Aceitar a falha como parte integrante e natural da vida é uma ferramenta concreta para lidar com a incerteza e a ansiedade. A ideia é defendida pela neurocientista Anne-Laure Le Cunff no livro Atreve-te a Falhar, recentemente editado em Portugal.
Aos 27 anos, Anne-Laure Le Cunff decidiu sair da Google, onde integrava a equipa de saúde digital, para procurar um caminho menos previsível. A decisão surge depois de um episódio clínico grave, um coágulo sanguíneo que exigiu cirurgia e que a confrontou com os limites de uma cultura de produtividade constante. Esse momento de rutura está na origem do livro agora publicado pela Editora Pergaminho.
Doutorada em Neurociências e investigadora no Instituto de Psiquiatria, Psicologia e Neurociência do King’s College London, a autora parte da sua experiência pessoal, mas estrutura a argumentação com base em estudos sobre curiosidade, aprendizagem e comportamento humano. Recordando a conversa de despedida na Google, Le Cunff reconhece que não tinha a certeza de estar a tomar a decisão certa. Avançou mesmo assim.
É dessa incerteza assumida, não resolvida, que emerge a distinção central do livro. A “maneira automática” de lidar com o medo procura neutralizar o desconforto através de planos rígidos e metas fechadas. A “maneira experimental” aceita o erro como parte estrutural do processo e transforma a dúvida em campo de observação.
A proposta apoia-se em investigação empírica e é apresentada como resposta simultânea ao burnout e ao tédio, dois estados que resultam, segundo a autora, de uma relação disfuncional com o desempenho. Em vez de trajetórias lineares e decisões definitivas, sugere ciclos curtos de tentativa, análise e reformulação. O erro deixa de ser falha moral ou fracasso irreparável e passa a funcionar como dado, como informação que permite ajustar o rumo.
No centro deste modelo está a curiosidade, entendida não como impulso vago, mas como disciplina cognitiva: a capacidade de permanecer no intervalo entre o que já se sabe e o que ainda não se compreende com atenção e abertura. Foi essa lógica que orientou os passos seguintes da autora, primeiro na criação de uma start-up e, mais tarde, na fundação da Ness Labs, plataforma dedicada à aplicação prática destes princípios junto de uma comunidade internacional interessada em formas mais sustentáveis de trabalhar e aprender.
Atreve-te a Falhar insere-se no campo do desenvolvimento pessoal, mas cruza ciência, experiência biográfica e reflexão prática. Não promete soluções rápidas nem fórmulas universais, mas antes uma alteração de postura perante a incerteza: tratar o erro como parte integrante do processo de pensar, decidir e agir.




