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EDITORIAL | EDIÇÃO 68 | OUTUBRO 2026

Para conhecermos verdadeiramente algumas coisas, temos de perceber o que está por detrás delas, descobrir como funcionam. É também assim com a energia. A palavra vem do grego energeia, termo usado por Aristóteles para designar aquilo que está em ato, por oposição a dynamis, a potência, aquilo que ainda pode realizar-se. Como defendia o antropólogo Leslie White, a evolução de uma cultura mede-se pela energia que consegue captar por pessoa e pela eficiência com que a coloca a funcionar. Para quem conheceu ainda aldeias à luz de candeia, ver a eletricidade chegar a cada canto do país é uma coisa maravilhosa.

A história da eletrificação portuguesa escreve-se em boa parte nas barragens e nas centrais hidroelétricas que transformaram os nossos rios em fontes de energia. Conheço bem essa realidade desde sempre, em particular o sistema hidroelétrico do Cávado e dos seus afluentes, onde a produção hidroelétrica ajudou a mudar a vida de tantas populações. Tenho um imenso respeito por essa história e por quem produz. A água armazenada nas albufeiras é energia em potência. Em algumas barragens, essa água pode ser bombeada para uma cota superior e voltar a produzir eletricidade quando necessário. As albufeiras servem também o abastecimento das populações, o regadio, o combate aos incêndios, as atividades náuticas e o turismo. No Douro, as barragens contribuíram ainda para a navegabilidade do rio. Tudo isto tem uma importância vital, e esta é uma palavra particularmente acertada, ou não estivéssemos a falar de água.

Mas a procura de energia continua a crescer. A inteligência artificial e os centros de dados exigem grandes quantidades de eletricidade e, em determinadas operações, de água. A transição energética reduz a dependência dos combustíveis fósseis, mas exige matérias-primas cuja extração tem consequências sobre os territórios. O lítio, indispensável ao fabrico de muitas baterias, implica exploração mineira, com impactos nos recursos hídricos e nas populações locais. A maior parte da pressão ambiental associada ao nosso consumo desloca-se, assim, para lugares distantes daqueles onde a energia é utilizada. Uma albufeira pode transformar uma paisagem num enorme lago cheio de vida, com múltiplas utilidades para as populações. Uma mina de lítio pode deixar uma ferida aberta no território.

Quem acende a luz numa cidade raramente pensa na água retida numa barragem, nas impressionantes torres de alta tensão que fazem chegar a energia elétrica ao país inteiro ou na paisagem de onde se extrai o lítio. A energia chega ao destino, mas há territórios que permanecem longe do nosso olhar. Há sítios que não pedem muito. Basta que os deixem em paz.