que são elas que devem gerir a casa. Isso poderia funcionar há 50 anos quando as mulheres não trabalhavam fora de casa.
Atualmente, a maioria das pessoas, homens e mulheres trabalham, mas a distribuição das tarefas e rotinas domésticas não tem acompanhado totalmente essa evolução. E é por isso também que se torna pertinente a minha área, porque se a casa estiver organizada, funcional e os objetos estiverem visíveis e à mão de todos os elementos da família, têm todos mais tempo não só para estarem uns com os outros como tempo para outras atividades.

A certa altura, sentiu que organizar espaços não era suficiente e começou a criar momentos de encontro entre mulheres, dando origem ao Women Talks in Azores. De onde veio essa necessidade de levar a conversa para fora das casas e para um espaço partilhado?
Ao entrar na casa das pessoas, é preciso conhecer um pouco da sua história e rotinas e por isso dizia acima que é com responsabilidade que o faço, pois acabam por confiar em mim os seus pertences e um pouco de si próprios. A nível pessoal, tenho feito uma jornada de autoconhecimento complexa que me permitiu conhecer ferramentas, terapias e pessoas que me têm ajudado a evoluir.
Nesta sequência e ao ouvir muitas histórias de pessoas, muitas delas clientes, principalmente mulheres, percebi que havia padrões que se repetiam, dilemas e ideias em comum que poderiam beneficiar ao conhecer as ferramentas e pessoas que me ajudaram a nível pessoal. Então, percebi que ligar pessoas e projetos sempre esteve presente na minha vida e acentuou-se com a área de personal organizer. Foi aí que senti essa necessidade de colocar algumas dessas pessoas que me ajudaram num palco para que pudessem chegar a mais mulheres.
“Ligar pessoas e projetos sempre esteve presente na minha vida e acentuou-se com a área de personal organizer”
A edição realizada em janeiro voltou a juntar mulheres com percursos muito diferentes. Que inquietações surgiram desta vez e o que revelam sobre o momento atual vivido por muitas mulheres nos Açores?
O que fiz em janeiro não foi um Women Talks in Azores, mas foi uma celebração de várias situações, celebrar a mulher, celebrar o meu aniversário e dois anos como personal organizer, a Women’s Celebration Party. A intenção foi dançar, celebrar, descomprimir, conversar e conhecer pessoas novas num ambiente informal e de festa.
Reforcei a ideia de que as mulheres querem e podem ocupar vários papéis na sua vida, não só de mães, trabalhadoras, mas donas de si e que merecem divertir-se e expandir-se. E tornei a sentir o que já tinha percebido com o “Conversas de mulheres” de março de 2025, a necessidade de criar uma comunidade, a “Somos Casa®” para que não só mulheres como homens possam pertencer e sentirem-se acolhidos nas suas histórias.
Nem sempre os nossos grupos de amigos ou família estão na mesma situação de vida ou têm tempo. Então vai ser uma forma dos membros conversarem com calma uns com os outros e aprendendo sobre as ferramentas que eu trouxer através de convidados e de forma que os conhecimentos e conversas sejam integradas e feitas sem julgamento e com segurança.

O Women Talks in Azores procura afastar-se do modelo clássico de conferência e aproximar-se de um espaço de encontro e partilha. Porque foi importante, desde o início, pensar este formato dessa forma?
A ideia dos Talks é ter várias palestras de curta duração. Ao abordar vários temas ligados à mulher e feito por mulheres, há essa oportunidade de reflexão e de alguma interação entre todos. Ser mulher não cabe numa só categoria e foram essas várias áreas que também aprofundei a nível pessoal e que quis levar para este evento.
A vida nas ilhas cria uma tensão constante entre estar perto de todos e, ao mesmo tempo, precisar de espaço próprio. Como é que estes encontros trabalham essa fronteira entre comunidade e individualidade?
Tem de facto, as suas vantagens e desvantagens. Se por um lado, há oportunidade de conhecermos muitas pessoas do meio e nos pode proporcionar no sentido positivo partilha e interajuda, por outro, há alguma falta de privacidade que nem sempre é por má intenção, mas que pode prejudicar processos individuais que cada pessoa possa estar a passar.
Daí ter percebido a necessidade de criar uma comunidade como a “Somos Casa®” para que este acolhimento seja feito de forma segura e protegida sem os processos e histórias de cada pessoa sejam julgadas em “praça pública”.

Olhando para o que já construiu, o seu trabalho liga o dentro e o fora, as casas e as pessoas, a arrumação e a escuta. Quando se tornou claro para si que esta prática estava a abrir uma reflexão mais ampla sobre a forma como queremos viver?
Se tiver de selecionar um momento “eureka” foi mesmo a partir do primeiro círculo de mulheres, o tal encontro “Conversas de mulheres”, a 8 de março de 2025. O que era para ser um teste para o Women Talks in Azores, acabou por inspirar-me a criar mais encontros intimistas. Como tenho dito, organizar as casas é um meio. Organizar encontros para viver a alegria da vida torna-se um fim em si mesmo.
| O que faz um personal organizer? O trabalho de um personal organizer passa por ajudar pessoas e famílias a reorganizar os seus espaços domésticos de forma funcional e adaptada às suas rotinas. Mais do que arrumar objetos, trata-se de criar sistemas simples que facilitem o dia a dia e permitam ganhar tempo dentro de casa. A organização do espaço doméstico pode também ajudar a equilibrar a distribuição de tarefas e tornar as rotinas familiares mais claras e acessíveis a todos. |
É dessa perceção que começa agora a desenhar-se o projeto “Somos Casa®”, que já referiu. O que quer abrir ou aprofundar com ele e o que traz consigo de tudo o que já viveu até aqui?
Como estava a dizer anteriormente, a “Somos Casa®” é uma comunidade com encontros regulares, maioritariamente online, outros presenciais, onde não só os assuntos falados na Women Talks in Azores terão mais expressão e aprofundamento com algumas das oradoras, como outros do meu interesse e que fizeram parte do meu caminho.
“Se a casa estiver organizada, funcional e os objetos estiverem visíveis e à mão de todos os elementos da família, têm todos mais tempo”
A Women Talks in Azores abriu as portas às mulheres e temas e a “Somos Casa®”, através de subscrição, vai aprofundar esses e outros temas com mais tempo de conversa e interação entre os membros. Também por isso, a “Somos Casa®” é para mulheres e homens.
Neste sentido e para uma primeira abordagem, é já dia 29 de março que haverá o primeiro encontro de boas-vindas, o “Desperta a tua alegria”, onde os participantes terão a oportunidade de conhecer e aderirem, se assim o entenderem, a esta comunidade.

A palavra casa convoca ideias de raiz, pertença e memória, nos Açores e noutras geografias. Quando diz “Somos Casa”, está a falar de identidade. Que sentido gostaria que essa expressão ganhasse, para quem a encontra e para si própria?
Engraçado que os Açores são, na sua génese, uma mistura de nacionalidades que no seu povoamento chegaram às ilhas. Então, casa implica uma construção, alicerces para que possa ser um espaço e lugar comum, no sentido de pertença, de união, camaradagem, proteção e conforto, onde podemos acolher e ser acolhidos por outras pessoas diferentes, cada uma com a sua história, sejam elas açorianas ou imigrantes, homens e mulheres, aqui ou noutros lugares, uma vez que a maioria dos encontros serão online. Todos são bem-vindos, pois somos todos casa, para que juntos possamos ser quem somos, na nossa individualidade, com verdade, em prol de uma sociedade mais empática e justa.
| “Somos Casa®” “Somos Casa®” é a comunidade criada por Sónia Garcia a partir das experiências que tem desenvolvido nos encontros Women Talks in Azores. O projeto propõe momentos regulares de conversa e partilha, maioritariamente online, com convidados e participantes que refletem sobre diferentes dimensões da vida pessoal e relacional. A iniciativa pretende criar um espaço de pertença e acolhimento aberto a mulheres e homens, onde cada pessoa possa encontrar tempo para escutar, conversar e partilhar experiências. |




