Manuela Pimenta aprende todos os dias que cuidar é uma corrida sem linha de chegada. Farmacêutica por herança e dedicada ao próximo por convicção, transforma as desigualdades em ações humanitárias e a sua profissão numa ponte entre a ciência e a vida. Através da Associação Hemato Pa Bô, que fundou em 2025, tem levado diagnósticos e esperança a quem mais precisa, em Portugal e em África.
No mês do Dia Mundial da Saúde, gostaríamos de conhecer melhor quem é a Manuela. O que a levou a seguir a carreira farmacêutica, uma área à qual tem consagrado a sua vida?
Sou filha de dois farmacêuticos, especialistas em análises clínicas, e cresci neste ambiente fascinante. Não se foge durante muito tempo ao destino quando ele já vive dentro de nós. Anos mais tarde, segui-lhes as pisadas. E ainda bem. Atualmente, sou diretora técnica da Farmácia de S. João, em Ponte de Lima, e, desde que o meu pai faleceu, assumi também o Laboratório Dr. Manuel Pimenta.
Aprendi que ser farmacêutico é muito mais do que ser tecnicamente bom. É servir a comunidade com excelência, estar presente e nunca falhar quando alguém precisa. É pôr a ciência ao serviço da vida. As desigualdades tiram-me o sono. É essa inquietação que me move e me lembra que ainda há muito por fazer.

O seu dia a dia divide-se entre o Laboratório de Análises Clínicas Dr. Manuel Pimenta e a Farmácia de S. João. Como estes contextos distintos se complementam e, ao mesmo tempo, permitem compreender melhor os utentes?
Nunca vi o laboratório e a farmácia como contextos distintos. Para mim, complementam-se e dão uma noção mais holística do estado de saúde do utente. Ambos em Ponte de Lima permitem-nos estar próximos, focados e dedicados à nossa comunidade. Somos uma família ligada à saúde há várias gerações.

A farmácia está disponível, mesmo quando todos os outros recursos falham. Como encara este papel de proximidade e confiança junto da comunidade?
Os farmacêuticos estão sempre lá. Quando tudo para, a farmácia continua disponível, próxima. Na pandemia de COVID-19 não parámos. Com receio? Sim. Mas era preciso continuar. Também nas grandes mobilizações, como a JMJ Lisboa 2023, e em contextos de guerra, emergência e catástrofe, voltamos a estar presentes, discretamente, mas com impacto.
A solidão dos idosos é um assassino silencioso. Várias são as vezes em que somos a única voz que escutam naquele dia. E resgatamos pessoas da morte constantemente. Não é só nos hospitais que se salvam vidas.

Através da Associação Hemato Pa Bô, melhorou o diagnóstico laboratorial e a formação em saúde em Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe. Qual era a urgência destas intervenções?
Apercebi-me de que, nos países mais carenciados, não existem sistemas que garantam cuidados de saúde gratuitos ou acessíveis. O doente paga tudo do seu bolso. Para populações que vivem com menos de um dólar por dia, recorrer a um hospital é um luxo impossível. Criei um fundo monetário num hospital pediátrico. Ajudava, mas não resolvia.
O meu pai implementou uma tecnologia low-cost, sem comprometer a qualidade, para tornar as análises mais acessíveis, sobretudo a mulheres e crianças. A Hemato Pa Bô nasceu, assim, da necessidade de responder à escassa formação em medicina laboratorial e às dificuldades na interpretação de boletins analíticos. Formámos mais de meia centena de profissionais de saúde. O objetivo era sempre o mesmo: poupar recursos, chegar à população e salvar vidas.

Durante o V Encontro FirstPharma foi agraciada com o prémio “Solidariedade FirstPharma”. Considera que esta conquista, além de ser um reconhecimento pessoal, é também uma vitória para a profissão?
Claro que sim. Cada prémio ou reconhecimento que recebi representa também o trabalho, visível e invisível, das colaboradoras das empresas, dos colegas de missão, das associações a que pertenço e da minha família. Eu sou o rosto, mas estas conquistas nunca são unipessoais.
Fui distinguida pela Secção Regional do Norte da Ordem dos Farmacêuticos pelas minhas ações solidárias e humanitárias e, mais recentemente, com o Prémio de Intervenção na Comunidade pela Secção Regional do Centro. Mas a minha alegria vai muito além dos prémios. Com a FirstPharma Solidária, já realizamos em conjunto palestras, campanhas de angariação de fundos e três missões humanitárias na Guiné-Bissau.
Existem outras iniciativas, em curso, que revelam verdadeiramente o seu compromisso enquanto profissional?
Tenho dado palestras a públicos diversos, da Casa da Música ao TEDxFamalicão, passando por escolas e universidades. É nesses espaços que algo especial acontece. Tornei-me a voz de quem não a tem e a memória de quem já partiu. Gosto de falar com os jovens e de lhes mostrar que o voluntariado não começa além-fronteiras. Começa na comunidade de cada um. É aí que se aprende a servir.

Certamente, tantos anos de experiência trazem consigo desafios, assim como a inspiração transmitida pelo seu pai, que também exerceu esta profissão. Convidamo-la a fazer uma retrospetiva: o que aprendeu ao longo da carreira e o que ainda a move?
O meu pai foi a grande referência da minha vida. Aprendi imenso com ele, não apenas na área farmacêutica e laboratorial, mas também sobre literatura, filosofia e a forma de olhar o mundo. Citava muitas vezes o Papa Francisco e o Fratelli tutti. Na altura, não tinha andamento para o compreender. Ele preocupava-se com a “floresta inteira”, eu com as “árvores mais próximas”. Era nessa diferença que nos completávamos. Antes de partir, deixou-me uma mensagem valiosa: a vida não é um mero segmento de reta, mas uma longa corrida de estafeta. Agora é a minha vez de honrar o legado familiar e colocar sempre a ciência ao serviço da vida.

Na sua trajetória, liderar não é somente coordenar, mas garantir que cada passo cuida de alguém. Que mensagem faz questão de não deixar de transmitir?
Quem não cuida, não lidera. Para mim, liderar não é mandar. É cuidar. Como a Irmã Valéria cuida de cada mulher doente e de cada bebé que nasce no hospital em Nhacra-Teda. Lembro-me muitas vezes do verso de Ricardo Reis: “Para ser grande, sê inteiro.” É esse o meu lema. Ser inteira na forma como lidero. Não separar o conhecimento técnico do cuidado humano. Não excluir ninguém. Como dizia o Papa Francisco: todos, todos, todos.




