A Psicologia deixou de ser uma área procurada apenas quando o sofrimento se torna difícil de gerir e passou a fazer parte do quotidiano, estando presente em diferentes momentos da vida e em áreas tão diversas como a saúde, a educação e o trabalho. Sofia Ramalho, bastonária da Ordem dos Psicólogos Portugueses e presidente da European Federation of Psychologists’ Associations, fala-nos de uma profissão que conquistou reconhecimento e espaço na sociedade, mas cuja crescente importância torna ainda mais evidente a necessidade de garantir que os cuidados de Psicologia estejam ao alcance de todos.
O Dia Nacional do Psicólogo assinalou-se a 4 de setembro. Que significado tem hoje esta data para uma profissão que conquistou um lugar cada vez mais presente na sociedade portuguesa?
Representa o caminho extraordinário de crescimento e afirmação da Psicologia em Portugal. Em 2017, a Ordem propôs à Assembleia da República a criação deste Dia e, em 2018, o Parlamento consagrou o 4 de setembro como Dia Nacional do Psicólogo. Hoje somos cerca de 28 mil profissionais.
Mas este crescimento não é apenas numérico. Traduz uma sociedade que reconhece melhor o valor da Psicologia, não apenas quando existe sofrimento, mas também na promoção do desenvolvimento das pessoas, das organizações e das comunidades. É necessária uma Psicologia ainda mais presente nas políticas públicas e nas respostas aos grandes desafios societais, já que a Psicologia é essencial à própria sustentabilidade do desenvolvimento humano. Por exemplo, para promover saúde e bem-estar, reduzir desigualdades sociais e de género, construir locais de trabalho mais saudáveis e comunidades mais resilientes, e contribuir para sociedades mais justas, inclusivas e mais sustentáveis.
Por isso, não existe, como dizem por vezes, uma excessiva “psicologização” da sociedade. Ainda bem que procuramos compreender-nos melhor, desenvolver competências e pedir ajuda quando sofremos. Isso não é fragilidade. É evolução social. E o acesso a cuidados de saúde psicológica, sempre que necessários, é um direito.
Considera que os portugueses compreendem hoje melhor o papel do psicólogo ou persistem ideias erradas e preconceitos sobre a profissão?
O tabu diminuiu muito, mas não desapareceu. Ainda encontramos quem confunda pedir ajuda com fragilidade ou quem associe a Psicologia a permissividade ou a uma sociedade menos resiliente. É precisamente o contrário. Desenvolvemos recursos para lidar melhor com a adversidade, tomar decisões e construir autonomia. Há ainda quem sinta vergonha de mostrar que está a sofrer ou de pedir ajuda, ou culpa por não conseguir, sozinho, ultrapassar aquilo que está a viver.
E, em algumas pessoas, persiste outro equívoco: reduzir o psicólogo à clínica e ao imaginário do “divã”. Há Psicologia nas comunidades, prevenindo exclusão e promovendo coesão. Nas organizações, intervindo nos riscos psicossociais, nas lideranças e no desenvolvimento das pessoas. Na Justiça, a apoiar decisões e processos de reinserção social. E até nas políticas públicas, ajudando a compreender comportamentos e a desenhar políticas mais eficazes para mudar comportamentos.

Quais são, neste momento, os principais desafios que a profissão enfrenta em Portugal? Há algum que considere particularmente urgente e que ainda não esteja suficientemente presente no debate público?
O primeiro é garantir o acesso. Todas as pessoas devem poder encontrar um psicólogo onde precisam e quando precisam, independentemente da sua capacidade económica. Isso exige um reforço estrutural no SNS, mas também nas Comissões de Proteção de Crianças e Jovens, nas prisões e nos tribunais, nas escolas e universidades, nas empresas e organizações e nas comunidades.
Temos ainda de combater a precariedade e assegurar condições que protejam a qualidade da intervenção. E precisamos de mudar o próprio paradigma da decisão política: investir em Psicologia não apenas para remediar quando o problema já se instalou, mas também para o prevenir o seu surgimento e promover a saúde psicológica.
Foi também neste sentido que recentemente criámos, com o Colegio Oficial de Psicología de Galicia, o Observatório das Regiões do Norte de Portugal e Galiza para a Sustentabilidade Profissional da Psicologia. Queremos conhecer melhor como trabalham e vivem a profissão os psicólogos destes territórios, identificar os seus desafios e, a partir daí, produzir conhecimento e recomendações que contribuam para melhores condições de exercício profissional. A ideia será depois alargar o Observatório a todo o país. Os psicólogos são agentes fundamentais na construção de locais de trabalho mais saudáveis, mas são também trabalhadores: aquilo que defendemos para as pessoas e para as organizações, como a saúde psicológica, o bem-estar, a autonomia, o reconhecimento e as condições para um trabalho sustentável, tem de ser igualmente garantido a quem exerce Psicologia.
Ao longo do seu percurso enquanto psicóloga e bastonária, como tem sentido a evolução da relação entre a sociedade portuguesa e a Psicologia?
Sinto-a muito mais próxima. Gosto de pensar que os portugueses deixaram a Psicologia entrar nas suas vidas. Estamos mais atentos ao que sentimos, às nossas relações, aos sinais de risco, ao autocuidado e ao cuidado do outro. Desenvolvemos maior capacidade para lidar com a adversidade, questionar e procurar vidas com mais sentido e maior autoria.
Mas essa evolução cria também uma responsabilidade pública. Não podemos aumentar a literacia e incentivar as pessoas a procurar ajuda e, depois, fechar-lhes a porta dos serviços. Se o acesso depender da capacidade de pagar, estaremos a transformar um avanço social numa nova desigualdade.
“O acesso a cuidados de saúde psicológica, sempre que necessários, é um direito”
Passadas as celebrações do Dia Nacional do Psicólogo, que mensagem gostaria de deixar aos psicólogos portugueses e à sociedade no âmbito da celebração do Dia Nacional do Psicólogo?
O impacto da Psicologia é frequentemente muito maior do que aquilo que se vê. Nem sempre conseguimos contar aquilo que um psicólogo ajudou a prevenir, a reconstruir ou simplesmente a tornar possível.
É uma profissão que trabalha com aquilo que existe de mais singular nas pessoas. As suas histórias, relações, escolhas, sofrimento, possibilidades e capacidade de mudança. Por isso, cuidar da profissão, da sua ciência, da sua ética e das condições de quem a exerce é também cuidar melhor das pessoas e das comunidades.
No Dia Nacional do Psicólogo, recordei uma frase de O Principezinho: “O essencial é invisível aos olhos.” Talvez também seja essa uma boa forma de pensar a Psicologia: ajudar as pessoas, no meio de tanto ruído, a reencontrarem espaço para aquilo que verdadeiramente importa.




