“As pessoas que dia após dia recebem quem nos visita”
Um destino turístico vale pelo impacto que deixa depois de partirmos. É nesta ideia que Pedro Machado coloca o futuro do turismo português. Um setor que distribua riqueza pelo território e contribua para melhorar a vida das comunidades, valorizando também quem nele trabalha. O Secretário de Estado do Turismo defende que a hospitalidade das pessoas que dia após dia recebem quem nos visita é uma das nossas marcas distintivas e terá de continuar a ser preservada perante a transformação do setor. Para a próxima década, ambiciona um crescimento responsável, capaz de reforçar o equilíbrio entre litoral e interior.
Nos últimos anos, Portugal consolidou a sua posição como um dos destinos turísticos mais reconhecidos da Europa. Que visão gostaria de ver concretizada para o turismo português na próxima década?
Sobretudo um Portugal consolidado como destino de excelência em todos os níveis. Um destino que se distingue pelo impacto positivo que gera nas comunidades que recebem quem nos visita. Um turismo verdadeiramente qualificado que se mede por critérios que vão além dos indicadores clássicos. Mede-se pela forma como distribui riqueza pelo território, pela capacidade de valorizar quem vive e trabalha nas regiões turísticas, pela autenticidade da experiência que oferece a quem escolhe Portugal como destino. E mede-se, de igual forma, pela sua sustentabilidade a longo prazo, do ponto de vista económico, social e ambiental.
Aquilo que ambiciono para a próxima década é a consolidação de um crescimento turístico responsável, que promova o equilíbrio entre o interior e o litoral e vise ativamente a coesão territorial. Um turismo que reforce a identidade dos nossos territórios em vez de a diluir, e que faça de Portugal um destino cada vez mais reconhecido pelo que tem de singular. É esse o Portugal que queremos continuar a afirmar internacionalmente.
“É imprescindível assegurar que a inovação não substitui aquilo que verdadeiramente distingue o nosso turismo, que é a autenticidade da relação humana e o valor da hospitalidade portuguesa”
O crescimento deixou de ser, por si só, o principal indicador de sucesso. Que novos critérios deverão orientar as políticas públicas para garantir um turismo cada vez mais qualificado, sustentável e gerador de valor para o país?
O crescimento quantitativo continua a ser importante, mas deixou de ser, por si só, o principal indicador de sucesso. Mais do que aumentar o número de turistas, o objetivo é crescer em valor, promovendo um turismo que gere mais receitas, estadias mais prolongadas, maior impacto económico nos territórios e melhores condições para as empresas, para os trabalhadores e para as comunidades. É esse o caminho para um turismo mais sustentável e competitivo.
É preciso olhar para os efeitos que o turismo gera, para quem beneficia dele e para a forma como esse valor se distribui no tempo e no território. Os critérios que devem orientar as políticas públicas para os próximos anos são, por isso, de outra natureza. Em primeiro lugar, o equilíbrio territorial. O nosso turismo tem de pautar-se por um desenvolvimento que promova a coesão entre interior e litoral, sendo a melhoria da mobilidade inter-regional e intrarregional um fator-chave para atingir esse objetivo. Um destino turístico competitivo é hoje, obrigatoriamente, um destino bem articulado no seu território.
Em segundo lugar, o impacto sobre as pessoas. Colocamos o capital humano, as pessoas e o talento, no cerne da nossa ação. É igualmente fundamental que o turismo continue a afirmar-se como uma força de transformação positiva, contribuindo para a prosperidade, o bem-estar das populações e a qualidade de vida de quem vive nos destinos. O sucesso do turismo mede-se também pela satisfação de quem nele trabalha e de quem com ele convive diariamente.
Em terceiro lugar, a autenticidade e o respeito pela natureza. São valores que distinguem Portugal e que devem continuar a orientar as decisões estruturantes do setor. A nossa identidade, o património, a cultura e os recursos naturais constituem a base da competitividade do destino e importa preservá-los para as gerações futuras.
Transversal a tudo isto está a colaboração estreita entre os setores público e privado, que tem sido, e deve continuar a ser, o modelo que nos permite construir consensos, acelerar a transformação do setor e assegurar um crescimento sustentável, que distribua valor por todo o território.
“Um turismo que reforce a identidade dos nossos territórios em vez de a diluir, e que faça de Portugal um destino cada vez mais reconhecido pelo que tem de singular”
A inovação tecnológica e a inteligência artificial estão a transformar profundamente a forma como viajamos e planeamos viagens. Que oportunidades e desafios representam estas mudanças para a competitividade do turismo português?
A transformação tecnológica e digital, e em particular a emergência da inteligência artificial, é um dos vetores mais estruturantes desta década para o setor. Estamos a falar de uma transformação que muda a forma como os turistas descobrem, planeiam e vivem os destinos, e também a forma como os operadores turísticos gerem os seus negócios e comunicam com os seus públicos. As oportunidades são significativas. A tecnologia permite hoje uma personalização da experiência do visitante que antes não era possível, uma melhor gestão dos fluxos turísticos, ganhos de eficiência operacional e uma capacidade acrescida de antecipar tendências de procura e de resposta. Permite também que destinos e operadores de menor dimensão possam competir num plano mais equilibrado, aproveitando ferramentas antes acessíveis apenas aos grandes grupos. Portugal tem condições para estar na linha da frente desta transformação, aproveitando a base tecnológica e o capital humano que o setor tem vindo a construir.
Os desafios são também importantes. É preciso qualificar continuamente os profissionais do setor para acompanharem esta transformação. É necessário garantir uma utilização ética e responsável destas tecnologias, sobretudo naquilo que se refere à gestão de dados e à proteção do visitante. E é imprescindível assegurar que a inovação não substitui aquilo que verdadeiramente distingue o nosso turismo, que é a autenticidade da relação humana e o valor da hospitalidade portuguesa.
Neste campo, o principal desafio, e também a oportunidade, traduz-se em fazer da tecnologia uma aliada dessa autenticidade, e não o seu substituto. Se conseguirmos que a inteligência artificial canalize os profissionais do setor para aquilo em que são realmente insubstituíveis, o acolhimento, a atenção ao detalhe, a genuinidade da relação com quem nos visita, então a inovação estará a jogar do lado certo.
Que prioridade considera determinante para que o turismo português continue a afirmar-se como um setor competitivo e sustentável na próxima década?
A resposta é clara: as pessoas. A contínua e crescente valorização de todas as profissões turísticas é, na minha convicção, a prioridade determinante para a próxima década. Para podermos atingir aquelas que são as nossas ambições, contamos com a excelência dos nossos ativos, mas é a qualificação, a dignificação e a valorização de quem trabalha no setor que garantirá a diferenciação competitiva de Portugal enquanto destino. Nenhum concorrente consegue copiar aquilo que nos torna únicos, e essa singularidade vive, em primeiro lugar, nas pessoas que dia após dia recebem quem nos visita.
Investir em formação, em condições de trabalho dignas, em percursos de carreira que sejam efetivamente carreira, com contínua valorização e margem de progressão, é a decisão estruturante que temos de continuar a tomar. É esse o caminho que nos permitirá enfrentar o futuro com confiança e ambição e construir, em conjunto, um turismo de que os portugueses se orgulhem cada vez mais.




