Educação

Uma escola que é também família

No Alto Alentejo, na secular Coudelaria do Alter, a Escola Profissional de Desenvolvimento Rural de Alter do Chão (EPDRAC) prova que é possível fazer diferente com sucesso. Aqui aposta-se na formação integral do aluno que, à saída, tem praticamente garantida a entrada no mercado laboral. A IN Corporate falou com a diretora Vera Tita que acompanha a escola há mais de 20 anos e para quem a instituição é uma casa.

Como a maioria das escolas profissionais, a EPDRAC fez 30 anos em 2021. Vera Tita fez-se aqui professora e está à frente da Escola desde maio de 2020. “Entrei há cerca de 20 anos e sinto esta escola como minha casa”, conta. Quando surgiu a oportunidade de se candidatar a diretora não hesitou, e hoje está à frente de uma equipa cujo projeto educativo foi pensado para ser “algo diferente e inovador”, mas sem tocar na identidade que vem definindo a escola desde a sua existência. Partiu do lema “Saber Ser, Estar e Fazer” para “Juntos fazemos acontecer” porque, justifica, “quando sabemos estar e sabemos ser e aceitamos o outro como ele é, damo-nos por inteiro e as coisas acontecem”. Há uma grande abertura às ideias dos funcionários, pais, alunos, professores e técnicos especializados, sejam da casa ou venham de outras escolas. Cita a propósito o provérbio japonês que inicia um dos livros do Cardeal Tolentino de Mendonça, de quem é admiradora: “Ao lado de um amigo nenhum caminho será longo”.

É que mais do que uma escola, a EPDRAC é uma família onde a própria diretora assume muitas vezes o papel de “mãe dos alunos”, diz, com genuína preocupação. Algo que se entende numa escola cuja maioria dos cerca de 150 alunos que recebe anualmente vem de fora para a pacata Vila de Alter do Chão e são ainda muito jovens. “Tenho mais do que um mero aluno. Eu tenho um aluno, uma pessoa, um ser que precisa de mim e que está em constante formação e alguém a quem tenho de desculpar e dar novas e constante oportunidades, como se faz com os filhos”, diz.

Há o sucesso escolar e o educativo e este, que é o mais valorizado na pedagogia seguida pela Escola, depende da relação criada com os alunos. “Além de formarmos bons profissionais, apostamos na formação pessoal também, na formação integral do indivíduo. Eles chegam meninos e saem não homens, mas senhores. E quando são senhores lá fora têm essa aceitação porque não só são bons profissionalmente, sabem fazer, têm qualidade, têm garra, têm uma fibra diferente e são também boas pessoas”, justifica.

Assim se explica em parte a empregabilidade de quase 100% dos alunos da EPDRAC. O espaço “privilegiadíssimo” que é a secular Coudelaria de Alter, onde está sediada a escola, faz com que tenha condições que outras não têm. Aqui cada aluno pode ter “contacto direto com um cavalo quase em estado selvagem, a quem ele vai ensinar as primeiras regras para o cavalo poder vir a ser montado”. É desnecessário dizer a mais-valia que esta oportunidade representa para um aluno que chega, por exemplo, para tirar o curso de Técnico de Gestão Equina. Ao nível das instalações há picadeiros, campos de cross, ou campos de sílica que são usados em função do que foi acordado com a Coudelaria. E depois algo que salta imediatamente à vista que “é o movimento, há cavalos a passar por nós e esta envolvência torna-nos realmente diferentes”, salienta a diretora.

Para garantir a formação prática na área da agricultura, são celebrados protocolos e acordos com o exterior. Os alunos contactam mais com a realidade alentejana, o que também acaba por beneficiar a região, mas dada a qualidade técnica que demonstram à saída dos cursos é frequente conseguirem emprego noutros pontos do país.

Projetos
As áreas de especialização da EPDRAC são a agricultura, o turismo e a equitação. A oferta formativa inclui os cursos CEF (equivalência ao 9º ano) de Operador Agrícola e Tratador e Desbastador de Equinos e os Cursos Profissionais (equiparados ao 12º ano) de Acompanhante de Turismo Equestre; Técnico de Gestão Equina; Técnico de Produção Agropecuária; e Técnico de Turismo Ambiental e Rural. Este curso é mais recente e surgiu na sequência da abertura do empreendimento Vila Galé Collection Alter Real, paredes-meias com a Escola, que levou ao estabelecimento de parcerias

A consciência de que a escola e o mundo “estão a mudar” e que por isso a própria EPDRAC tem de se modificar “sem mudar o paradigma daquilo que é”, obriga a pensar em projetos novos. Estes dependem sobretudo da requalificação de três pavilhões, o que se espera que aconteça a curto prazo. Um dos projetos é a Escola tornar-se num centro de testagem de raças autóctones e exóticas de ovinos. Esta é uma área onde a EPDRAC tem trabalhado no âmbito de Ovinos Merino Alemão com parceiros como a Associação Portuguesa dos Criadores de Ovinos Merino Alemão – Fleischschaf (APCOMA) e a empresa distribuidora de carne Pasto Alentejano.

A Escola pretende ainda apostar na inseminação até porque dispõe de instalações e competências na área. “Não queremos produzir, não tenho capacidade para o fazer, mas posso ser um parceiro das associações de criadores e produtores e melhorar a raça e entrar em outro tipo de projetos”, explica a diretora. Outro projeto em que a Escola está envolvida é na certificação da raça do peru preto português cuja associação foi criada em Alter do Chão.

Ensino profissional, um “diamante mal polido”
Na comparação entre o ensino profissional e o regular, Vera Tita defende que este seria “muito mais bem-sucedido” se fosse beber ao primeiro. Não só pela relação e pelo ambiente de pertença que se constroem nestas escolas, mas também pela quantificação de metas, já que o número de horas de formação tem de ser obrigatoriamente cumprido para que o percurso formativo do aluno fique completo.

“Pérola” ou “diamante mal polido” são analogias a que a diretora recorre para descrever o ensino profissional. “Está polido porque as pessoas que estão no ensino profissional agrícola gostam mesmo disto. Assusta-me o futuro porque não sei o que virá. Trabalhamos mais horas do que aquelas que nos pedem e tudo corre bem e os projetos são bem-sucedidos, a formação que ministramos é realmente sólida e um garante de trabalho no futuro, mas damos muitas horas nossas”. No contexto do ensino profissional agrícola, salienta, é possível que tudo se faça sentir um pouco mais “porque os animais e o campo são terapêuticos e mexem um bocadinho connosco, transformam-nos. Para melhor, sempre.”

Embora o ensino profissional continue a ser o “parente pobre” do ensino e se mantenha o estigma de que quem opta por esta via é intelectualmente menos capaz, não faltam exemplos para contrariar esta ideia. Que o diga o cavaleiro Rodrigo Torres que competiu nos Jogos Olímpicos de Tóquio, um antigo aluno do curso de Agropecuária da EPDRAC. Ou, pondo de parte o fator mediático, os muitos alunos saídos da Escola que estão a fazer carreira no mundo equestre e agrícola, em Portugal e além-fronteiras.

Poucos dias antes da entrevista, a diretora tinha recebido a visita de dois antigos alunos, um engenheiro agrónomo e uma estudante do 4º ano de medicina veterinária. “Vieram ver [a escola] porque é a casa deles, não conseguem vir a Alter sem vir aqui”, diz com orgulho a professora. Quando a escola foi também casa e, por isso, chão sólido para a emancipação na vida adulta, só é natural que se queira voltar a ela.

Sobre este autor

João Malainho II

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