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Bonhams: A Leiloeira mais antiga do mundo

A Bonhams é a leiloeira mais antiga do mundo e tem no seu portefólio uma série de peças que são referências nas artes, na joalharia e na cultura pop. São autênticos tesouros constantemente descobertos e leiloados. Filipa Rebelo de Andrade, representante da Bonhams em Portugal, fala-nos mais sobre a casa de leilões londrina, dedicada à venda de obras de arte e objetos antigos.

A história da Bonhams perdura por mais de dois séculos, que segredos existem para alcançar esta longevidade e, ainda assim, permanecerem como uma referência internacional?

A Bonhams realiza leilões continuamente desde 1793, mas a empresa moderna data da entrada no século 21, quando a Bonhams se fundiu com outra casa de leilões britânica, a Phillips. Desde então, a Bonhams tornou-se a empresa internacional que conhecemos hoje, abrindo salas de leilão em Nova York, Los Angeles e Hong Kong – além de seus dois salões em Londres e em Edimburgo – e estabelecendo escritórios em todo o mundo, incluindo Lisboa.

Conseguimos essa expansão sendo muito flexíveis e agindo com perspicácia quando surgem oportunidades. Dependemos mais do que tudo dos nossos funcionários – os nossos especialistas de departamento, as nossas equipas de apoio e os nossos representantes em todo o mundo, todos bem reconhecidos por serem amigáveis e acessíveis. Temos 60 departamentos especializados, portanto, podemos oferecer uma ampla variedade de vendas e a nossa presença internacional significa que podemos colocar itens à venda no local onde estes atraem mais interesse.

Em setembro de 2018, a Bonhams foi adquirida pela empresa de capital privado britânica Epiris. O que se alterou desde então?

Estamos a dedicar tempo, energia e recursos para melhorar a experiência do cliente – por exemplo, um novo website, mais fácil de usar (user-friendly) e uma aprimorada plataforma virtual de licitação – e tenho esperança de que as pessoas comecem brevemente a beneficiar dessas mudanças.

Portugal é um país rico em história e cultura, foram estas as principais motivações que levaram a Bonhams a que em 2015 abrisse um escritório em Lisboa?

A abertura do nosso escritório em Lisboa, em 2015, foi uma parte importante da nossa estratégia para estabelecer a marca Bonhams em toda a Europa. Portugal é, naturalmente, uma força cultural muito importante e vibrante, tanto no passado – historicamente – como nos dias de hoje e era por isso natural que quiséssemos abrir um escritório aqui.

O Brexit irá abalar esta relação entre a Bonhams e Portugal?

Portugal – e toda a Europa – é muito importante para nós e estamos determinados a garantir que a nossa relação continua a ser forte, independentemente do resultado das negociações políticas.

Qual a proveniência dos artigos que são leiloados? Existe algum patamar de exigência para estes artigos?

A maioria das peças que vendemos na Bonhams vem de particulares. Em primeiro lugar, verificamos sempre se a peça não foi declarada perdida ou roubada. Para isso, verificamos junto da entidade Art Loss Register, no Reino Unido, e nos bancos de dados semelhantes, internacionalmente. A origem de um item – ou seja, o histórico de propriedade é importante, portanto coisas como recibos de vendas podem ser muito úteis na determinação de quando e onde algo foi comprado. Realizamos também a nossa própria pesquisa, consultando – no caso de pinturas, por exemplo – o catálogo raisonné do trabalho do artista e recorrendo ao conhecimento de outros especialistas na área.

A Bonhams tem consigo alguns dos melhores especialistas de artes e história do mundo, é este o vosso principal argumento de diferenciação?

Estamos com certeza muito orgulhosos da nossa excelente equipa de especialistas, muitos dos quais são referências mundiais nas suas áreas, mas igualmente importante é atitude aberta e amigável que têm para com os nossos clientes, independentemente de quem seja.

Em 2016 realizaram o vosso primeiro leilão online, esta será uma aposta cada vez mais relevante para o futuro da Bonhams?

Estamos sempre à procura de métodos para expandir e melhorar a gama de serviços que oferecemos aos nossos clientes e os leilões on-line são, definitivamente, cada vez mais importantes.

Falando um pouco mais da Filipa Andrade. É especialista em arte asiática, o que a cativou a especializar-se nas artes orientais?

O meu interesse pela Arte e História do Extremo Oriente começou quando ainda era estudante na Universidade Nova de Lisboa. Uma das Disciplinas do terceiro ano foi a História dos Descobrimentos Portugueses. Num currículo académico essencialmente eurocêntrico, essa disciplina foi como um abrir de olhos para novos horizontes. Esse foi o gatilho inicial que despertou a minha curiosidade para aprender mais sobre Arte e História do Extremo Oriente. Obviamente, foi apenas a introdução, decidi posteriormente seguir esse campo, concentrando-me na Arte do Extremo Oriente, e escolhi o Reino Unido para o fazer. Na altura, também tinha em mente a oportunidade de uma nova coleção que estava a formar-se em Portugal pela Fundação Oriente, que foi um desafio que tive muito prazer em concretizar.

Qual o seu percurso até chegar a representante da Bonhams e que desafios se enfrentam num cargo desta dimensão?

O desafio inicial foi apresentar aos portugueses uma marca e uma empresa praticamente desconhecida e conquistar uma quota consistente do mercado. Acredito que conseguimos isso através de uma estratégia de coerência, perseverança e confiança. Os nossos desafios diários são manter a confiança que a Empresa tem em mim – a qual é uma grande honra – e a confiança que cada um dos nossos clientes deposita no Bonhams Office em Portugal.

O meu primeiro emprego foi como professora-assistente na universidade. Dei aulas de História da Arquitetura e Patrimônio Cultural durante três anos para os licenciados de Arquitetura e de Estudos Europeus. Ao mesmo tempo, mantinha outro emprego no CCB nos Serviços Educacionais.
Mais tarde, ingressei na Fundação Oriente, em 1997, onde atuava como curadora da coleção existente e consultora para aquisições, bem como todos os outros aspetos relacionados à gestão da coleção de arte.

Durante o tempo que passei no Reino Unido, tive a oportunidade de estagiar no Departamento Chinês de uma das principais leiloeiras, por isso a parte comercial do mundo da arte era-me muito familiar, especialmente na área da Arte do Extremo Oriente. Foram anos de grande oportunidade para aprender e fui verdadeiramente privilegiada, não só para trabalhar na minha área de especialização, mas porque a instituição depositava uma grande confiança em mim, especialmente o Presidente, Dr. Carlos Monjardino. Ele estava envolvido durante todo o processo e em todas as decisões. Foram anos de grande crescimento profissional.

A liderança no feminino é um tema pertinente pelos crescentes casos de sucesso. Enquanto representante da Bonhams em Portugal, sentiu alguma dificuldade no seu percurso profissional por ser mulher?

Não. Acredito que as dificuldades e a capacidade de as superar são independentes ao facto de ser mulher. Eu acredito que as capacidades profissionais de uma pessoa não dependem do seu género. Aliás, posso afirmar o oposto: ser mulher funciona a meu favor em situações de crise e superação, quando a perseverança é necessária. As mulheres têm uma capacidade natural de resistência.

Que desafios ainda faltam ultrapassar para uma igualdade de géneros?

Essa é uma questão que é muito ampla e que entra no campo da esfera social e política. Eu só posso falar da minha própria experiência. Profissionalmente, a capacidade de prosperar reside em si mesmo e nas circunstâncias que lhe são apresentadas, independentemente do género. Obviamente, o facto de que muitas mulheres também têm famílias, e têm, em geral, um papel dentro dos seus agregados familiares acrescenta alguma pressão nas suas vidas.

Como qualquer mãe que trabalha e tem uma família grande, às vezes é difícil gerir o tempo para a família e para os meus filhos. Mas também é bom que os meus filhos compreendam que a mãe trabalha e tem uma carreira, especialmente as meninas. Eu sinto que o papel de mãe é importante e não pode ser substituído numa família orgânica e equilibrada. Não há outra forma. Os meus filhos são o meu refúgio e o meu apoio, e tenho que criar um equilíbrio onde haja bom ambiente e sejamos felizes e realizados. Dito isto, do meu ponto de vista pessoal, o bem-estar dos meus filhos e da minha família – e não significa que seja financeiramente – é a prioridade.

Mas, como já mencionei, as capacidades profissionais são independentes do género da pessoa. Há muitos exemplos de mulheres que triunfaram nas ciências, nos negócios e em qualquer outros ramos.

Enquanto referência de liderança no feminino, que conselhos pode deixar a mulheres empreendedoras?

Na minha opinião, eu aconselhar mulheres em particular é, em si mesmo, um gesto paternalista e condescendente. Daria os mesmos concelhos a uma mulher que daria a um homem. O meu pai sempre educou as suas filhas para trabalharem como homens. Eu trabalho com homens e mulheres de igual forma. Nós temos funcionários, diretores e presidentes na Bonhams de ambos os géneros. Trabalhamos como iguais e também já assim o era na minha experiência passada, noutras instituições. Acho que as mulheres não devem ter tratamento especial sobre nenhuma circunstância.

O meu conselho será de confiança, fazer o melhor que puderem de acordo com as capacidades, mas não se esqueçam de que as circunstâncias à nossa volta também nos condicionam. Na minha opinião, ser mulher nunca pode ser uma desculpa para não ter sucesso.

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