“Redesenhar” é um verbo exigente. Foi o verbo escolhido pela ONU Turismo para o Dia Mundial do Turismo deste ano, a 27 de setembro, sob o mote “Agenda Digital e Inteligência Artificial para Redesenhar o Turismo”. É um tema que nos obriga a pensar a forma como gerimos e promovemos os destinos, mas obriga-nos, sobretudo, a ser claros sobre aquilo que não se redesenha.
Portugal é hoje um destino turístico internacionalmente reconhecido pela força e diversidade dos seus atributos: o património, a gastronomia, a natureza, a cultura, a segurança, a qualidade da oferta e a hospitalidade que tanto nos distingue. Mas há também um Portugal menos imediato, que não se revela à primeira visita nem cabe sempre nos grandes roteiros: o das vilas que guardam memória, das serras onde o tempo abranda, das festas populares que continuam a mobilizar comunidades e dos sabores que atravessam gerações porque permanecem vivos. Tornar este país mais conhecido, mais percorrido e mais equilibradamente visitado é um dos grandes desafios do turismo contemporâneo. E é precisamente aqui que a tecnologia pode deixar de ser apenas instrumento de eficiência para se tornar uma alavanca de conhecimento, planeamento e valorização territorial.
Aquilo que a Inteligência Artificial acrescenta de verdadeiramente novo é a capacidade de antecipação. Prever a pressão sobre um centro histórico num fim de semana antes de ela acontecer. Distribuir visitantes por percursos alternativos em tempo real. Antecipar e mitigar o impacto de eventos extremos, como as intempéries que no início do ano deixaram marcas em regiões particularmente dependentes da atividade turística, afetando reservas e pressionando muitas micro e pequenas empresas. Perceber o que milhares de comentários dizem sobre um museu, sobre um restaurante, sobre um destino, sem os ler um a um. É a diferença entre reagir e planear, entre gerir fluxos e sofrer fluxos, entre um turismo que se impõe aos territórios e um turismo que se coordena com eles.
É por esta razão que a Inteligência Artificial não deve ser lida como uma força que substitui aquilo que nos distingue. Deve ser lida como uma ferramenta que redesenha aquilo que nos distingue. Redesenhar o turismo com Inteligência Artificial é, no fim, uma questão de escolhas. A escolha de aproveitar todo o potencial deste novo paradigma, sem deixar de proteger aquilo que fez de Portugal um destino reconhecido internacionalmente. A escolha de fazer da tecnologia um aliado ao serviço das comunidades, dos territórios, das pessoas, e não um fim em si mesmo. E a escolha, coletiva, de continuar a construir um turismo que gera valor para quem viaja, para quem trabalha no setor, e sobretudo para o país como um todo.
É esse o convite que o Turismo de Portugal, através da sua campanha “Não Procures Mais Longe. Encontra o teu país”, tem vindo a fazer aos portugueses. Um convite para conhecer os territórios, valorizar as comunidades, viajar ao longo de todo o ano, contribuir para a redução da sazonalidade e para a preservação da diversidade que distingue o país. É também nessa relação de proximidade com o território que se joga o futuro do turismo, com ou sem tecnologia.
Porque só valorizamos verdadeiramente aquilo que conhecemos, e nenhuma tecnologia nos dispensa desse conhecimento. Neste Dia Mundial do Turismo, é essa a nossa ambição: um turismo que se redesenha com inteligência, sem nunca se afastar daquilo que o torna único.
Por Carlos Abade, Presidente do Turismo de Portugal




