A vida de Rute Ferreira mudou quando percebeu que a atividade profissional que sustentava a família tinha deixado de ser viável. Em vez de recuar, decidiu recomeçar. Mais de duas décadas depois, é uma referência no setor imobiliário e lidera uma empresa em nome próprio, onde aposta numa abordagem assente na proximidade e na confiança.
Quando fala do seu percurso, Rute Ferreira não o descreve como uma sucessão de conquistas, mas antes como uma coleção de desafios que foi superando. A entrada no imobiliário surgiu num momento particularmente delicado da sua vida, depois de a atividade a que se dedicava ter sido afetada pela crise provocada pela gripe das aves. “Os meus filhos estavam a estudar e eu percebi que já não era viável sustentar a família daquela forma”. Foi então que decidiu procurar uma alternativa. Após se ter cruzado com um anúncio à procura de consultores imobiliários, candidatou-se e acabou por iniciar uma carreira que mudaria definitivamente o seu percurso profissional.
Durante quatro anos e meio trabalhou numa empresa onde aprendeu os fundamentos da atividade. Mais tarde, foi convidada a participar na criação de uma nova mediadora imobiliária. O desafio surgiu em plena crise económica e exigiu-lhe uma enorme capacidade de adaptação. “Eu não sabia rigorosamente nada do que envolvia abrir uma empresa de mediação”. Ainda assim, avançou.
Os anos seguintes trouxeram algumas das maiores provas da sua resiliência. Em 2012, “um dos períodos mais difíceis para o setor”, vendeu apenas uma casa. Sobreviveu graças aos arrendamentos, à rede de contactos e a uma determinação que sempre a caracterizou. “Muita gente dizia que era o apocalipse. Para mim foi mesmo um ano transformador”. A empresa acabou por resistir quando muitas outras encerraram portas. Mais tarde, Rute Ferreira e um dos colegas decidiram adquirir o negócio e continuar o projeto. Foi o início de uma nova fase de crescimento.
Uma empresa construída à sua imagem
Depois de quase uma década nessa estrutura, sentiu que tinha chegado o momento de seguir um caminho próprio. Em 2019 tomou uma decisão que muitos consideraram arriscada: sair da empresa que ajudara a construir para criar uma marca com o seu próprio nome. “Aos 52 anos decidi abrir uma empresa com o meu nome. Tinha mais de vinte anos de carreira e as pessoas já conheciam o meu trabalho”.
A nova empresa nasceu oficialmente em janeiro de 2020. Horas depois, o mundo começava a ouvir falar de uma nova ameaça: a pandemia de Covid-19. Para muitos seria um motivo para adiar planos. Para a própria foi apenas mais um obstáculo a ultrapassar. “Eu gosto de tempestades porque é nelas que as coisas acontecem”, diz, entre risos.

A filosofia que procura implementar dentro da empresa assenta numa ideia simples: cooperação. Num setor frequentemente associado a uma competição mais agressiva, acredita que o sucesso pode ser construído de outra forma. “A minha tentativa foi sempre que não fosse um lugar onde as pessoas lutavam entre si pelo dinheiro”. Essa visão reflete-se também na estabilidade da equipa. Vários colaboradores acompanham-na há anos, algo que vê como uma das suas maiores conquistas. “A forma como interagimos uns com os outros faz uma grande diferença, não só nos resultados, mas também na qualidade de vida das pessoas”. Mais do que vender imóveis, procura criar um ambiente onde a responsabilidade, a entreajuda e o respeito sejam valores permanentes.
O futuro do imobiliário passa pelas pessoas
Ao longo de mais de vinte anos de atividade, Rute Ferreira assistiu a profundas transformações no mercado. Viu crises financeiras, alterações legislativas, mudanças nos perfis dos compradores e uma crescente digitalização dos processos. Ainda assim, pressupõe que o fator humano continuará a ser determinante. “O mercado está sempre a flutuar. A capacidade de adaptação e de perceber como podemos ajudar as pessoas é verdadeiramente a chave”.
Na sua opinião, a profissão exige hoje competências muito mais amplas do que no passado, pois crê que um profissional imobiliário deve dominar legislação, comunicação, negociação, línguas estrangeiras e inteligência emocional. “Para trabalhar no mercado imobiliário temos de ser extremamente bem preparados”.
Acredita também que o setor está prestes a entrar numa nova fase de transformação, impulsionada pela industrialização da construção e pela crescente influência da inteligência artificial. No entanto, considera que haverá sempre espaço para profissionais capazes de compreender as necessidades das pessoas. “As casas não são apenas paredes. Há toda uma dimensão emocional que é preciso entender”.
Essa atenção ao lado humano do negócio é, aliás, uma das ideias que mais repete ao longo da conversa, refletindo a importância que lhe atribui no dia a dia. Para a proprietária da “Rute Ferreira – Mediação Imobiliária”, comprar ou vender uma casa continua a ser uma das decisões mais marcantes na vida de qualquer pessoa e merece ser acompanhada com responsabilidade.
A dimensão familiar tem também um peso importante na sua história. Fala com emoção do orgulho que recebeu dos pais ao longo da carreira e do carinho das netas, que acompanham com entusiasmo o seu trabalho. “O meu pai dizia que eu vendia mais casas do que toda uma ‘grande’ empresa”, recorda, sorrindo. “Não era verdade, claro, mas ele tinha um orgulho imenso no meu percurso”.




