Mulheres Inspiradoras

“Quis criar algo verdadeiramente único, onde a natureza dos Açores não fosse apenas inspiração”

Há ilhas onde a terra ainda guarda o calor do mundo e o devolve devagar, como se respirasse. Nos Açores, esse pulso sente-se no corpo. Andreia Meneses cresceu dentro desse ritmo e fez dele matéria de trabalho, transformando o basalto e a energia das ilhas numa experiência de cuidado que cruza bem-estar, saúde e hospitalidade.

Cresceu na ilha Terceira e lidera hoje três projetos distintos nas áreas do bem-estar, saúde e alojamento. Que traços do seu percurso e da sua relação com os Açores ajudam a definir a empresária que é hoje?

Nasci e cresci na ilha Terceira, e foi aqui que tudo começou, os meus sonhos e o meu caminho enquanto empresária. Iniciei muito cedo, com apenas 16 anos, mas com 15 já trabalhava na área da estética. Há 27 anos que dedico a minha vida às pessoas, à saúde e ao bem-estar.

Ser açoriana moldou-me profundamente. Deu-me garra, resiliência e a capacidade de nunca desistir, mesmo quando o caminho não é fácil e, numa ilha com 58 mil habitantes, muitas vezes não é. Empreender aqui exige coragem, visão e uma enorme vontade de fazer diferente. Ao longo dos anos, fui trazendo inovação, novas terapias e serviços que não existiam, sempre com o objetivo de cuidar melhor das pessoas e elevar aquilo que podemos oferecer na nossa terra.

Hoje, sinto um enorme orgulho ao olhar para o que construí. Consegui unir três áreas que fazem parte de mim — a saúde, o bem-estar e a hospitalidade — e transformá-las em projetos que vivem e crescem aqui, na nossa ilha Terceira. Mas nada disto se faz sozinho. Tenho ao meu lado uma equipa de cerca de 20 pessoas, que caminham comigo todos os dias, com dedicação, entrega e paixão. Porque por trás de qualquer crescimento e de qualquer sucesso, há sempre uma equipa que acredita, que veste a camisola e que faz acontecer. São eles uma parte essencial desta história. E há também a base de tudo: a família. O apoio familiar que continua a ser fundamental.

O reconhecimento e a satisfação das pessoas com aquilo que crio são, para mim, a maior recompensa e motivação para continuar. Quero continuar a crescer, a inovar e, acima de tudo, a contribuir para levar a ilha Terceira mais longe. Ser açoriana é, para mim, um orgulho imenso. E poder construir tudo isto aqui… é ainda mais especial.

O Luxus Azorean Spa Concept nasce num território muito particular. Nos Açores, a paisagem vulcânica faz parte da identidade das ilhas e da relação quotidiana com o lugar. Quando começou a pensar o projeto, até que ponto quis que essa geografia estivesse presente na experiência do spa?

Desde o início que este projeto tinha de nascer profundamente ligado aos Açores. Vivemos rodeados por uma paisagem muito poderosa, marcada pela origem vulcânica das ilhas, e isso influencia não apenas o território, mas também a forma como sentimos o lugar. Quando criei o Luxus Azorean Spa Concept, quis que essa ligação fosse mais do que estética.

Queria que a própria experiência de bem-estar refletisse essa identidade natural das ilhas. A ideia foi trazer para o spa os quatro elementos da terra, o fogo o mar a terra e o ar, elementos que fazem parte da paisagem e transformá-los em algo que pudesse cuidar do corpo e da mente. Foi assim que comecei a explorar o potencial do basalto, uma pedra que faz parte da nossa geografia e que tem características térmicas terapêuticas.

Quis criar algo verdadeiramente único, onde a natureza dos Açores não fosse apenas inspiração, mas parte ativa da experiência terapêutica e daí nasce o meu novo conceito de Spa com a Terapia de Basalto.

Um dos elementos mais distintivos do conceito é a marquesa de basalto aquecido. Transformar a pedra vulcânica, tão identitária da paisagem açoriana, num objeto de cuidado do corpo é uma ideia muito singular. Como surgiu essa intuição?

Este projeto nasceu há 17 anos, quando frequentei o curso de Gestão de SPAs, no qual o meu trabalho e conclusão final consistiram na criação de um SPA e de um conceito inovador e diferenciador para o mercado da saúde e bem-estar. Sendo eu dos Açores, apaixonada pelas minhas origens, defensora da exuberância e do valor das nossas ilhas, e com espírito empreendedor, pensei em criar um SPA que se tornasse uma referência para quem nos visita.

A ideia era proporcionar a possibilidade de sentir os Açores na pele, no corpo e na mente, através de elementos específicos, biológicos e geológicos, compatíveis e com possíveis efeitos fisiológicos no organismo, já comprovados. O basalto aquecido fornece calor e vibrações minerais que promovem o relaxamento muscular, o alívio de dores, a melhoria da circulação sanguínea e linfática, a oxigenação dos tecidos, a eliminação de toxinas e uma sensação de enraizamento.

Assim, a criação de uma Marquesa sensorial aquecida, talhada em basalto, tornou-se, sem dúvida, o ex-libris deste SPA. É desta forma que nasce a Sala Balsâmica, onde se encontram duas peças únicas para tratamentos terapêuticos, talhadas em basalto milenar da Ilha Terceira: a marquesa balsâmica e a banheira balsâmica.

Neste espaço, é possível, através da energização vulcânica e do poder mineral do basalto aquecido, usufruir de tratamentos únicos e massagens de assinatura exclusivas do nosso SPA, como a Vulcanic IUNIQUE Massage e o Azorean UNIQUE Ritual Massage, tornando-se assim uma novidade para os Açores e para o mundo.

Desenvolver uma peça dessas implicou resolver questões técnicas pouco comuns num spa. Como foi o processo até chegar a uma solução que funcionasse do ponto de vista terapêutico?

Estudadas, criadas e desenhadas por mim, definindo todos os aspetos do design e da funcionalidade, concebidas especificamente para este conceito, a Marquesa Balsâmica, com 2,11 metros por 0,95 metros e peso aproximado de 450 kg, foi talhada com precisão mecânica e acabamento manual, num processo artesanal de cerca de 200 horas, integrando mecanismos elétricos e de canalização para experiências sensoriais avançadas de termoterapia e hidroterapia.

A Banheira Balsâmica, com 1,90 metros por 0,95 metros e peso de aproximadamente 1000 kg, tem uma superfície interna polida para conforto máximo, permitindo banhos prolongados e intensificando os efeitos terapêuticos. Foi um processo longo e muito desafiante. Trabalhar com basalto não é simples, sobretudo quando queremos utilizá-lo de forma terapêutica.

Tivemos de estudar como a pedra reage ao aquecimento, como distribui o calor e como garantir que a experiência fosse confortável e segura para o corpo. Foram necessários vários testes, adaptações e melhorias até chegar à solução ideal. O objetivo era que o calor fosse transmitido de forma equilibrada, permitindo relaxar profundamente a musculatura e estimular a circulação.

Hoje, sabemos que estas peças têm efeitos terapêuticos muito interessantes e que, além disso, o contacto com a pedra tem também uma dimensão sensorial e energética que torna a experiência ainda mais envolvente. Cada peça é única e irrepetível, resultado da combinação entre arte, ciência mineral e engenharia, tornando-se instrumentos terapêuticos e esculturas vivas que refletem a autenticidade, sustentabilidade e memória ancestral do basalto açoriano.

O turismo açoriano transformou-se profundamente na última década, com uma procura internacional crescente e um discurso muito centrado na natureza e na autenticidade. Onde quis posicionar o Luxus Azorean Spa Concept dentro dessa evolução?

Os Açores têm vindo a afirmar-se como um destino muito especial precisamente pela sua autenticidade. Quem visita as ilhas procura natureza, tranquilidade e experiências que não encontra noutros lugares. O Luxus Azorean Spa Concept nasce exatamente nesse contexto. A ideia foi criar um espaço de bem-estar que refletisse essa identidade única do arquipélago, oferecendo algo verdadeiramente diferente.

Não queríamos apenas um Spa tradicional, mas uma experiência inspirada na própria essência das ilhas. Ao integrar elementos naturais como o basalto e ao desenvolver peças terapêuticas únicas, conseguimos criar um conceito que liga o bem-estar à identidade açoriana. Isso faz com que muitos visitantes sintam que estão a viver algo que só pode acontecer aqui na ilha Terceira e que, desta forma, pudessem sentir os Açores no seu corpo e na sua pele.

O seu percurso acabou por cruzar áreas que raramente aparecem integradas no mesmo projeto empresarial: estética, saúde, bem-estar e hospitalidade. Em que momento percebeu que essa visão podia transformar-se num conceito mais abrangente?

Essa visão foi surgindo de forma muito natural ao longo dos anos. No início estava muito focada na área da estética, mas com o tempo fui percebendo que a ilha tinha várias necessidades e uma delas era a falta de um Spa que era muito procurado pela comunidade americana que vivia na Base das Lajes e também pelo turismo que estava em crescimento.

Mais tarde vem a necessidade de evoluir na área da Estética e da Medicina que cada vez mais andam de mãos dadas e assim abro a primeira Clínica médica de medicina estética e terapias da ilha. O cuidado com o corpo, o bem-estar emocional e o ambiente onde nos encontramos estão profundamente ligados.

Muitas vezes os clientes procuram não apenas um tratamento, mas uma experiência de pausa, de equilíbrio e de reconexão, então a área do alojamento e hospitalidade era também a combinação perfeita. Foi a partir dessa perceção que comecei a integrar diferentes áreas no mesmo universo. A Medicina, a Estética, o Spa e a hospitalidade passaram a fazer parte de uma visão mais ampla, onde o objetivo é proporcionar experiências de cuidado e bem-estar em diferentes dimensões.

Hoje lidera três projetos com identidades distintas: o Luxus Azorean Spa Concept, a Luxus Clinic e o alojamento local Luxus Charming. Em que momento percebeu que estes diferentes espaços podiam funcionar como partes de uma mesma visão?

Com o crescimento dos projetos comecei a perceber que todos estavam ligados pela mesma filosofia. Cada um tem a sua identidade, mas todos partilham a mesma intenção: criar espaços onde as pessoas se sintam cuidadas, acolhidas e em equilíbrio. A clínica representa a vertente mais técnica e especializada, o spa explora a dimensão sensorial e terapêutica do bem-estar, e o alojamento oferece um ambiente de tranquilidade e conforto. Juntos formam um conceito que reflete aquilo que sempre procurei construir.

Depois do que já construiu até aqui, que ambição continua a orientá-la e a inspirá-la todos os dias?

A minha maior ambição continua a ser criar projetos com alma e identidade. Gosto de pensar que cada espaço que desenvolvo tem uma ligação profunda ao lugar onde nasce e às pessoas que o vivem. Ainda sinto a mesma curiosidade e vontade de inovar que tinha no início.

Há sempre novas ideias, novas formas de explorar o bem-estar e novas maneiras de valorizar os recursos naturais dos Açores. Se há algo que aprendi ao longo do caminho é que os projetos mais fortes são aqueles que nascem com confiança, propósito e autenticidade.

Acreditar em mim é a peça chave e é isso que continua a inspirar-me todos os dias.