Mulheres Inspiradoras

O fio azul de São Miguel

Num arquipélago onde a identidade se transmite tanto à mesa como nas mãos que trabalham o linho, o bordado tradicional de São Miguel continua a atravessar gerações. Foi esse fio que levou a chef açoriana Sónia Melo ao encontro de Maria Cristina Borges, artesã que mantém vivo um saber-fazer nascido há quase um século.

Como surgiu o contacto com o bordado tradicional de São Miguel e de que forma esse encontro passou a integrar o seu percurso enquanto private chef?

Sónia Melo: O contacto surgiu num momento muito simbólico do meu percurso: a minha participação na cerimónia que assinava o fim do tirocínio da Confraria dos Gastrónomos dos Açores. Senti que precisava de vestir algo que representasse a Região e a nossa cultura tão rica. Sabia que iam estar confrarias nacionais e internacionais e quis que a peça que eu fosse usar falasse dos Açores antes mesmo de eu o fazer. Procurei o bordado tradicional de São Miguel não apenas como elemento estético, mas como símbolo identitário. A partir daí nasceu uma bonita amizade com a minha querida amiga Maria Cristina Borges, que criou esta peça personalizada que respeita a nossa tradição.

Tal como na gastronomia, também no artesanato existe património vivo que precisa de valorização. Percebi que o bordado de São Miguel não pode ficar confinado ao passado ou a peças meramente decorativas; precisa de ser integrado na vida contemporânea para continuar a existir. Ao integrá-lo na minha imagem e no meu percurso pessoal e profissional, senti que estava, à minha escala, a contribuir para essa valorização.

Que elementos históricos e técnicos tornam o bordado tradicional de São Miguel uma expressão singular do património açoriano?

Maria Cristina Borges (MCS): O Bordado Regional de São Miguel foi introduzido nesta ilha entre 1925 e 1930 pela família Bensaúde, mais precisamente pela Senhora Dona Lily Bensaúde. Utilizava serviços de loiça de porcelana de origem chinesa, muito fina e de tons azuis. Por questões de estética decidiu criar um desenho inspirado na composição dessas loiças. Assim surgiram desenhos estilizados compostos por cravinhos, avencas, folhas pequenas e flores, bordados sobre tecido de linho com dois tons de azul.

O bordado é executado com ponto matiz e ponto pé de flor ou ponto de haste, utilizando linhas de meadas de filosel da marca DMC vindas de França. O acabamento faz-se com ponto recorte em curvas viradas para o interior, com o tecido dobrado para o avesso e depois recortado.

Entretanto abriram duas fábricas de Bordado de São Miguel em Ponta Delgada. Desenhavam os padrões nos tecidos e distribuíam-nos pela ilha juntamente com as linhas, para serem bordados por senhoras que trabalhavam em casa.

Produziam-se naperons, toalhas de mesa para chá, jantar ou banquete e até lençóis. Esta indústria chegou a exportar grandes quantidades para toda a Europa e, mais tarde, para os Estados Unidos, Canadá, Brasil e Havai.

Muitas moças, com o que ganhavam com este trabalho, conseguiam obter o seu dote de casamento ou o enxoval de noiva.

Que impacto teve, na prática, o fecho da fábrica do bordado na continuidade deste saber-fazer e na comunidade ligada a ele?

(MCS): O impacto do fecho desta fábrica foi uma enorme surpresa para todos. Era uma referência na área do artesanato por se tratar de uma atividade única e identitária de São Miguel. Muitas famílias recorriam a esta empresa para lavar e engomar as peças bordadas à mão. O tratamento era de excelência.

Existem algumas artesãs certificadas que continuam a trabalhar nesta área e nas feiras de artesanato da ilha de São Miguel o bordado continua presente e muito apreciado. O Centro de Artesanato e Design dos Açores tem desenvolvido atividades para que este bordado continue.

O que considera hoje essencial para que o bordado de São Miguel continue vivo, valorizado e reconhecido?

(MCS): O essencial é que cada um de nós, enquanto visitante de feiras de artesanato, o adquira para que quem o executa continue motivado. Da parte que me toca, apesar do meu estado de luto pelo encerramento da última fábrica, agarrei-me a um pedido feito nas redes sociais pela chef Sónia Melo, que procurava uma blusa com o Bordado de São Miguel.

Sugeri então criar uma peça exclusiva. A chef veio ao meu encontro, conversámos e depositou toda a confiança em mim. Tirei medidas, confecionei o molde personalizado e desenhei um padrão para a túnica em tecido de linho.

Não escondo que muitas vezes não contive as lágrimas, pois ainda estava no processo de luto.

Com as fotografias da chef e a divulgação nas redes sociais recebi o convite da Junta de Freguesia de São José, em Ponta Delgada, para dar um curso de Bordado Regional de São Miguel. Para minha alegria, a formanda mais nova tinha 15 anos. Estou lançando sementes.

Sónia Melo novamente distinguida pelos consumidores
A chef açoriana Sónia Melo voltou a ser distinguida com o Prémio Escolha do Consumidor, reconhecimento baseado na experiência e avaliação de clientes que recorreram ao seu serviço de private chef.
“Teve um significado muito especial no meu percurso pessoal e profissional, sobretudo por ser um reconhecimento baseado na experiência real de quem já viveu o meu serviço. Mais do que um prémio, é a confirmação de que o caminho que tenho seguido faz sentido. Mostra que é possível trabalhar a partir de uma ilha e alcançar padrões de excelência reconhecidos a nível nacional.”