A depressão não se resume à tristeza. Pode, sim, traduzir-se numa perda de sentido e de propósito, que afeta a forma como a pessoa se vê e se relaciona com o mundo. Domingas Tavares Francisco defende uma mudança de olhar sobre esta condição, afastando o estigma e reconhecendo a importância de compreender cada pessoa no seu contexto de vida.
A depressão continua a ser, muitas vezes, incompreendida ou confundida com tristeza passageira. O que distingue esta condição de um período de tristeza e porque é tão importante reconhecer essa diferença?
Alguém que esteja a passar por um quadro depressivo, além de tristeza profunda, sente também uma falta de sentido para sua vida. Sente inadequação ao meio familiar, social e profissional, sente incompreensão e passa a ver a realidade social completamente fragmentada e não como um todo. Sente falta de propósito ao acordar, ao realizar determinadas tarefas rotineiras. Sente que só está a existir, sem ter qualquer propósito de vida que sirva aos seus próprios interesses.
Nem sempre o sofrimento psicológico é visível para quem está à nossa volta. Quais são os sinais a que devemos estar atentos, tanto em nós próprios como nas pessoas com quem convivemos?
As questões emocionais continuam invisíveis aos olhares comuns porque foram terceirizadas, ou seja, continuamos a não dedicar o tempo suficiente para descodificá-las e perceber o que cada detalhe nos quer comunicar. Para mim, apatia é, certamente, um dos momentos em que o sofrimento emocional grita ferozmente. Quando chegamos a esse nível de comportamento, é sinal de que já desistimos da luta.
A depressão pode ter diferentes causas e manifestações, sendo influenciada por fatores pessoais, relacionais e sociais. Que papel podem desempenhar o contexto familiar, a pressão profissional, o isolamento e as condições de vida no desenvolvimento ou agravamento desta condição?
Influenciam profunda e diretamente, em primeiro lugar, porque somos seres sociais. Em segundo lugar, porque levamos demasiados anos para distinguir quem somos de quem fomos moldados a ser. Quando não temos essa distinção bem enraizada, ficamos sem o controlo das nossas decisões e, consequentemente, dos nossos resultados. Então, acabamos por vibrar por aquilo que nos fortalece e pelo que nos adoece. É necessário termos bem assente um plano de vida, para que saibamos conciliar os nossos quereres e a influência social de que todos somos alvo.

Apesar de se falar cada vez mais de saúde mental, ainda existe estigma associado a este problema. Porque é que tantas pessoas continuam a sentir vergonha de admitir que não estão bem ou receio de procurar ajuda?
Sinto que as métricas de vida continuam enraizadas nos mesmos modelos para toda a gente, quando somos todos diferentes: o ter para ser. Então, quando vemos uma pessoa parar a pedir ajuda ou, por exemplo, quando somos nós a fazê-lo soa a estranho, soa a preguiça, a falta de foco e de comprometimento. Quando aceitarmos que não somos imparáveis (até as máquinas precisam de manutenção permanente), talvez a conversa mude de tom.
A Organização Mundial da Saúde tem destacado a importância de ouvir as pessoas com experiência vivida de problemas de saúde mental. Como podemos dar mais espaço à voz de quem enfrenta esta realidade e garantir que essas pessoas se sentem verdadeiramente compreendidas, em vez de julgadas ou incompreendidas?
Costumo dizer que só conseguimos sentir a dor do outro quando somos capazes de nos ouvir e compreender a nossa própria trajetória de vida: só damos o que temos. Assim, para início de conversa, o trabalho é, em primeiro lugar, interno. Porque muitas das vezes, nós somos essa pessoa.
No acompanhamento de pessoas com depressão, que importância pode ter uma abordagem integrativa e sistémica, que considere a pessoa no seu todo e o contexto em que vive? E de que forma se articula com o acompanhamento por profissionais de saúde mental?
A perspetiva integrativa e sistémica considera que somos um todo e não o somatório de partes. Assim, tudo o que afeta a mente tem impacto direto no corpo e no espírito. Essa perspetiva acrescenta ainda que, não herdamos somente traços comportamentais e genéticos, herdamos também a trajetória de vida dos nossos ancestrais. Quando compreendemos a amplitude dessa aceção, ganhamos coragem para perceber o quão distantes estamos de quem realmente somos. Antes de conhecermos a nossa verdadeira identidade, somos impelidos a ser aquilo que os nossos progenitores e o meio social consideram ser o melhor para nós e é aqui que a nossa saúde mental tende a fragmentar-se.
Que mudanças considera essenciais na forma como a sociedade encara a depressão e o que gostaria que fosse diferente no futuro, tanto na prevenção como no acompanhamento de quem vive com esta condição?
São tantas as mudanças, mas começaria por referir que a depressão não é doença dos fracos ou de quem não sabe o que quer. Muito pelo contrário, ela afeta a quem está à procura por respostas e por um sentido para a sua própria existência. A questão é mais profunda e precisa de uma abordagem holística, uma verdadeira mudança de paradigma.




