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A coragem de recomeçar e a ambição de ir mais longe

Aos 47 anos, Violante Carvalho regressou à universidade para conquistar a autonomia profissional que ambicionava, conciliando os estudos com uma carreira na área da contabilidade. Fundadora da VC Contabilidade, construiu um percurso marcado pela persistência, pela formação contínua e pela vontade de transformar as dificuldades em novas oportunidades, que lhe valeu o Prémio Mulher Empresária, atribuído pelo jornal O MIRANTE.

A decisão de voltar aos estudos aos 47 anos surgiu depois de uma fase difícil da sua vida profissional. O que aconteceu nessa altura e que importância teve o apoio dos clientes que continuaram a confiar no seu trabalho?

Esta decisão nasceu de um momento particularmente desafiante da minha vida profissional, mas também de uma enorme vontade de conquistar a minha independência e continuar a crescer.

Durante cerca de 12 a 13 anos, integrei uma sociedade na área da contabilidade que, apesar de todo o trabalho e dedicação, acabou por não ter o desfecho que desejava. Foi uma experiência que me marcou profundamente, mas que também me ensinou que, por vezes, são precisamente os momentos mais difíceis que nos levam a descobrir a nossa verdadeira força.

Quando esse ciclo terminou, cinco clientes decidiram continuar a confiar no meu trabalho e acompanharam-me nesta nova etapa. Foi um gesto que nunca esqueci, porque representou o reconhecimento da dedicação, da responsabilidade e da relação de confiança que tinha construído ao longo dos anos.

Contudo, apesar da experiência profissional que já possuía, ainda não tinha a qualificação necessária para assumir, de forma autónoma, a responsabilidade técnica pelas contabilidades das sociedades. Nessa altura, contei com a ajuda de um antigo colega de escola, já habilitado profissionalmente, que acreditou em mim e se disponibilizou para assumir essa responsabilidade.

Foi então que tomei uma das decisões mais importantes da minha vida: regressar à universidade e conquistar, através do estudo, a autonomia profissional que tanto desejava.

“Os diplomas têm o meu nome, mas cada conquista tem um pouco do amor, do esforço e do apoio da minha família”

Como conseguiu conciliar o trabalho com a licenciatura, o mestrado e, mais tarde, o doutoramento? Que obstáculos foram mais difíceis de ultrapassar?

Aos 47 anos, iniciei a licenciatura em Gestão de Empresas, conciliando os estudos com o trabalho e todas as responsabilidades da vida adulta. Não foi fácil, mas a determinação era maior do que as dificuldades.

Depois de concluir a licenciatura, deparei-me com novas exigências académicas para aceder à profissão de contabilista certificada. Em vez de encarar essa situação como um obstáculo, decidi ir ainda mais longe: ingressei no mestrado em Contabilidade Fiscalidade e Auditoria e, simultaneamente, frequentei quatro unidades curriculares adicionais necessárias ao meu percurso de qualificação.

Concluí esta etapa com sucesso, dentro dos prazos previstos, e alcancei um dos meus grandes objetivos: obter a inscrição na Ordem dos Contabilistas Certificados.

Mas a vontade de aprender não terminou aí. Decidi avançar para o doutoramento em Contabilidade, na Universidade de Aveiro, onde concluí o primeiro ano curricular com a classificação de 16 valores. Paralelamente, candidatei-me à Ordem dos Economistas, tendo sido admitida como Economista Sénior.

Olhando para trás, percebo que aquilo que começou por ser uma necessidade de afirmação e independência profissional se transformou numa verdadeira paixão pelo conhecimento e pela valorização pessoal.

Os maiores obstáculos foram, sem dúvida, a gestão do tempo, o cansaço e a necessidade de conciliar a vida profissional com um percurso académico muito exigente. Mas nunca permiti que a idade ou as dificuldades fossem uma razão para desistir. Hoje, sinto um enorme orgulho neste caminho, não apenas pelos títulos académicos ou profissionais alcançados, mas sobretudo pela pessoa em que me tornei ao longo deste processo.

Aprendi que nem sempre podemos escolher as dificuldades que a vida nos apresenta, mas podemos escolher a forma como lhes respondemos. E eu escolhi responder com trabalho, conhecimento, determinação e coragem para recomeçar.

A criação da VC Contabilidade permitiu-lhe construir um projeto próprio. Que visão quis imprimir ao gabinete e que papel pretende ter junto dos empresários que acompanha?

A criação da VC Contabilidade concretizou um sonho pessoal e profissional e deu início a um projeto que quero fazer crescer e consolidar.

Depois de muitos anos de experiência na área da contabilidade e de um percurso marcado por desafios, aprendizagem e conquistas, senti que tinha chegado o momento de construir algo verdadeiramente meu, onde pudesse colocar em prática não apenas os conhecimentos adquiridos, mas também os valores que sempre orientaram a minha vida profissional.

Quis criar um gabinete que fosse além do cumprimento das obrigações contabilísticas e fiscais, assente no rigor, na ética, na transparência e na confiança dos clientes.

Acredito que o contabilista certificado deve ser um parceiro estratégico do empresário: alguém que interpreta os números, aconselha e contribui para decisões mais sustentadas.

A experiência de vida ensinou-me a importância de saber ouvir, compreender as dificuldades dos outros e encontrar soluções. Cada cliente tem a sua história, os seus desafios e os seus objetivos, pelo que considero fundamental prestar um serviço personalizado, próximo e humanizado.

Na VC Contabilidade, procuro conciliar a experiência prática adquirida ao longo de muitos anos com o conhecimento técnico e científico que fui aprofundando através da formação académica. Acredito que esta conjugação constitui uma das maiores mais-valias que posso oferecer aos meus clientes.

“A experiência que acumulamos ao longo da vida não é um peso, mas uma riqueza que nos prepara para novos desafios”

Enquanto mulher empresária, quais considera serem os maiores desafios para uma mulher que pretende construir o seu próprio negócio e afirmar-se num meio profissional exigente? Que competências e atitudes considera fundamentais?

Ser mulher empresária continua a ser um desafio, sobretudo pela necessidade de conciliar responsabilidades e afirmar-nos num mercado competitivo.

Um dos maiores desafios é conquistar espaço, demonstrar competência e ganhar confiança. A conciliação entre a vida pessoal, familiar e profissional exige organização, determinação e resiliência.

Acredito que a competência, a ética, a responsabilidade, a persistência e a formação contínua são fundamentais para construir uma carreira sólida e conquistar reconhecimento. Também considero muito importante manter a humildade para continuar a aprender. Vivemos num mundo em constante transformação, particularmente na área da contabilidade, onde as alterações legislativas, fiscais e tecnológicas exigem uma atualização permanente.

O que significou receber o Prémio Mulher Empresária, atribuído pelo Jornal O MIRANTE, e que importância teve partilhar esse momento com a sua família?

Receber o Prémio Mulher Empresária, atribuído pelo Jornal O MIRANTE, foi um dos momentos mais gratificantes do meu percurso. Senti que era reconhecida uma história de trabalho, persistência, aprendizagem e coragem para recomeçar.

Foi particularmente emocionante ter o meu marido e os meus filhos presentes na cerimónia. Eles conhecem melhor do que ninguém os desafios que enfrentei, os sacrifícios que foram necessários e a determinação com que procurei alcançar os meus objetivos. O meu marido foi um pilar fundamental em todo este percurso e os meus filhos foram sempre uma fonte de motivação. Por isso, naquele momento, senti que o prémio não era apenas meu. Era também deles, porque estiveram ao meu lado quando os sonhos ainda pareciam difíceis de concretizar.

Agradeço ao Jornal O MIRANTE esta distinção, que me deu visibilidade e mostrou que a minha história pode inspirar outras pessoas.

“A criação da VC Contabilidade concretizou um sonho pessoal e profissional e deu início a um projeto que quero fazer crescer e consolidar”

Olhando para o futuro, que ambições tem para a VC Contabilidade e que legado gostaria de deixar através do seu trabalho?

A minha ambição não termina no presente. Quero que a VC Contabilidade continue a crescer, que seja reconhecida pela qualidade dos seus serviços e que se torne uma referência de confiança e profissionalismo. Gostaria de deixar um legado assente em valores sólidos, responsabilidade e numa contabilidade que coloque as pessoas no centro.

Que mensagem gostaria de deixar às mulheres que sentem que é tarde para mudar de vida, investir na formação ou concretizar um sonho?

Às mulheres que sentem que é tarde para mudar de vida, estudar ou concretizar um sonho, digo: não deixem que a idade limite as vossas ambições. Não devemos ter medo de recomeçar. A experiência que acumulamos ao longo da vida não é um peso, mas uma riqueza que nos prepara para novos desafios. O sucesso não tem idade e os sonhos não têm prazo de validade. 

VC-CONTABILIDADE