Entre as raízes de uma infância marcada pelo esforço e a coragem de reinventar o seu caminho, Goreti Freitas construiu uma liderança assente em consistência e autenticidade. Hoje leva essa visão ao turismo, criando experiências que não se visitam apenas, sentem-se e permanecem.
Se recuarmos às suas origens, que momentos e aprendizagens sente que mais contribuíram para moldar o seu carácter e os valores que hoje defende?
Cresci num ambiente onde o essencial nunca faltou, mas onde tudo era conquistado com esforço. Foi aí que aprendi o valor do trabalho, da palavra dada, da luta constante e da resiliência. No seio familiar ensinaram-me, sem grandes discursos, que a força pode ser silenciosa e, ainda assim, inabalável. Recordo, com saudade, algo que o meu pai dizia com frequência: “o melhor dote que podemos dar aos nossos filhos são os estudos, pois através deles conseguem alcançar tudo o que quiserem”. Trago comigo essa herança todos os dias.
Como surgiu a sua ligação ao empreendedorismo e, mais especificamente, ao turismo?
Sempre tive uma inquietação natural para criar e fazer acontecer. Com 15 anos de banca e aos 40 anos de idade, percebi que precisava de dar um novo sentido à minha vida. Na verdade, todos nós somos empreendedores, mesmo quando trabalhamos por conta de outrem, mas sentia necessidade de fazer mais e diferente. Olhei para o contexto que atravessávamos e percebi que era importante acrescentar valor ao turismo. Rapidamente entendi que não podia fazer mais do mesmo. Foi então que atravessei o Atlântico à procura de formação que me permitisse entregar qualidade e, simultaneamente, capacitar outros profissionais. Foi no coaching que encontrei essas ferramentas.

Em algum momento do seu trajeto profissional sentiu que teve de provar mais do que os outros, especialmente por ser mulher?
Sim, senti isso inúmeras vezes. Infelizmente, ainda existem contextos onde as mulheres têm de provar as suas competências de forma mais intensa. No entanto, nunca permiti que isso me travasse. Pelo contrário, deu-me mais foco e determinação. Inicialmente, ficava triste e, por momentos, até bloqueava, mas rapidamente transformava essa sensação em alavanca. Com o tempo, aprendi que não precisamos de provar nada a ninguém, precisamos, sim, de acreditar em nós e seguir o nosso caminho com consistência.
Quando a subestimam, sente que fica fragilizada ou mais forte para provar o contrário do que possam pensar a seu respeito?
Verdadeiramente, foi um processo de amadurecimento. Hoje, vejo isso como um desafio. Não me fragiliza, antes pelo contrário, fortalece-me. Prefiro responder com trabalho, resultados e coerência. No final, isso fala sempre mais alto do que qualquer preconceito.
Na sua opinião, o que precisa de mudar nas mentalidades empresarial e social, para que mais mulheres liderem sem qualquer tipo de barreiras?
Precisamos de normalizar a liderança no feminino, sem a tornar exceção. Ainda existem muitos estereótipos e expectativas distintas para homens e mulheres. É essencial que as novas gerações cresçam a ver mulheres em posições de decisão, sem que isto seja questionado. E, acima de tudo, que nós próprias “MULHERES” não duvidemos do nosso lugar.


Já ponderou desistir em algum ponto da sua trajetória? Como acaba por gerir os seus medos e encontra força para continuar?
Já tive momentos difíceis, claro! Fases em que tudo parecia pesado, incerto, quase impossível. Mas nunca pensei verdadeiramente em desistir. Nessas alturas, lembrava-me: “nos momentos difíceis, ou crescemos ou morremos”. E a minha resposta era sempre: “eu não vou morrer!”. Quando o propósito é maior do que o medo, encontramos sempre forma de continuar. A família é um pilar fundamental, que nos lembra quem somos e porque começámos. E há também uma fé que sempre me guia.
Ser mãe e empresária exige equilíbrio, e gerir esta dualidade nem sempre é fácil. Já sentiu culpa por, em algum momento, priorizar a vertente profissional em detrimento da pessoal?
Queremos estar presentes em tudo, mas aprendi que o equilíbrio não é perfeito, é dinâmico. Há fases em que o trabalho exige mais e outras em que a família precisa mais de nós, e está tudo bem. Percebi que podemos desempenhar vários papéis e entregarmo-nos por inteiro em cada um. O importante é estarmos presentes quando realmente importa e sermos mais generosas connosco. Educar pelo exemplo é fundamental. Se os meus filhos crescerem a ver uma mãe que luta pelos seus sonhos, isso será a maior aprendizagem. E esta ressignificação transforma a possível culpa em clareza.

Lançou recentemente o novo projeto de “turismo emocional e espiritual”. Pode explicar como funciona na prática e, especialmente, como é que esta abordagem poderá transformar a experiência turística nos Açores?
No passado dia 13 de março, reabrimos ao público a primeira unidade hoteleira de 4 estrelas sob gestão da Azores Five Project, os Apartamentos Turísticos Baía da Barca, na ilha do Pico. O espaço é fantástico pelas suas condições, mas também por uma vista privilegiada sobre a imponente montanha do Pico e proximidade ao mar. Descemos alguns degraus e mergulhamos literalmente no oceano. É como se tratasse de um cruzeiro atracado no porto, mas repleto de singularidades.
Ora, o “turismo emocional e espiritual” parte de um princípio que já é conhecido no setor, que é o turismo de experiência. Contudo, acreditamos que possa ir um pouco mais além. Cada vez mais, as pessoas não se lembram apenas dos sítios que visitam, lembram-se do que sentiram. O nosso objetivo é criar experiências autênticas, ligadas às pessoas, à cultura e à essência dos Açores. Queremos que quem nos visita leve memórias com significado.
Na prática, trabalhamos três dimensões: conexão com a natureza, ligação à cultura local e impacto emocional da experiência. É a união entre duas paixões: turismo e coaching. Aplicado aos Açores, este conceito pode ser transformador. O destino já tem uma base fortíssima, o que fazemos é potenciar esses recursos de forma intencional, criando uma identidade diferenciadora.
Em vez de apostar na quantidade, privilegiamos a qualidade e a sustentabilidade. Este projeto representa muito mais do que um marco profissional. É a prova de que é possível crescer sem perder a identidade… como mãe, filha e mulher. Mais do que um espaço físico, é um projeto com propósito, com alma. E isso faz toda a diferença.




