Cultura | Património

Marvão, praça abaluartada

É um lugar de inegável beleza e ponto de visita obrigatório no Alto Alentejo. Em pleno Parque Natural da Serra de S. Mamede ergue-se “o mais alto dos picos quartzíticos a sul de Portugal”. É nele que nasce a fortificação de Marvão, cuja história nos é aqui descrita neste texto do Professor Jorge de Oliveira, Historiador, Arqueólogo e Professor Catedrático na Universidade de Évora.

De difícil acesso, muito difícil acesso, a crista quartzítica empina-se quase na vertical e deixa, bem lá no alto, uma estreita plataforma que o homem roubou às aves e foi ampliando para aí se instalar. E lá no topo do “mundo”, de onde se vê tudo, como dizia Saramago, o homem acastelou-se. Ainda antes dos romanos terem construído no vale do Rio Sever a cidade de Ammaia já no mais alto da colina que hoje acolhe Marvão tinha havido ocupação humana. Mas foi só no séc. IX, provavelmente em 877, que Ibn Maruán aqui ergueu muros e abriu cisterna e procurou refúgio para as suas gentes de armas. Assim batizou Ibn Maruán esta imponente formação geológica, Marvão.

O ambiente de conflitualidade gerado pelas manifestações autonómicas do muladi Ibn Maruán, obrigá-lo-iam a procurar refúgios que estes penhascos no extremo noroeste da Serra de S. Mamede lhe ofereciam. Nasce assim a fortificação de Marvão que por volta de 1160 passa para a posse das gentes de Afonso Henriques.

Os diálogos e sobretudo os conflitos medievais para afirmação das fronteiras, sobretudo decorrente do tratado de Alcanices, obrigaram o Reino de Portugal a reforçar os muros deste ponto estratégico e a povoá-lo. Durante o reinado de D. Dinis, como em quase todo o reino, também Marvão viu os seus muros ampliados envolvendo todo o casario que em torno da estrutura militar se ia alargando. A partir da centúria de quinhentos, sobretudo no reinado de D. Manuel, Marvão assiste a um forte incremento estrutural decorrente da sua situação estratégica, qual atalaia virada para as bandas do lado de lá do Rio Sever, onde uma Espanha em construção emergia como potência.

Não tarda que a conflitualidade da raia se reacenda e será no Período da Guerra da Restauração que Marvão passa a ter um papel determinante no controlo da fronteira. Ainda que esta praça fosse por todos considerada inexpugnável, as novas armas de guerra exigem uma revisão estrutural das zonas mais sensíveis. Acresce-se assim um sistema abaluartado que vai casar com os muros medievais, reforçando a defesa que as novas máquinas de guerra impunham. Se os muros são reforçados igualmente a guarnição intramuros é acrescida e novas estruturas são erguidas ou modificadas as mais envelhecidas para resguardo dos novos apetrechos bélicos. Nasce assim, em meados do século XVII, posteriormente revista no século seguinte, a Praça de Marvão que hoje conhecemos e que se preservou no tempo.

A pacificação da fronteira que tardou em ocorrer obrigou a que a Praça Marvão se mantivesse em alerta e de atalaia aos movimentos da raia até tempos bem perto do nosso. É a memória de uma estrutura defensiva que nasce ainda antes dos romanos aqui chegarem que se enraíza com Ibn Maruán, que lhe empresta o nome, que vê os muros crescerem e abraçarem o casario ainda na idade Média e que se reforça com o sistema abaluartado quando os conflitos modernos trazem novas armas de guerra que hoje pode ser apreciada por quem visita Marvão. Estruturas milenares feitas e refeitas abraçam um casario de origem medieval renovado nas centúrias seguintes, mas mantendo toda a modelação original. Marvão é, assim, um repositório de memórias que se preservam no mais alto dos picos quartzíticos a sul de Portugal.

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Inês Dias

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