Antes de criar negócios, Mónica Soares construiu uma forma de estar. Filha de pais caboverdianos,
cresceu numa família onde a educação, o trabalho e a perseverança eram o maior legado. São esses valores que continuam a marcar o seu percurso e a dar forma a todos os projetos que lidera, da consultoria à moda, passando pela promoção da representatividade.
Ao longo de quase 35 anos de carreira, nunca separou o sucesso profissional do impacto que pode gerar nos outros. “Tudo o que faço e tudo o que vim a construir tem como base e inspiração aquilo que a minha mãe e o meu pai nos deixaram. Não existe riqueza geracional, existe uma riqueza que é criada fruto do trabalho”, afirma. A mais nova de cinco irmãos, todos licenciados, aprendeu desde cedo a observar o percurso dos outros antes de encontrar o seu próprio caminho. “Sempre procurei perceber o que fazia ou não sentido para mim”. Essa capacidade de aprender, adaptar-se e criar oportunidades acabaria por determinar toda a sua vida profissional.

Uma visão construída com trabalho
Depois de uma década numa multinacional do segmento de luxo, fundou, em 2011, a Soares & Daia, que nasceu da convicção de que existia espaço para aproximar empresas portuguesas dos mercados africanos de língua portuguesa, através de um trabalho assente na confiança e no conhecimento das realidades locais. Mais do que abrir portas a negócios, a consultora procura construir relações duradouras entre parceiros de ambos os lados. Para Mónica Soares, a proximidade cultural e o conhecimento do terreno continuam a ser fatores decisivos para qualquer processo de internacionalização.
É também neste universo que representa, em Portugal, a MCF Consultoria, boutique brasileira de gestão do luxo fundada por Carlos Ferreirinha, uma das principais referências do setor no Brasil, com quem trabalha há mais de uma década nos mercados de Angola, Moçambique e Portugal. Através desta parceria, participa em projetos de estratégia, capacitação e desenvolvimento organizacional, aplicando os princípios da gestão do luxo a empresas, marcas, serviços e profissionais.
A filosofia da MCF resume-se num princípio que faz também seu: “nem todos podem ou devem ser luxo, mas todos devem aprender com estas técnicas de gestão”. Para si, a excelência, a atenção ao detalhe e a construção de relações duradouras são princípios que ultrapassam o segmento do luxo e podem contribuir para o crescimento de organizações de diferentes áreas. É também este trabalho que reforça a dimensão lusófona do seu percurso, ligando Portugal, Angola, Moçambique e Brasil através da partilha de conhecimento. “Quando entregamos um trabalho transparente e credível, tanto o cliente como a marca passam a confiar em nós. Foi isso que nos fez crescer”.
Sempre que fala de liderança, prefere afastar-se dos rótulos. “Não sei se sou uma líder. Quem determina isso são as pessoas que decidem seguir os nossos passos”. Ainda assim, acredita que ninguém lidera sem inspirar. “Se eu tiver um líder que me inspira, considero essa pessoa um líder, no verdadeiro significado do termo. A liderança pode ser trabalhada, mas, acima de tudo, tem de existir inspiração”.

Essa visão também a leva a relativizar a imagem construída nas redes sociais. “O que nós fazemos quando ninguém está a ver é que faz de nós quem realmente somos. Eu trabalho mais de 50 horas por semana, mas muitas vezes o que conta são os dois minutos que publico no Instagram”.
Ao longo do percurso, admite ter enfrentado episódios de preconceito, mas recusa deixar que essas experiências definam a sua história. “Não podemos permitir que a vida se paute por esses momentos”.
Portugal e África na mesma história
Foi precisamente da experiência adquirida na consultoria que nasceu a Chumeco – Authentic Portuguese Shoes. O que começou como um showroom para clientes internacionais transformou-se numa marca dedicada a valorizar o calçado nacional de excelência, produzido para exportação, mas muitas vezes desconhecido do consumidor. “Durante dois anos disseram-me que o cliente português não comprava produto nacional deste segmento. Mas eu acreditava que, com o espaço certo, o storytelling certo e a experiência certa, isso podia mudar”. Hoje, a Chumeco aposta em pequenas coleções e na excelência do ‘Made in Portugal’, privilegiando autenticidade em vez da produção em massa.
A mesma vontade de criar pontes levou-a a lançar a AYA Home Living, um espaço dedicado ao design e ao lifestyle de inspiração africana, reunindo propostas de países como África do Sul, Gana e Senegal. Um projeto que procura mostrar outra imagem da criatividade africana e aproximá-la do público português.

Esse compromisso com a representatividade estende-se também à Black Inspiration Talks, plataforma criada para dar visibilidade a profissionais negros de diferentes áreas e criar referências positivas para as novas gerações. “Não é um espaço de lamentação. É um local onde queremos mostrar que existimos e que, se hoje somos um, amanhã podemos ser dois, três ou quatro. Queremos criar uma narrativa positiva através da inspiração”. A terceira edição da iniciativa, agendada para novembro, será dedicada à criatividade e à inteligência artificial, refletindo sobre os desafios que as novas tecnologias colocam à diversidade e à representação.
É precisamente essa ideia de inspiração que une todos os seus projetos. Ao olhar para o percurso que construiu, prefere que o seu trabalho seja visto como uma forma de abrir caminho a outros. Mais do que o reconhecimento individual, é a possibilidade de criar novas referências e novas oportunidades que continua a orientar as suas escolhas.
Enquanto a Chumeco continua a afirmar-se – este ano através de uma parceria com o AfroNation, em colaboração com a portuguesa Primal Soles –, Mónica Soares mantém o mesmo propósito que orienta todo o seu percurso: criar oportunidades, aproximar Portugal e África e contribuir para que mais pessoas encontrem espaço para concretizar as suas próprias ideias. “Precisamos de mostrar que existimos. Se cumprirmos o nosso papel, esse espaço também é nosso por direito”.




