Entre a psicologia e a vontade de ajudar realmente as pessoas, Susana Pereira Fonseca encontrou na maternidade um novo rumo para a sua vida profissional. No ALLMA Family Club, assume o compromisso de cuidar da saúde mental das famílias, com foco na gravidez e no pós-parto, na primeira infância e nos vínculos que se constroem desde os primeiros anos de vida.
O seu percurso profissional foi sendo construído em torno da família, da infância e das relações que se estabelecem desde os primeiros anos de vida. Quando é que o ALLMA Family Club passou a fazer parte desse caminho?
Desde cedo que tive o desejo de empreender e de colocar em prática o meu lado mais criativo. Mas foi após o nascimento da minha segunda filha que comecei a sentir que o trabalho tradicional de psicóloga já não me preenchia. Percebi que queria estar mais com a comunidade e levar a Psicologia para além das quatro paredes do gabinete. A primeira ideia foi criar um projeto que tivesse como foco a saúde mental perinatal e os vínculos entre pais e bebés – a área que verdadeiramente me apaixona. Assim, surgiram o Mommy Club e o Baby Club. Depois, outras ideias foram surgindo, de forma natural, a partir dos meus interesses pessoais e profissionais, como a dança e os livros, e a partir dos interesses e desejos profissionais da minha equipa.

Tornar-se mãe significa confrontar, na prática, muitas das ideias que estuda enquanto profissional. O que é que a maternidade lhe ensinou sobre parentalidade que nenhum livro ou formação poderia explicar?
Acredito verdadeiramente que a maternidade é, muitas vezes, a viagem mais intensa e profunda da vida de uma mulher. Por muitos livros que já tivesse lido e formações que tivesse feito, só compreendi o verdadeiro significado dessa intensidade e profundidade após o nascimento da minha primeira filha. A maternidade ensinou-me sobretudo muita coisa sobre mim. Conheci muito melhor os meus medos, os meus desejos, os meus sonhos, os meus limites e os meus pontos fracos. Costumo dizer que tornar-me mãe foi uma viagem às profundezas de mim mesma e considero que foi essa viagem que me permitiu ser hoje a mulher e profissional que sou.
Existe uma imagem muito romantizada da gravidez e do nascimento. Quando uma mulher chega ao parto carregada de medos, expectativas ou experiências anteriores difíceis, como se trabalham psicologicamente essas ideias?
Todas as mulheres são únicas, com histórias singulares e sentires muito próprios. Por isso, cada intervenção tem de assentar na individualidade de cada mulher. Mas, em geral, é preciso começar por desconstruir a ideia de que existe uma forma certa de viver o período perinatal. As experiências reais são complexas: com amor, ambivalência, alegria, medo, ansiedade, vulnerabilidade, etc. Depois, é também preciso ajudar a mulher a compreender a sua história e as razões por detrás dos seus medos, crenças e expectativas e ajudá-la a mobilizar os seus recursos internos para enfrentar os desafios. O processo de autoconhecimento pode ser difícil, mas é essencial para promover a adaptação e o bem-estar da mulher.
Na 1ª infância, cada criança tem o seu próprio ritmo de desenvolvimento. Quando é que uma diferença nesse percurso deixa de ser apenas uma característica individual e passa a justificar uma avaliação especializada?
Diria que há três importantes razões que justificam a procura de uma avaliação especializada: quando os marcos de desenvolvimento não são alcançados nas idades esperadas, quando a criança perde competências que já tinha adquirido e quando a criança demonstra sinais de possível sofrimento psíquico, como, por exemplo, choro frequente e inconsolável, ausência de procura ou recusa de contacto social ou dificuldades persistentes e intensas no sono ou alimentação. O apoio especializado, de forma precoce, permite identificar dificuldades e potenciar competências, num período de grande neuroplasticidade, o que facilita que as intervenções possam ser verdadeiramente transformadoras no processo de desenvolvimento.

Por outro lado, a chegada de um filho pode trazer alegria, mas também ansiedade, exaustão e insegurança. Que apoio deve ser disponibilizado aos pais para que o cuidado dos filhos não implique descurar o seu próprio bem-estar?
Para que os pais consigam cuidar dos filhos e de si mesmos, é essencial haver apoio social – prático, emocional e informativo. É uma grande mais-valia para as famílias se estiverem rodeadas de profissionais atentos. As famílias não têm de, à partida, ter conhecimento acerca de saúde mental ou desenvolvimento infantil e cabe aos profissionais informá-los, apoiá-los e não desvalorizar as suas preocupações e vivências. Mas é também importante o apoio da comunidade. Uma comunidade que esteja disponível para fazer comida, pegar no bebé para os pais descansarem ou simplesmente os ouvir, sem julgar. Mas estas são questões que muitas vezes falham, de acordo com os relatos que me chegam frequentemente. Colmatar essa falha e ser comunidade para as famílias é o meu grande desejo para o ALLMA, daí apelidá-lo como um Family Club.
Se pudesse deixar uma mensagem às mulheres que sentem que, para construir uma família, têm de colocar os seus próprios sonhos em segundo plano, o que lhes diria?
Diria que a maternidade revoluciona as nossas vidas e pode ser o motor que precisamos para ter a coragem de colocar em prática os nossos sonhos. No processo de transição para a maternidade, há partes e papéis nossos que têm de ficar temporariamente em pausa, para dar espaço ao novo papel e à relação com o bebé. No entanto, é ao longo desse caminho que nos vamos conhecendo melhor, adquirindo ferramentas e percebendo o que verdadeiramente importa para nós. Não digo que é fácil, pois é um caminho repleto de medos e responsabilidades. Mas é esse caminho que nos deixa mais próximas de alcançar os nossos sonhos.
Há alguma ambição profissional que ainda não tenha encontrado espaço na sua vida atual, mas que continue a acompanhá-la?
Por agora, a principal ambição profissional é fazer o ALLMA Family Club crescer e ser comunidade para cada vez mais famílias. Não me faltam ideias e, a seu tempo, tudo será posto em prática.




