O que é a liberdade? Não a dos discursos comemorativos, que todos celebram sem grande custo, mas a liberdade real, a que obriga a escolhas, a que não permite desculpas fáceis. A liberdade implica sempre o outro. Implica respeito pela verdade mesmo quando não nos favorece, pela diferença, pelo espaço alheio. É a capacidade de agir dentro de constrangimentos com consciência e responsabilidade e assumir o que daí resulta. Quem a confunde com impunidade não percebeu nenhuma das duas coisas.
O que me fascina, e inquieta ao mesmo tempo, é perceber que há quem genuinamente prefira não a ter para não lidar com o que ela exige. Porque a liberdade retira pretextos. Sem censura, sem silêncio imposto, sem hierarquia que decida por nós, ficamos a sós com as nossas escolhas. A injustiça deixa de poder ser atribuída apenas a alguns. Torna-se partilhada, difusa, mais difícil de nomear e, por isso, mais difícil de combater. Há um conforto antigo na dependência que muitos não abandonam.
Nos ambientes corporativos e profissionais, essa tensão torna-se visível de formas que toda a gente reconhece. A reunião em que todos concordam publicamente, até porque ninguém quer ser o primeiro a discordar. Depois, em surdina, diz-se tudo aquilo que ali não se partilhou. A subserviência que existia por imposição reinventou-se por conveniência. Já não há censores externos que a expliquem, mas há uma escolha silenciosa de não pensar nem questionar, de não assumir posição. Há contextos onde isto não acontece. Onde o que se diz ali não precisa de correção depois. São menos visíveis, mas existem. Também são esses que, por vezes, se deixam ver nestas páginas. Até porque quem intervém, quem questiona abertamente, não é necessariamente o mais inconveniente. É, muitas vezes, o único que está a tratar os outros como adultos. Há uma confusão antiga entre frontalidade e má educação. A coerência, essa, não admite versões.
Dizer ao outro, à sua frente, aquilo que se pensa, sem esconder, sem ofender, sem humilhar, faz parte dessa educação.
Camus, em O Mito de Sísifo, escreve que “é preciso imaginar Sísifo feliz”. A imagem aponta para a consciência, saber o que se faz mesmo quando não há redenção nem sentido exterior que o pareça justificar. Poucos sustentam essa lucidez até ao fim. A maioria acomoda-se ao que não escolheu e chama-lhe pragmatismo.
No ano passado, neste mesmo espaço, citei Clarice Lispector e a sua fome de uma liberdade que ainda não tem nome. Regresso a ela porque essa fome pertence a quem não consegue viver sem ela, o que não é toda a gente, nem precisa de ser. A liberdade interior, a capacidade de pensar, de discordar, de assumir as consequências do que se diz, quando existe, deixa de ser uma escolha. Passa a ser uma condição.




