Entre a solidez de uma carreira consolidada e a coragem de recomeçar, Anabela Moura trocou a segurança pela inquietação de criar algo com assinatura própria, ao lado do marido. No coração de Ponta Delgada, o L’Epicure Azores afirma-se hoje como um projeto cultural e empresarial que une visão estratégica, compromisso local e o prazer em cada detalhe.
Para termos a oportunidade de a conhecer melhor, o que gostava de destacar do seu percurso profissional até à atualidade?
Construí a minha carreira na gestão operacional durante mais de duas décadas, num grupo empresarial exigente onde aprendi disciplina, rigor e responsabilidade. Trabalhei com equipas grandes, metas ambiciosas e decisões que tinham impacto real. Mas o que mais destaco não são os cargos. É a coragem de mudar. Aos 52 anos terminei um Executive MBA e percebi que segurança não podia ser o único critério das minhas decisões. Não mudei por insatisfação. Mudei por inquietação. Precisava de sentir que estava a construir algo com a minha assinatura, que arriscava, que aprendia novamente. Essa vontade de viver de forma mais inteira foi determinante.
Quais as motivações que a levaram a mudar de vida e a construir um projeto tão arrojado em conjunto com o seu marido?
A decisão foi simples e exigente ao mesmo tempo: ou fazíamos agora, ou ficávamos sempre com a pergunta do “e se”. Os Açores são um lugar onde temos casa, presença e onde nos sentimos verdadeiramente bem. Não foi uma escolha estratégica fria. Foi uma decisão emocional consciente. Sentimos que aqui podíamos contribuir de forma autêntica. Queríamos criar algo nosso, com identidade e impacto local. Não queríamos apenas falar de desenvolvimento regional. Queríamos participar nele. Construir o L’Epicure Azores com o meu marido é mais do que um negócio. É um compromisso com o território, com as pessoas e com a cultura da cidade.

Localizado no icónico Coliseu Micaelense, o L’Epicure Azores é um ponto de referência no centro de Ponta Delgada. Que história conta este espaço?
Este espaço tem memória. Ao longo dos anos viveu diferentes fases e conceitos, entre restauração, bar e projetos ligados à música. Muitos micaelenses ainda o associam a outros tempos que ficaram na história da cidade. O mais recente antes de nós foi o Lava Jazz, que já tinha uma ligação forte ao jazz e à programação cultural. Quando chegámos, sabíamos que não estávamos a começar do zero. Estávamos a entrar num lugar com passado. Estar dentro do Coliseu Micaelense é uma honra, mas sobretudo uma responsabilidade. É um símbolo cultural de São Miguel, no coração de Ponta Delgada.
Sentimos que estar aqui é estar no centro da vida cultural da ilha. O nosso objetivo nunca foi apagar o que existiu. Foi respeitar essa história e elevar o padrão. O L’Epicure nasce com essa consciência: reforçar a ligação à música ao vivo, abrir espaço a vários géneros musicais, promover lançamentos de livros, encontros corporativos, workshops e momentos culturais que tragam consistência à oferta da cidade.
Música, arte, gastronomia de qualidade e cocktails de excelência é o que pode encontrar quem vos visitar. Para quem não conhece, de que forma descreve este conceito adotado?
É um conceito simples e exigente: coerência. A música é o coração do espaço, mas não vive sozinha. Não fazemos programação para preencher calendário. Escolhemos artistas da região e também convidados internacionais que possam enriquecer o nosso palco e elevar a experiência cultural da cidade. Temos uma equipa estável, comprometida e alinhada com a nossa visão. Num setor onde a rotatividade é frequente, acreditamos na continuidade. Formamos pessoas, criamos cultura interna e valorizamos quem cresce connosco. Essa estabilidade sente-se no atendimento e na forma como recebemos quem entra.


Criámos uma carta pensada para acompanhar cada momento da noite. Trabalhamos com cuidado, valorizando produtos regionais e oferecendo refeições ligeiras que permitem ficar, conversar e desfrutar sem pressa. Temos hambúrgueres preparados com produto selecionado, pequenos snacks para partilhar e opções bem executadas que equilibram simplicidade e qualidade.
A ementa contempla também opções vegetarianas, porque queremos responder às diferentes escolhas de quem nos visita. Na vertente de bar, trabalhamos bebidas com e sem álcool. Temos cocktails clássicos, mas também cocktails de assinatura que refletem identidade e criatividade. Cada bebida é pensada para surpreender, sem excessos desnecessários.
O objetivo é claro: quem entra pode vir pela música, pela conversa, por uma refeição leve ou apenas por um bom cocktail. Acreditamos que é possível fazer bem feito em Ponta Delgada e estamos determinados a provar isso todos os dias.
“O prazer em cada detalhe” é o slogan do vosso espaço. Que significado tem este lema e como se reflete na experiência que procuram proporcionar a quem vos visita?
O nome L’Epicure nasce da ideia de que o prazer não está no excesso, mas no detalhe. Inspirámo-nos em Epicuro, que defendia que a felicidade reside nas pequenas alegrias da vida. É isso que queremos proporcionar. Não falamos de luxo vazio. Falamos de qualidade sentida. Queremos que quem entra sinta o prazer de ouvir boa música ao vivo, com som equilibrado. O prazer de um cocktail pensado e harmonioso. O prazer de uma conversa que flui porque o ambiente ajuda. O prazer de se sentir confortável e respeitado.

Nos Açores tudo tem intensidade própria. A natureza, o silêncio, a proximidade entre pessoas. Tentamos traduzir essa energia numa experiência completa. “O prazer em cada detalhe” significa que cada escolha — da programação à luz, da carta ao atendimento — existe para que o cliente viva esses pequenos prazeres de forma consciente. Se no final da noite alguém disser “soube mesmo bem estar aqui”, então cumprimos o nosso propósito.
O que gostava que cada pessoa sentisse quando entra no L’Epicure Azores pela primeira vez?
Que entrou num espaço com alma. Que não é apenas mais um bar. Gostava que sentisse pertença. Que se deixasse envolver pela música e pelo ambiente. Que percebesse que aqui há trabalho sério, mas também emoção. E que saísse com vontade de regressar.
Que balanço faz deste percurso desde a abertura e até aos dias de hoje?
Tem sido intenso e muito real. Empreender nos Açores não é romântico. É exigente. Impacto da sazonalidade, mercado pequeno, mas também uma exposição maior. Houve noites difíceis, decisões duras e momentos de dúvida. Empreender nunca é linear. Mas cada obstáculo confirmou que a decisão foi certa. Também há uma força enorme: os açorianos. Temos clientes que nos defendem, músicos que acreditam e parceiros que caminham connosco. Crescemos de forma sustentada, aprendemos com erros e consolidámos o nosso posicionamento. Hoje somos mais estratégicos, mais conscientes e mais ambiciosos.

Relativamente ao futuro, o que sente faltar ainda concretizar no desenvolvimento do espaço?
Quero consolidar o L’Epicure Azores como referência cultural no Atlântico. Trazer mais artistas internacionais, criar pontes com outros territórios e integrar o espaço em circuitos culturais que projetem Ponta Delgada além da sazonalidade turística. Queremos atrair turismo cultural durante todo o ano e afirmar a cidade como destino contemporâneo, não apenas paisagístico. Os Açores têm talento extraordinário. Têm mulheres a liderar projetos com firmeza e visão. Acredito que estamos numa fase de afirmação coletiva. E nós queremos fazer parte dessa elevação. Com trabalho consistente, ambição equilibrada e visão a longo prazo.




