Gosto de começar as coisas pelo início. Interessa-me perceber a importância das origens, dos contextos e dos pequenos detalhes que nos empurram, quase sem darmos conta, para o lugar onde acabamos por estar. E no trajeto de quase todos nós, muito desse princípio começa na escola.
Curiosamente, no meu caso particular, quando chegou a altura de a escola entrar na minha vida, já eu tinha entrado nela. Consequência natural de ser “o filho da professora”, nesses agora longínquos princípios dos anos 80. Sempre que escrevo sobre educação, o meu primeiro pensamento recai na homenagem aos professores, àqueles que têm verdadeira vocação de ensinar e prazer de abrir horizontes a todos. E maio parece-me sempre o mês mais certeiro para o fazer. Não só por começar com a celebração do Dia do Trabalhador, mas porque esse dia coincide com o aniversário dessa professora que vou homenageando em todos os bocadinhos de texto que escrevo sobre este tema.
Talvez por isso haja pessoas a quem nunca conseguimos chamar pelo nome próprio. Será sempre o nosso professor, a nossa professora, independentemente do tempo, da idade ou do contexto em que os conhecemos, da escola primária à universidade. No tom com que o dizemos, há sempre um sorriso que mistura gratidão e reconhecimento, de parte a parte.
As referências são muitas, quase tantas como as memórias que um espaço ao mesmo tempo mítico e protocolar, como é a escola, nos inspira. Tanta coisa foi mudando, desde o passado austero e autoritário da escola de meados do século XX que nos é magistralmente apresentada no filme Os Quatrocentos Golpes (1959) de François Truffaut. Como já referi em tempos, noutro texto, esta é uma obra recheada de aspetos autobiográficos do realizador francês. O próprio admitiu ter faltado “às aulas frequentemente para ver filmes no cinema”. E aquela cena final, de Antoine Doinel (personagem principal, de 12 anos) na praia, é um momento sublime e uma das mais bonitas da Nouvelle Vague. Um movimento, um olhar repentino, e um frame eterno.
A escola mudou muito desde esses tempos. Mudaram os métodos, a linguagem, a relação entre professores e alunos, a própria ideia de autoridade. A escola de hoje continua a ensinar coisas essenciais, mas ensina-as num mundo que já quase não sabe escutar. E poucas coisas dizem tanto acerca de um país, de uma geração ou até de uma ideia de liberdade como a forma como ensinamos os mais novos a olhar para o mundo. Se a semente for bem plantada, a questão não é se entramos cedo demais, ou se o caminho só é encontrado mais tarde. É mesmo a forma como não sai de nós a vontade (ou necessidade?) constante de aprender.




