Maria Amélia Chaves entrou no Instituto Superior Técnico em 1931, com 20 anos, depois de regressar da Índia, onde acompanhara o pai. Deu aulas num colégio para pagar os estudos, escolheu Engenharia Civil quando seria mais previsível seguir outro caminho e licenciou-se em 1937. No ano seguinte, tornou-se a primeira mulher inscrita na Ordem dos Engenheiros.
Na biografia pública de Maria Amélia Chaves há uma palavra que aparece quase sempre: primeira. Primeira mulher a licenciar-se em Engenharia Civil pelo Instituto Superior Técnico. Primeira mulher inscrita na Ordem dos Engenheiros. Primeira engenheira da Câmara Municipal de Lisboa.
Maria Amélia Chaves nasceu em 1911, o mesmo ano da fundação do Técnico. Passou parte da juventude na Índia, acompanhando o pai, então Comandante Militar do Estado Português da Índia, e regressou a Portugal com vontade de estudar. Aos 20 anos, em 1931, entrou no Técnico. Os primeiros anos eram gerais, comuns às várias engenharias. Havia quem esperasse que seguisse Engenharia Química. Escolheu Civil. A Engenharia Civil era obra, terreno, cálculo, estruturas, mas era também um espaço social e profissional quase totalmente masculino. Maria Amélia Chaves entrou nesse mundo pela via da competência demonstrada.
Formou-se em 1937 e inscreveu-se na Ordem dos Engenheiros em 1938. Depois de estagiar com o engenheiro Arantes e Oliveira, entrou para os quadros da Câmara Municipal de Lisboa, onde iniciou atividade na fiscalização de obras. O seu percurso não se esgotou no valor simbólico de ter sido a primeira. A Ordem dos Engenheiros recorda-a também como a primeira pessoa a desenvolver cálculos antissísmicos aplicados à construção civil em Portugal, área em que apresentou duas comunicações no 1.º Simpósio Antissísmico, em 1955. A sua engenharia estava ligada à segurança, à prevenção, ao risco, ao lado menos visível da construção.
A frase que repetiu em entrevistas continua a dizer muito sobre o tempo em que viveu: “Quando lutamos e sabemos o que fazemos, somos aceites.” Em 2011, no centenário do Instituto Superior Técnico, foi homenageada pela escola onde entrara 80 anos antes. Tinha também ela cem anos. Morreu em 2017, aos 106 anos. Realizou a última obra já perto dos 90, no prédio onde vivia. Talvez esse detalhe diga mais do que muitas palavras solenes. A engenharia, para Maria Amélia Chaves, foi ofício até ao fim.




