Mulheres Inspiradoras

Uma vida a valorizar o património termal dos Açores

Empresária, investigadora e autora, Luísa Sousa Pereira tem dedicado a carreira à valorização do termalismo nos Açores, unindo património natural, ciência e inovação. À frente da gestão das Termas das Caldeiras da Ribeira Grande e das Termas do Carapacho, acredita que as águas termais podem afirmar-se como um dos setores estratégicos da economia regional.

A ligação de Luísa Sousa Pereira ao setor termal nasceu de um percurso marcado pela resiliência e pela capacidade de acreditar que o futuro pode ser construído para além das circunstâncias iniciais. Os desafios enfrentados desde a infância moldaram profundamente a sua forma de estar e a sua visão de liderança, ensinando-lhe a tomar decisões e a explorar caminhos diferentes.

Crescer numa ilha contribuiu igualmente para essa construção pessoal. Rodeada pelo mar e pela imprevisibilidade das condições naturais, aprendeu a lidar com adversidades de forma serena e persistente. A insularidade, longe de ser um limite, transformou-se numa fonte de inspiração e numa escola de paciência e coragem.

Uma liderança moldada pela resiliência

Ao longo de mais de uma década ligada ao setor termal, Luísa enfrentou diversos desafios profissionais, desde questões de mercado à gestão de equipas e recursos. Entre todos, o período da pandemia destacou-se como um dos mais exigentes, obrigando-a a tomar decisões difíceis num contexto de grande incerteza. Nessa fase, reconhece que o sentido de humanidade se sobrepôs muitas vezes à lógica puramente financeira, procurando preservar pessoas e projetos.

Apesar das dificuldades, mantém a convicção de que faria todo o percurso novamente. A paixão pelo termalismo e pela valorização deste património natural continua a ser um dos principais motores do seu trabalho. “Sonhei muito para lá do mar, para além da realidade que tinha à minha volta, e essa capacidade de acreditar e persistir tornou-se uma das bases da minha liderança.”

Para Luísa, o termalismo representa muito mais do que uma atividade económica, sendo um setor profundamente ligado à identidade açoriana, que cruza saúde, bem-estar, turismo e património cultural. A origem vulcânica das ilhas, responsável pela riqueza das águas termais, está no centro dessa relação entre natureza e comunidade. “O termalismo é, no meu entendimento, um dos setores mais transversais dos Açores.”

Além de responder às necessidades da população local, o setor tem também potencial para reforçar a atratividade turística da região e reduzir a sazonalidade. As experiências termais podem ser vividas durante todo o ano, transformando as características climáticas do arquipélago num fator diferenciador. “Valorizar o termalismo é, por isso, também preservar e projetar essa herança, afirmando uma identidade única que nasce da força da terra e da ligação profunda entre a natureza e as pessoas.”

Património que se projeta no futuro

Gerir dois espaços emblemáticos nos Açores é, para Luísa Sousa Pereira, um compromisso simultâneo com o passado e com o futuro. Nas Termas das Caldeiras da Ribeira Grande, cujo balneário foi construído em 1811, encontra-se um dos mais antigos patrimónios termais do país. Já nas Termas do Carapacho, na ilha Graciosa, a utilização das águas é conhecida desde o século XVIII, testemunhando a longa relação entre as comunidades locais e este recurso natural.

“Liderar a concessão de dois espaços termais tão emblemáticos nos Açores representa, antes de mais, uma enorme responsabilidade e um profundo compromisso com a preservação do património.” É neste equilíbrio que assenta a estratégia de desenvolvimento implementada ao longo dos últimos anos.

Foram criadas experiências terapêuticas e de bem-estar que valorizam as propriedades únicas das águas termais açorianas. Entre os projetos mais inovadores destacam-se um Baby Spa Termal, concebido para a saúde da pele infantil, e um spa capilar desenvolvido a partir das características mineralógicas da água. Outro elemento distintivo destas termas é a utilização de lama vulcânica natural em tratamentos, um recurso geotérmico profundamente ligado à origem vulcânica do arquipélago.

Na ilha Graciosa, encontra-se também em desenvolvimento um conceito inovador que pretende transformar as Termas do Carapacho no primeiro balneário termal a funcionar com três águas distintas: a nascente tradicional, uma água ferruginosa e a talassoterapia. Paralelamente, decorre o projeto para criar a primeira Vila do Bem-Estar dos Açores, numa visão mais ampla que ambiciona afirmar a ilha Graciosa como destino de referência no turismo de saúde e bem-estar.

Para que o setor termal açoriano atinja plenamente o seu potencial, Luísa considera essencial reforçar o investimento na recuperação do património termal e aprofundar o conhecimento científico associado às águas. Projetos de investigação, desenvolvidos em parceria com instituições académicas, procuram certificar as competências clínicas destes recursos naturais.

“Valorizar o termalismo é afirmar uma identidade única que nasce da força da terra e da ligação profunda entre a natureza e as pessoas”

A dimensão educativa também integra esta missão de valorização. Foi com esse propósito que escreveu o livro infantil “A magia das Termas dos Açores” procura explicar o termalismo de forma acessível às gerações mais jovens, despertando nelas curiosidade e orgulho por este património. “Sendo o termalismo uma expressão tão profunda da identidade açoriana e do nosso património natural e cultural, senti que era importante criar um contributo que ajudasse a dar-lhe maior visibilidade e compreensão.”

Enquanto mulher em posição de liderança, Luísa Sousa Pereira acredita igualmente na importância de inspirar outras mulheres a confiarem nos seus projetos. Para si, os sonhos são fundamentais, mas só se concretizam com trabalho consistente, clareza de propósito e coragem para enfrentar desafios. “O meu desejo profundo é que as mulheres não se resignem às circunstâncias. Que sonhem, que acreditem na vida e nas suas próprias capacidades. Que tenham coragem para imaginar futuros diferentes e determinação para os construir”.