No 60.º aniversário do CFPIC – Centro de Formação Profissional da Indústria do Calçado, Susana Nogueira, que dirige o centro desde 2024, assinala as conquistas da instituição numa conversa com a IN Corporate Magazine. Nesta entrevista, são também apresentados os projetos de modernização, a inovação tecnológica já implementada e o investimento de 8 milhões de euros no âmbito do PRR.
A indústria do calçado tem vivido uma forte transformação tecnológica nos últimos anos. Como o CFPIC tem acompanhado essa evolução?
De facto, a indústria do calçado tem evoluído de forma muito significativa nas últimas décadas, e o CFPIC tem procurado acompanhar e antecipar essas mudanças. O nosso objetivo não é apenas responder às necessidades imediatas do setor, mas também preparar o futuro, integrando áreas como a Inteligência Artificial e a Digitalização no nosso ADN formativo.
Para concretizar esta visão, o CFPIC contou com o apoio estratégico do PRR, que permitiu um investimento de 8 milhões de euros destinado à modernização das instalações de S. J. Madeira e Felgueiras e à aquisição de tecnologia de ponta. Entre os principais investimentos destacam-se equipamentos digitais e novos laboratórios nas áreas de eletrónica, pneumática, hidráulica e automação. Foi também reforçada a componente de manufatura especializada no fabrico de calçado e marroquinaria, criando um ecossistema tecnológico que permite formar profissionais preparados para os desafios da indústria moderna.

No âmbito das qualificações e competências, este investimento permite reforçar a oferta formativa de elevado valor acrescentado, com destaque para os Cursos de Especialização Tecnológica (CET) de nível 5, que constituem uma das nossas principais apostas em termos de política de formação, bem como para a requalificação de ativos, assegurando profissionais altamente qualificados para um setor cada vez mais tecnológico e sustentável.
A oferta formativa do CFPIC é alinhada com a necessidade de inovação contínua do setor?
A nossa estratégia de inovação assenta numa articulação rigorosa entre o tecido empresarial e entidades públicas como a ANQEP e o IEFP, responsáveis pela definição das qualificações e das políticas públicas de emprego. Este esforço refletiu-se numa profunda atualização do Catálogo Nacional de Qualificações, onde o CFPIC teve um papel determinante, designadamente na área do Têxtil, Vestuário, Calçado e Couro.
Esta modernização abrangeu diferentes níveis de formação, incluindo a atualização das competências técnicas nos cursos de Aprendizagem e EFA. Contudo, realçamos o impacto nos CET, onde foram reforçadas áreas como a digitalização, a Indústria 4.0, as tecnologias CAD/CAM, a prototipagem digital, a impressão 3D, a economia circular e a internacionalização, substituindo qualificações desatualizadas por perfis mais alinhados com as atuais exigências da indústria.
Este alinhamento é reforçado pela atualização contínua da nossa equipa de formadores, garantindo que acompanham a evolução das tecnologias e metodologias de produção. Assumimos o compromisso de que quem ensina deve estar na linha da frente da inovação.
De que forma os investimentos do PRR se traduzirão em melhorias no ensino?
Os investimentos do PRR funcionam como um acelerador da modernização da formação. A introdução de robótica e automação permite que os formandos utilizem tecnologia semelhante à das fábricas mais avançadas do cluster. O ensino torna-se assim mais tecnológico, permitindo aos formandos programar parâmetros e gerir ficheiros digitais complexos.

Esta evolução é também essencial para atrair novas gerações, que procuram trabalhar com tecnologia avançada e não apenas desempenhar tarefas repetitivas; eles querem ser os programadores e gestores de máquinas de alta tecnologia. Esta transição digital permite que o setor compita através da eficiência e da inovação, e não apenas pelo custo da mão de obra.
Ao equipar o CFPIC com tecnologia de última geração, a formação passa a refletir a realidade da Indústria 4.0, tornando as carreiras no setor mais atrativas.
Para ter sucesso, não basta ter bom domínio técnico. Que competências considera fundamentais para quem quer ingressar na indústria do calçado?
Para além do domínio técnico, o “formando do futuro” deve possuir visão de mercado e capacidade para analisar tendências. Competências como liderança, trabalho em equipa e literacia digital são cada vez mais valorizadas. A sustentabilidade e a ética também assumem um papel central, refletindo as exigências do consumidor, e os percursos do CFPIC refletem esta necessidade. Para competir globalmente, é imperativo formar técnicos flexíveis e resilientes. O CFPIC aposta no programa Erasmus+, incentivando o intercâmbio cultural e a mobilidade dos formandos, preparando-os para uma carreira de sucesso numa indústria sem fronteiras.
O verdadeiro impacto do saber acontece quando é colocado em prática. Como é apoiada a transição dos formandos para o mercado de trabalho?
A integração profissional é facilitada pela Formação em Contexto de Trabalho, realizada em parceria com empresas do setor. Durante este processo, os formandos têm contacto direto com a realidade industrial. O CFPIC promove também um acompanhamento individualizado na definição do projeto de carreira e atua como mediador entre empresas e formandos, divulgando oportunidades e encaminhando perfis adequados às necessidades das empresas. Este trabalho garante um ajuste eficaz entre a oferta e a procura.

Convidamo-la agora a fazer uma retrospetiva. Que resultados destacaria ao longo destes 60 anos?
Ao longo de seis décadas, o CFPIC afirmou-se como um pilar na modernização da indústria do calçado, qualificando milhares de profissionais e adaptando continuamente a sua oferta às transformações tecnológicas do setor. Para além da vertente formativa, destaca-se também o compromisso social com as comunidades de S. J. Madeira e Felgueiras, através de parcerias com autarquias, escolas e outras instituições.
Estes 60 anos celebram a valorização das pessoas e do conhecimento, com o objetivo de formar não apenas profissionais de excelência, mas cidadãos éticos e socialmente responsáveis, preparados para o futuro da indústria.




