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“O sindicalismo, hoje, é tão ou mais importante como foi nos princípios do século passado”

É inegável que o mundo laboral está a mudar, e o sindicalismo tem de se adaptar a novas circunstâncias. A Associação Sindical Portuguesa dos Enfermeiros (ASPE), criada em 2017, surgiu como uma lufada de ar fresco, assumindo-se como um sindicato independente e realmente diferente, pioneiro até. Com um crescimento assinalável nos últimos meses e uma representatividade cada vez maior, estivemos à conversa com a sua Presidente, Lúcia Leite.

A Associação Sindical Portuguesa dos Enfermeiros, de acordo com o princípio de qualquer sindicato, defende os direitos e interesses dos enfermeiros. Mas, Lúcia Leite, a ASPE tem algumas caraterísticas que a distinguem dos restantes sindicatos?

A ASPE foi criada numa lógica diferente. Primeiro, para confrontar uma insatisfação geral que há em relação ao sindicalismo, sobretudo ligado às centrais sindicais. Ou seja, como há ligações político-partidárias, as pessoas começaram a entender que há mais lutas na rua conforme o partido que está no governo. Muitas lutas, muito ruído, muito show-off na comunicação social e depois o resultado era quase nenhum, não é? E no caso dos enfermeiros mais ainda. Nós temos problemas, há mais de vinte anos que se têm vindo a agravar, com legislação avulsa que vai sendo produzida sem recuperar aquilo que foram as perdas que foram causadas, de anos anteriores. Nós precisávamos de um sindicato dinâmico e que tivesse uma direção pequena, para poder tomar decisões rapidamente. Não precisávamos de ter delegações regionais, que tinham custos de instalação muito grandes. Hoje estamos na era do digital. Quando criámos o Sindicato, eu propus aos colegas fazermos uma coisa realmente diferente. Ou seja, primeiro ficarmos localizados numa cidade pequena, também foi intencional.

Em Ovar…

Exato, para baixar os custos, porque, de facto, hoje não é preciso estar em Lisboa ou no Porto para ter um sindicato com abrangência nacional. Depois, utilizar as ferramentas que nós temos hoje ao nosso alcance, e são muitas, cada vez mais.

É mais fácil estar próximo dos associados através das plataformas digitais?

É, a pandemia até veio ajudar ainda mais. Nós já estávamos a trabalhar um pouco nessa lógica. Desde a fase inicial da pandemia que passámos a reunir por videoconferência e são raras as reuniões presenciais que fazemos, embora eu sinta a necessidade dessas reuniões presenciais. É um fator importante para a coesão de grupo.

Numa altura em que há tantas pessoas a trabalharem mais em registo de teletrabalho, como acabou de referir, essa questão da coesão pode ser mais preocupante? Ao acabar por afastar mais os trabalhadores uns dos outros? Eu sei que no caso da enfermagem isso não se coloca por motivos óbvios das funções dos enfermeiros.

Esse é um dos motivos por que acho que a profissão de enfermagem não corre nenhum risco com estas evoluções da nova tecnologia. É que até podem substituir outras profissões da saúde, não na totalidade mas parcialmente, por sistemas eletrónicos de inteligência artificial. Agora, a dos enfermeiros não vão conseguir nunca, porque nós cuidamos das pessoas, precisamos de tocar nelas. Mas eu acho que a sua pergunta introduz uma outra questão que também é importante para nós pensarmos. É que eu acho, como já achava em 2017, que o sindicalismo, hoje, é tão ou mais importante como foi nos princípios do sindicalismo, ou seja, no princípio do século passado. As relações laborais deterioraram-se e, sobretudo em Portugal, nós temos um sentimento de impunidade por falência completa do poder judicial. O poder judicial é tão moroso e tão caro que, quem toma decisões hoje, sabendo que está a cometer uma infração, uma ilegalidade contra o trabalhador, também sabe que o esse mesmo trabalhador não tem meios para a contestar. Por isso, a ASPE evoluiu, por exemplo, no último ano, com o reforço dos serviços jurídicos, de forma a garantir, aos nossos associados, o acesso gratuito a qualquer processo judicial.

Relativamente a essa capacidade de resposta que o sindicato tem, mantendo uma estrutura pequena, “low cost” – pegando na expressão que utiliza para a definir, como é que se consegue ter uma capacidade de resposta tão célere e eficaz junto dos seus associados?

Sabe, os enfermeiros são muito voluntariosos. Muitos problemas de abusos laborais existem, como eu costumo dizer, porque eles se comportam como enfermeiros e não como trabalhadores. Nós somos incapazes de deixar os doentes sem cuidados, mesmo sabendo que não nos pagam pelo serviço que estamos a prestar e isso vira-se contra nós. A ASPE, neste momento, tem três pessoas, onde eu me incluo, que asseguram o serviço “ASPE faz por ti”. Nós ligamos aos colegas, temos o serviço administrativo e jurídico, que faz o controlo dos pedidos, em termos de enquadramento, e fazemos uma triagem pela urgência de cada pedido. Como é que conseguimos? Conseguimos porque há aqui muita vontade muita motivação intrínseca. A ASPE tem tido um crescimento bastante grande. Posso-lhe dizer que, não falando do número de associados, porque para nós é tabu até sermos o maior sindicato de enfermeiros do país. Posso dizer-lhe que cerca de 50% utilizaram o serviço em 2022 e em dezembro tratámos perto de 500 requerimentos.

E falta muito para ser o maior sindicato de enfermeiros do país?

Pode ser amanhã. Amanhã não, mas pode ser em pouco tempo porque as filiações são online. Nós não fazemos angariação ativa de associados, conquistamos a sua confiança, percebemos que os enfermeiros têm muita falta de informação sobre os seus direitos. São enganados todos os dias porque as chefias ou, supostamente, os recursos humanos, que deviam informá-los sobre o enquadramento legal correto dizem-lhes autênticas barbaridades, como se fossem verdade. Por isso é que o serviço “ASPE faz por ti” é tão importante para os enfermeiros e tem sido essa proximidade e apoio personalizado que conquista a sua confiança.

O sindicalismo está a mudar. É algo que temos observado e que é facilmente percetível para quem acompanhe as notícias diariamente. O que é que traz de novo este sindicalismo mais independente?

A ASPE é dos primeiros sindicatos independentes que surgiu em 2017. A maior parte dos sindicatos independentes surgiram em fases posteriores, mesmo noutras áreas profissionais. Aliás, o que está a acontecer agora com o STOP é muito na lógica do que aconteceu com a ASPE em 2017. Eu acho que o sindicalismo tem de ser o verdadeiro parceiro social. E não tem sido. Temos de perceber o outro lado. Quando a organização percebe que aquilo que são condições de trabalho asseguradas ao trabalhador tem sérias e grandes vantagens para aquilo que é a sua missão e os seus resultados, vamos colocar-nos todos a trabalhar no mesmo lado.

A ASPE tem uma mulher na presidência, o que não é assim tão habitual, embora os enfermeiros sejam uma classe maioritariamente feminina. Queria também ouvir a sua opinião sobre isso.

A ASPE tem esta caraterística de ter uma liderança feminina e é uma direção maioritariamente feminina que é uma coisa que causa impacto nas negociações. Quando nós vamos à negociação entramos quatro mulheres por lá dentro, o que também não é normal no sindicalismo (risos). O sucesso da liderança no feminino resulta da forma como nós, mulheres, gerimos os processos. Nós somos focadas, por natureza, as mulheres têm uma visão abrangente dos problemas e nós precisamos dessa visão abrangente, precisamos de ser pragmáticas e objetivas a tomar decisões.

Para fechar esta nossa entrevista, a quem nunca se tenha sindicalizado antes, e aqui falando aos enfermeiros em particular, qual o apelo final que quer deixar?

Os enfermeiros precisam, como nunca precisaram, de estar sindicalizados e precisam de se sentir representados e identificados com quem os representa. Como costumo dizer aos enfermeiros, sindicatos há muitos mas há um que é melhor para si, e esse é a ASPE.