Quarenta e seis anos depois da sua publicação, O Dia dos Prodígios regressa às livrarias. O primeiro romance de Lídia Jorge chega à 12.ª edição, confirmando a permanência de uma obra que, em 1980, introduziu uma voz e uma forma pouco comuns na literatura portuguesa.
Publicado em 1980, O Dia dos Prodígios foi o primeiro livro de Lídia Jorge e surgiu num país ainda a procurar palavras para contar a transformação iniciada pelo 25 de Abril. A ação decorre numa aldeia algarvia afastada dos centros urbanos, onde a chegada dos soldados da Revolução é recebida por uma comunidade ocupada com os seus próprios medos, crenças e conflitos.
A Revolução chega à aldeia, mas a sua mensagem não é imediatamente compreendida. É nesse desencontro entre a mudança histórica e um universo rural preso a outros ritmos que Lídia Jorge constrói o romance. Uma serpente morta, acontecimentos aparentemente extraordinários e uma sucessão de histórias individuais formam uma narrativa que escapa às convenções do romance realista.
A receção inicial ajudou a fixar a importância do livro. Vergílio Ferreira escreveu sobre uma obra cuja invulgaridade não conseguia esgotar numa apreciação crítica. Eduardo Lourenço destacou a construção de um romance feito de histórias que se encadeiam e formam uma visão de conjunto daquele mundo. Jorge Listopad viu na estreia de Lídia Jorge uma relação pouco habitual entre literatura e realidade material.
O livro permaneceu também como uma das obras associadas à literatura portuguesa do período posterior à Revolução, embora a sua leitura ultrapasse o acontecimento histórico que lhe serve de pano de fundo. A aldeia de Lídia Jorge não é apenas o lugar onde o 25 de Abril chega. É um espaço onde diferentes tempos, linguagens e formas de compreender o mundo se encontram.
A reedição chegou às livrarias em setembro, na 12.ª edição, num momento particularmente significativo na trajetória da autora. Em 2025, Lídia Jorge recebeu o Prémio Pessoa e, já este ano, foi distinguida com o Prémio Camões. Entre a estreia de uma escritora então desconhecida e os dois mais recentes grandes reconhecimentos da sua carreira passaram-se 46 anos. O Dia dos Prodígios continua a ser lido.




