Mulheres Inspiradoras

Liderar com propósito para transformar vidas através da educação e da saúde mental

Num percurso marcado pela superação pessoal e pela coragem de reinventar caminhos, Domingas Tavares Francisco transformou desafios profundos em propósito, dando vida a projetos com forte impacto social e humano. Entre a fundação do Colégio Luar do Saber e a criação da marca terapêutica LumineArt: Luz & Essência, a socióloga defende a saúde mental como pilar essencial para uma liderança mais consciente, equilibrada e transformadora.

Que etapas do seu percurso profissional gostava de destacar, de forma a inspirar outras mulheres a não terem medo de arriscar?

O meu ponto de viragem aconteceu quando percebi que sou a única pessoa responsável e capaz de criar a minha própria realidade. Quando percebi que apenas eu tinha a permissão de mudar o quer que fosse em mim, tudo começou a verdadeiramente a mudar: a minha relação com a comida, com as chefias, no meu casamento, na educação dos meus filhos, nos relacionamentos interpessoais e nos empreendimentos.

Em 2022 fundou o Colégio Luar do Saber, em Luanda, Angola. O que a motivou a fazê-lo?

Antes do Colégio Luar do Saber nascer, existia um desejo profundo e maior em fazer algo além do “ter um bom emprego e um bom salário numa reputada empresa”.

Para mim e para o meu esposo, na altura ainda namorados, não era possível deixar uma marca positiva e transformadora no mundo sem que isso partisse da nossa própria visão. Existia o sonho, mas não sabíamos “o quê”, “o como” e nem “o quando”. E, por mais de dez anos, fomos sonhando juntos, sem dinheiro para investir, sem projeto algum; somente com a certeza de que teria de ser algo que contribuísse para o crescimento e desenvolvimento humano em Angola, com uma vertente fortemente social e comunitária. Em 2022 nascia a marca Luar do Saber.

Que particularidades fazem com que a instituição, da qual também é diretora geral, se distinga das demais?

Quando o projeto Luar do Saber me “caiu nas mãos”, a primeira ideia que me veio em mente foi: eu quero ter um colégio onde os meus filhos possam estudar, ser amados, abraçados e vistos. Quero uma estrutura física e humana onde o “sentir”, o “expressar” e o “brincar” estejam acima do “cumprimento do programa”.

Aprendi, por via da dor, que o choro de uma criança é tão somente um grito desesperado por um abraço, um conforto emocional e, por esse motivo, era preciso levar esse entendimento a toda equipa, sem exceção. É a partir dessa visão que as nossas equipas pedagógica e administrativa orientam a sua atuação em sala de aula e no atendimento ao cliente, e que nos torna diferenciados no mercado.

Atualmente, é socióloga, vocacionada para a Saúde Mental Integrativa e Sistémica. Que razões a levaram a enveredar por este caminho?

A saúde mental entrou na minha vida após vários esgotamentos nervosos, seguidos de um quadro depressivo profundo que quase me tirou a vida. Estudei a sociologia até ao doutoramento, trabalhei em empresas de renome, casada, com filhos e com uma vida financeira estável: ou seja, segui o que o protocolo manda, no entanto, a determinada altura, nada fazia sentido, era como se estivesse a viver uma vida paralela, sem qualquer prazer ou propósito.

Estive vários anos em terapia, percebi o poder que a mente, as crenças e o nosso pensamento têm sobre a construção da nossa realidade e decidi juntar à sociologia toda essa vivência de renascimento e, assim, ajudar outras pessoas (que, por sinal, são imensas e cada vez mais) a atravessar os seus desertos e a renascerem.

A Organização Mundial de Saúde estima que mais de mil milhões de pessoas vivem com perturbações mentais, como ansiedade e depressão. Como é que família, trabalho, escola e comunidade influenciam negativamente o equilíbrio emocional?

Essa influência negativa tem origem, notadamente, ao nível das crenças! Os nossos diálogos internos moldam o modo como encaramos o mundo, o outro, o problema e as oportunidades. Se, a média das cinco pessoas com as quais mais convivemos, experimentam e valorizam constantemente a dor, a angústia, o ressentimento, o medo, as perdas, as desilusões, é muito provável que ao fim de alguns anos, o nosso olhar para a vida seja totalmente amargo. E o contrário também é, de igual modo, verdade. O ambiente em que convivemos tem o poder de nos adoecer ou nos dar mais saúde.

Enquanto profissional da área, o que considera que deve ser feito para priorizar o bem-estar mental e, consequentemente, diminuir problemas relacionados com esta questão?

De forma muito direta: cada um de nós tem de ter a capacidade de se escolher todos os dias, sem exceção. Mas, para isso acontecer, a pessoa tem de saber quem é, o quer, o que não quer para que, diariamente, possa ir fortalecendo a sua identidade. Quando colocamos as prioridades alheias à frente das nossas necessidades, cedo ou tarde, a sobrecarga e a exaustão ocuparão os nossos discursos, o nosso corpo e a nossa mente.

Se lhe fosse dada a permissão para mudar algo na forma como a sociedade encara e, por vezes, negligencia a saúde mental, o que seria?

Começaria por explicar a importância de olharmos o tema numa vertente mais individualizada, pois não acredito em soluções gerais para questões individuais: não deveríamos prescrever o mesmo medicamento para pacientes distintos, só porque, aparentemente, apresentam os mesmos sintomas. Depois, explicaria que a construção da realidade começa na mente: uma mente doente, distorcida, infeliz, incapaz de perdoar dificilmente alcançará resultados duradouros e com impacto positivo.

Em terceiro lugar, demonstraria que cuidar da mente é tão, ou mais importante quanto cuidar do corpo: é necessário que haja um equilíbrio, para que os ganhos de saúde sejam estáveis e equilibrados.

Mais recentemente, decidiu reinventar-se novamente e criar um negócio que, em breve, vai ser lançado. Do que se trata esta nova aposta?

É verdade. A maternidade tirou-me a liberdade e, ao mesmo tempo, abriu-me um mundo de inúmeras possibilidades e reinvenções. Existem dois grandes questionamentos que me acompanham desde que me tornei mãe e que têm me levado a questionar o modo como as questões da maternidade têm sido tratadas no plano social, financeiro e das crenças culturais: quem sou eu como mãe, mulher e esposa? Porque é que tenho de escolher entre realizar-me profissionalmente e cuidar dos meus filhos?

Há 14 anos que vivo com a culpa em ter de fazer escolhas que nunca deveriam ser questionadas e foi nesse desconforto que nasceu a LumineArt: Luz & Essência – uma marca de produtos artesanais com foco terapêutico. Nasceu de uma mãe que tem procurado por si enquanto mulher e profissional. A necessidade de conciliar trabalho, família e vida pessoal, fez-me criar esse projeto a pensar em outras mulheres e mães que estejam a fazer o mesmo caminho de autoconhecimento.

De que forma os aromas das velas, sabonetes e escalda-pés que está a produzir podem ser terapêuticos?

A linha de produtos selecionada é produzida à base de três abordagens terapêuticas naturais que ajudam a promover um bem-estar físico, mental, emocional e espiritual de forma integral e integrada, fazendo um paralelismo entre a ancestralidade, a espiritualidade e a modernidade. São eles: a fitoterapia, conhecida pela utilização de plantas, chás, extratos e óleos para ajudar a tratar questões de saúde física e mental, a aromaterapia, igualmente, usada como uma abordagem terapêutica natural que usa os óleos essenciais extraídos de plantas aromáticas, e os cristais de cura energética, que através da vibração que emitem, ajudam a limpar, equilibrar e a proteger o campo energético e, desse modo, promover um bem-estar integral.

Se cada um dos produtos pudesse transmitir uma mensagem à pessoa que o vai adquirir, qual gostaria que fosse?

São várias as mensagens que quero muito levar à essas mulheres e mães. Mas, se pudesse comunicar com elas diretamente, dir- lhes-ia o seguinte: não tens de cumprir com as expectativas alheias e nem tens de te comparar com quem quer que seja. Cada uma de nós, mães, nasceu com um livro interno que precisa de tempo e calma para ser lido, apreciado e integrado na nossa rotina educativa com cada filho gerado. Encontra esse tempo para o leres, enquanto cuidas de ti e dos teus rebentos com amor, empatia e verdade. Não tens de escolher entre ser boa mãe e excelente profissional, só tens de descobrir as inúmeras possibilidades que a maternidade te trouxe e que está a convidar-te a descobrir!

DOMI_SAUDAVELMENTE