A ligação de Teresa Ponce de Leão à Ciência e à Engenharia nasce da vontade de melhorar a vida das pessoas. Para concretizar esse objetivo, assumiu, em 2009, a presidência do Laboratório Nacional de Energia e Geologia (LNEG). Nesta breve conversa com a responsável, é possível conhecer melhor o projeto e os desafios de um caminho que se mantém orientado pela “oportunidade de contribuir para soluções que tenham impacto real na sociedade”.
É natural do Porto e construiu um percurso de referência na Ciência e na Engenharia. Como nasceu esta paixão?
A curiosidade esteve sempre presente. Cresci com a vontade de compreender como as coisas funcionam e de perceber de que forma o conhecimento pode trazer benefícios à sociedade. A Engenharia surgiu, assim, naturalmente, como uma forma de transformar ideias e criar soluções concretas. Ao longo do meu percurso, fui descobrindo que a Ciência e a Engenharia são instrumentos poderosos para responder a desafios sociais, económicos e ambientais. Essa consciência foi reforçando a minha motivação e o meu compromisso com esta área.
Assume a presidência do Laboratório Nacional de Energia e Geologia (LNEG) em 2009. Este desafio transformou a sua forma de liderar ou até a sua própria vida?
Sem dúvida, foi um prazer ter construído o LNEG. Liderar uma instituição científica com a dimensão e a responsabilidade do LNEG exige uma visão muito mais abrangente do que a própria investigação. Aprendi que liderar consiste, sobretudo, em criar condições para que as pessoas possam dar o melhor de si, promover a cooperação entre diferentes áreas do conhecimento e construir pontes entre a ciência, as empresas e as políticas públicas. Foi uma experiência extremamente exigente, mas também profundamente enriquecedora, tanto a nível profissional como pessoal.

Depois de tantos anos de experiência, o que continua a despertar a sua curiosidade e a fazê-la aceitar novas oportunidades?
A possibilidade de aprender mais e melhor, para depois partilhar esse conhecimento com as equipas, é muito motivadora para mim. A transição energética, a transformação digital, os desafios dos recursos naturais e as alterações climáticas colocam-nos perante questões novas todos os dias. Continuo motivada pela oportunidade de contribuir para soluções que tenham impacto real na sociedade. Enquanto houver problemas relevantes por resolver, haverá razões para continuar a aprender e a inovar.
Que evoluções mais significativas testemunhou e ajudou a concretizar neste setor ao longo da sua carreira?
Assistimos a uma enorme transformação. Quando iniciei a minha atividade, as energias renováveis eram frequentemente vistas como alternativas de nicho, sendo mesmo alvo de descrédito. Hoje são um pilar central das estratégias energéticas e industriais. Em Portugal, assistimos a um crescimento notável da capacidade instalada de energias renováveis, a eficiência energética e a valorização dos recursos geológicos nacionais.
Mas talvez a maior mudança tenha sido a perceção de que a energia, a geologia e a inovação são, atualmente, fatores de competitividade. A disponibilidade de energia limpa, segura e a preços competitivos, o acesso sustentável a matérias-primas críticas e a capacidade de transformar conhecimento em inovação são hoje determinantes para atrair investimento, criar emprego qualificado e fortalecer a economia nacional. O LNEG tem procurado estar no centro desta transformação, apoiando o Governo, as empresas e os territórios com conhecimento científico independente e orientado para a ação.

Vivemos numa era em que a tecnologia muda muito rapidamente. Quais são os principais desafios à aceleração da descarbonização da economia em Portugal?
O principal desafio já não é tecnológico. As soluções existem. O desafio está na velocidade da implementação, na simplificação dos processos, na mobilização do investimento e na qualificação das pessoas. Precisamos também de garantir que a descarbonização reforça simultaneamente a competitividade económica, a segurança energética e a coesão social. A transição energética só será bem-sucedida se for também uma oportunidade de desenvolvimento económico.
“Construir um futuro mais limpo e melhor” é o objetivo do LNEG. Que projetos está a desenvolver para continuar a impulsionar a Energia e a Geologia?
O LNEG está envolvido em iniciativas estratégicas nas áreas do hidrogénio renovável, biometano, armazenamento de energia, minerais críticos, economia circular e valorização sustentável dos recursos geológicos nacionais.
Para além da investigação, temos uma missão muito concreta de apoio à competitividade do país. Desenvolvemos conhecimento, infraestruturas e plataformas de informação que ajudam empresas a inovar, investidores a tomar decisões e decisores públicos a desenhar políticas mais eficazes. Os portais nacionais do hidrogénio, do biometano ou dos recursos geológicos são exemplos de como a ciência pode ser colocada ao serviço do desenvolvimento económico.
O nosso objetivo é que o LNEG funcione cada vez mais como uma ponte entre o conhecimento, a indústria e as políticas públicas, acelerando a criação de valor em Portugal.

O hidrogénio, o lítio e o biometano representam áreas com grande potencial. Como pode Portugal transformar essa vantagem em desenvolvimento económico e sustentável?
O primeiro passo é compreender que os recursos, por si só, não geram riqueza. O verdadeiro valor reside na capacidade de desenvolver cadeias de valor completas, desde o conhecimento científico até à indústria e à inovação.
Portugal tem condições excecionais nestas áreas, mas o objetivo não pode limitar-se à produção de matérias-primas ou energia. É necessário criar conhecimento, desenvolver tecnologia, atrair indústria transformadora e formar pessoas altamente qualificadas. É assim que se gera valor acrescentado, exportações e emprego qualificado.
O papel do LNEG é precisamente apoiar esta transformação, fornecendo informação científica credível, reduzindo o risco para os investidores e ajudando a construir políticas públicas que reforcem a autonomia estratégica e a competitividade da economia portuguesa.
Considera que a Inteligência Artificial (IA) será uma das tendências tecnológicas com maior impacto nos próximos anos?
Sem dúvida. A Inteligência Artificial terá um impacto comparável ao da eletrificação ou da digitalização em fases anteriores da economia.
No setor da energia e da geologia, permitirá melhorar a previsão da produção renovável, acelerar a descoberta de recursos minerais, apoiar a gestão sustentável do território e aumentar a eficiência dos processos industriais. Isto significa menor custo, maior produtividade e maior competitividade.
Os países que conseguirem combinar inteligência artificial, conhecimento científico e capacidade industrial estarão melhor posicionados para liderar a próxima vaga de crescimento económico. É por isso que o investimento em ciência, tecnologia e inovação deve ser visto não como um custo, mas como um investimento estratégico no futuro do país.

É uma das mulheres mais reconhecidas neste setor no nosso país. O sucesso trouxe-lhe mais responsabilidade ou mais liberdade para concretizar ideias?
Diria que trouxe sobretudo mais responsabilidade. Quando ocupamos cargos de liderança, temos a obrigação de criar oportunidades para os outros e de contribuir para o desenvolvimento das instituições e do país. Naturalmente, a experiência também dá maior liberdade para defender ideias e promover mudanças, mas essa liberdade deve ser sempre acompanhada de sentido de responsabilidade e de compromisso com o interesse público.
Costuma dizer que os seus maiores desafios passam por mudar mentalidades e não pelo facto de ser mulher. Acredita que as novas gerações já encontram um caminho mais aberto na Ciência e na Engenharia?
Acredito que o caminho está hoje mais aberto, mas ainda não está concluído. As novas gerações encontram mais oportunidades e modelos de referência do que existiam há algumas décadas. No entanto, continuam a existir desafios relacionados com estereótipos, visibilidade e acesso a posições de decisão. O mais importante é garantir que cada jovem possa desenvolver o seu potencial sem limitações impostas pelo género. A ciência e a engenharia precisam do talento de todas as pessoas.





