À frente do Centro de Formação Profissional para a Indústria Cerâmica (CENCAL) desde maio, Ana Elisa Santos quer reforçar o papel da instituição na qualificação do setor e aproximá-la ainda mais das empresas, dos territórios e das novas gerações. Depois de vários anos no IEFP, assume a direção com a ambição de preparar a cerâmica e o vidro para os desafios do futuro.
Depois de vários anos ligada ao IEFP, é agora a diretora do CENCAL. O que representa esta nova etapa na sua carreira?
O meu percurso profissional foi sempre dedicado ao serviço público e à valorização das pessoas através da qualificação e formação profissional. Ao longo de mais de duas décadas desempenhei funções de direção na Administração Pública, em diferentes áreas da formação profissional, da gestão de pessoas, da modernização organizacional e da implementação de políticas públicas de emprego e formação profissional. Tive ainda a honra de exercer as funções de Vogal do Conselho Diretivo do IEFP, I.P., com o pelouro da Formação Profissional, assumindo igualmente, com enorme orgulho, a responsabilidade de Delegada Oficial da WorldSkills Portugal, uma experiência particularmente marcante pela promoção da excelência, do talento e da valorização das competências dos jovens portugueses, a nível nacional, europeu e mundial.
Sempre acreditei que liderar é, acima de tudo, criar oportunidades para que as pessoas e as organizações cresçam e se desenvolvam, mantendo sempre o foco na sua missão. Essa convicção acompanhou todo o meu percurso e orienta-me nesta nova etapa. Assumo esta missão com respeito por uma instituição com mais de quatro décadas de história, mas também com vontade de ajudar a escrever um novo capítulo: preservar a identidade do CENCAL e reforçar a sua capacidade de inovar, antecipar necessidades e preparar o futuro.

Orientar uma nova direção é dar continuidade a uma história já construída, mas também abrir caminho a oportunidades e desafios. Que objetivos pretende concretizar?
Quero consolidar o CENCAL como referência nacional e internacional na qualificação para a cerâmica e o vidro, próximo das empresas, das pessoas e dos territórios. A transformação digital, a sustentabilidade, a inteligência artificial e a Indústria 4.0 exigem novas competências e uma formação capaz de acompanhar e antecipar a mudança.
Pretendo reforçar a presença territorial do CENCAL, avaliando a criação de novos polos nas regiões Centro e Norte, sempre que essa proximidade se justifique para responder melhor às empresas e aos trabalhadores desses territórios. Quero afirmar o CENCAL como uma instituição reconhecida não apenas pela excelência da formação, mas também pela capacidade de antecipar o futuro da indústria e aproximar empresas, escolas, centros tecnológicos e universidades na adequação permanente das competências profissionais que o setor exige e continuará a exigir no futuro.
Não podemos falar dos seus objetivos sem percebermos como será a sua liderança. Como tenciona inspirar e envolver a equipa que estará ao seu lado?
Acredito numa liderança baseada na proximidade, na escuta, na confiança e na responsabilidade partilhada. A liderança não se afirma apenas pelo cargo, mas pela confiança que conseguimos inspirar e pelo exemplo. Quero que cada pessoa perceba o valor do seu contributo e se reconheça num projeto comum. As melhores soluções surgem quando há diálogo, diversidade de perspetivas e espaço para aprender. Liderar é criar condições para que as equipas cresçam, inovem e sintam orgulho no trabalho que realizam, ou seja, que cumpram a sua missão.
Defende que é fundamental compreender as necessidades dos setores da cerâmica e do vidro. Como é que a proximidade ao tecido empresarial ajuda o CENCAL a formar profissionais mais qualificados?
A formação profissional só cumpre plenamente a sua missão quando está ligada à realidade das empresas. Essa proximidade permite-nos conhecer os seus desafios, acompanhar os processos produtivos e ajustar a oferta às competências necessárias. O CENCAL deve ser mais do que um prestador de serviços de formação: deve afirmar-se como parceiro estratégico, capaz de apoiar a inovação e a competitividade. Esta ligação beneficia todos, especialmente os formandos, proporcionando-lhes competências relevantes, empregabilidade e capacidade de adaptação.

Estes setores nem sempre despertam o interesse das novas gerações. Como é possível valorizar estas profissões e atrair mais jovens? Que áreas de formação estão disponíveis?
O verdadeiro desafio não é convencer os jovens de que estas profissões têm futuro; é dar-lhes a conhecer o futuro que já existe na indústria da cerâmica e do vidro. Quando entram em empresas da área, descobrem ambientes tecnológicos onde convivem criatividade, design, engenharia, automação, inteligência artificial, sustentabilidade e inovação. A imagem tradicional está hoje muito distante desta realidade.
Temos de aproximar os jovens deste universo, mostrando-lhes que a formação profissional abre portas a carreiras qualificadas, estáveis e com perspetivas de evolução, em Portugal e no estrangeiro. É uma escolha de excelência para desenvolver competências especializadas e responder a um mercado de trabalho em constante transformação.
O CENCAL disponibiliza formação para jovens e adultos em cerâmica, vidro, design, tecnologias de produção, manutenção industrial, qualidade, sustentabilidade e digitalização. Mais do que formar profissionais, queremos inspirar vocações, aproximar escolas e empresas e ajudar cada jovem a construir um futuro de excelência.

O que tem mudado na relação das mulheres com a indústria cerâmica e o que acredita que ainda pode evoluir?
A presença das mulheres tem vindo a crescer nas áreas técnicas, científicas, criativas, de gestão e de liderança, demonstrando que o talento, a competência e o conhecimento não têm género. Apesar dos progressos, importa continuar a atrair mais mulheres para profissões técnicas e industriais, combater estereótipos, dar visibilidade a percursos de sucesso e assegurar igualdade de oportunidades no acesso a funções de maior responsabilidade.
Nunca senti necessidade de afirmar a minha liderança por ser mulher. Procurei sempre que o trabalho, as equipas que liderei e os resultados alcançados falassem por mim. Acredito que o futuro se constrói valorizando o mérito e criando organizações onde cada pessoa possa desenvolver plenamente o seu talento.

Depois de tudo o que já construiu, que sonhos ou conquistas gostaria ainda de alcançar nesta fase da sua vida?
Ao longo da vida percebemos que os cargos passam. O que permanece são as pessoas que ajudámos a crescer, as instituições que deixámos mais fortes e o impacto que conseguimos gerar na sociedade. Gostaria de deixar um CENCAL mais inovador, internacional, próximo das empresas, dos territórios e dos jovens; capaz de desenvolver talento e de apoiar e promover o empreendedorismo, a olhar sempre para o futuro.
Quando aceitei este desafio, não pensei apenas na responsabilidade de dirigir uma instituição com mais de quatro décadas de história, mas na oportunidade de ajudar a escrever o seu próximo capítulo, porque acredito profundamente que o futuro está por escrever e precisa de ser construído todos os dias através do conhecimento, da inovação e, sobretudo, com as pessoas.




