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ArqueoScallabis: “A Arqueologia é muito bonita enquanto não nos incomoda”

Um jantar de amigos impulsionou Nuno Santos a criar, em 2017 a ArqueoScallabis, uma empresa que tem no seu portfolio serviços de acompanhamento, sondagens e escavação arqueológicas, bem como trabalhos como a elaboração de Cartas Arqueológicas Municipais, no âmbito da revisão dos Planos Diretores Municipais, e Estudos de Impacte Ambiental para entidades públicas e privadas. Nuno Santos falou à IN sobre o desenvolvimento

Num mercado tão restrito que medidas tomaram para abordar o mercado e alcançar um crescimento sólido?

Apesar de existir a ideia de uma Arqueologia muito associada ao meio académico, a verdade é que a maioria dos trabalhos arqueológicos se desenvolve em meio empresarial, vinculadas ao sector da Construção Civil e Obras Públicas. Assim, sendo uma empresa nova no mercado, tivemos que nos apresentar às empresas ligadas ao ramo da construção civil e outras. Os contactos para trabalhos começaram a surgir e já temos alguns clientes que trabalham connosco em exclusivo. Para além da Arqueologia, todos nós passámos por outros ramos em que se valoriza muito uma relação de qualidade e proximidade para com o cliente. Pensamos que isso possa ter feito a diferença em manter esses clientes e estabelecer uma relação de confiança com os mesmos. Mais do que “empecilhos”, que é a ideia predominante na maioria da Sociedade Portuguesa, pretendemos ser parceiros dos nossos clientes e do Estado, ao tratar de uma questão que se considera ser um problema, mas que, para nós, é o nosso dia-a-dia.

Quais os principais projetos desenvolvidos até hoje e qual a principal ‘descoberta’ da ArqueoScallabis?

Todos se afiguram como importantes, porque, à partida, nunca sabemos o que vamos encontrar. Muitas das vezes os resultados científicos não se repercutem na grandeza do trabalho. Já tivemos obras públicas de grande dimensão, em que não se identificaram quaisquer vestígios arqueológicos e projetos de reabilitação urbana privados, de várias dimensões, onde encontrámos verdadeiras “cápsulas do tempo”, nas paredes ou no subsolo. Para enunciar outros casos de sucesso, podemos referir uma casa torre Medieval em Santarém, uma Villa Romana em Coruche ou uma necrópole em Tomar, onde se teoriza que os indivíduos exumados tenham sido vítimas de uma epidemia de cólera no Séc. XIX.

Portugal é um país apetrechado de história. Muita dela ainda se encontra debaixo de terra. Sente que o trabalho arqueológico ainda não é devidamente valorizado?

Infelizmente, essa é mesmo a nossa realidade: o trabalho arqueológico não é, de todo, valorizado. Na maior parte dos casos, quando falamos com as pessoas, o discurso é sempre o mesmo: “Arqueólogo?! Mas que giro! Sempre quis ser Arqueólogo/a! Eu amo o Património!”. Todavia, o discurso muda quando a obrigatoriedade de contratação deste tipo de serviços surge. Aí entra o discurso do “Tapa tudo antes que o arqueólogo chegue ou eu meto o balde da máquina e não sobra nada”. Ou seja, a Arqueologia é muito bonita enquanto não nos incomoda. A prova disso são as recentes notícias infelizes sobre casos de destruição patrimonial, amplamente divulgados na Comunicação Social. Na grande maioria das vezes, quando precisam de Arqueólogos, automaticamente somos rotulados como “empata obras”. Neste momento, essa imagem está longe de corresponder à realidade. Todos os Arqueólogos têm, ou deveriam ter, plena consciência de que estão integrados em projetos multidisciplinares, onde há prazos a cumprir para todas as valências envolvidas. Como atividade científica, o trabalho exige rigor e método, com a agravante de não se poder repetir o processo de escavação, a experiência, ao contrário de outras ciências.

Mesmo junto da Sociedade Civil o nosso trabalho é pouco reconhecido, ainda que simpatizem muito com a profissão, uma vez que é demasiadamente hermético. Falta abertura de discurso, um discurso mais orientado para o público leigo e mais destaque nos Media, para conseguir consciencializar a Sociedade a preocupar-se com o Património, fazendo ver que este é a sua história. É importante informar a Sociedade Portuguesa quando há destruição de Património e as consequências dessa destruição para a Memória Coletiva. Mas também é importante possuirmos um ordenamento jurídico bem definido e com penas pesadas para os infratores (privados ou públicos), assim como comunicar a descoberta de novas realidades arqueológicas e a sua importância, mesmo que seja apenas na Imprensa local ou regional, mas idealmente na nacional.

ArqueoScallabis


http://www.arqueoscallabis.pt/