As generalizações são quase sempre injustas, diluem a individualidade e criam uma narrativa fácil em assuntos cuja complexidade obriga a que se estruture o pensamento por camadas. É uma das razões pelas quais nunca gostei da repetição exaustiva e descontextualizada da ideia de que o melhor do mundo são as crianças. Porque quem a utiliza por tudo e por nada raramente está a aceitar a dimensão maior de ser criança, a de ter uma liberdade que inclui o erro, o excesso, o tempo desperdiçado sem culpa.
Ficar pela literalidade da frase é esquecer que há crianças que sofrem às mãos de outras crianças, que a crueldade infantil pode ser perversa, e que os comportamentos em manada se aprendem cedo. Mas também não devemos ser cínicos ao ponto de esquecer as crianças que nos desarmam com uma bondade sem cálculo, com perguntas que desmontam a seriedade artificial dos “grandes”, com uma capacidade quase instintiva de ver aquilo que os adultos já treinaram para disfarçar. A infância é um território inteiro e absolutamente decisivo, com imaginação, medo, ternura, violência e espanto.
E não há nada mais decisivo nessa infância do que o amor incondicional recebido. Ou a falta dele. Só depois vem tudo o resto. Essa memória de liberdade, os grandes amigos com pouco mais em comum connosco do que a rua, a bola, os Legos e os brinquedos espalhados no chão, o Spectrum e a Nintendo, a ternura e a paciência imensa dos animais. E as viagens intermináveis de carro no banco de trás, sem cinto, ou as muitas quedas de bicicleta, sem capacete.
Importa separar a infância da infantilidade. Ser criança é poder falhar sem que tudo se transforme numa sentença sobre o caráter e o futuro. É poder exagerar, testar limites, querer tudo à mesma hora, cair e levantar, insistir, mudar de ideia três vezes no mesmo minuto. É também aí que se vê, muitas vezes cedo demais, o funcionamento real do mundo. As hierarquias, as injustiças, os ridículos sociais, a crueldade miúda, a hipocrisia, a fome de reconhecimento. Uma criança pode não ter linguagem para tudo isso, mas vê. E o que vê fica.
A infantilidade, essa, pode sobreviver muito para lá da idade em que devia ter esmorecido. Vê-se em adultos que nunca aprenderam a perder, a ceder, a ouvir, a colocar-se no lugar do outro. Vê-se em quem exige aos outros, tantas vezes às próprias crianças, que carreguem aquilo que não soube resolver dentro de si.
Uma infância feliz não desaparece quando crescemos. Fica na forma como ainda reconhecemos a alegria “inútil”, a liberdade de um gesto sem consequência, a graça de uma pergunta absurda. O que me comove, numa criança como num adulto, nunca foi a idade em si. É a fragilidade, tantas vezes mais visível nos extremos da vida. E é sobretudo o afeto sincero, a bondade, a inteligência honesta.




