Mulheres Inspiradoras

“A minha missão é permitir que mais pessoas possam viver essa liberdade na sua plenitude: sendo felizes, bem pagas e respeitadas”

Saiu de uma carreira em Medicina Dentária no SNS, onde liderou uma unidade de saúde oral em plena pandemia, para fundar a SeekInspiration. No contacto com profissionais da área da beleza e estética, Sara Costa Neves percebeu que a qualidade técnica raramente passa para a forma como comunicam o que fazem e para as decisões que tomam no dia a dia, e é aí que hoje centra o seu trabalho. Nesta entrevista, fala de risco, de disciplina e do que é preciso para transformar trabalho em valor real.

Deixe-me começar por um momento concreto. Neste seu percurso, hoje com forte presença pública, houve uma altura em que teve de escolher entre manter controlo ou assumir risco. O que estava em causa e como decidiu?

Poderia responder “todos os dias”, desde o momento em que decidi ser empresária! (risos) A minha formação académica é Medicina Dentária, liderei uma unidade de saúde oral no SNS em plena pandemia. Tomar a decisão de me despedir de um trabalho que gostava e abrir a empresa foi um momento fraturante. Muita gente não entendeu essa decisão. Foi um risco consciente, sabia que precisava de me concentrar numa só área para ter o crescimento que ambicionava.

“Para mim, a coerência é um valor inquestionável”

A SeekInspiration começa num território muito concreto, maquilhagem, formação, imagem. Em que ponto é que percebeu que não estava apenas a ensinar maquilhagem, mas a trabalhar construção pessoal?

Ao dar formação de maquilhagem, percebi que existia uma lacuna clara no marketing e gestão. Os profissionais eram excelentes na técnica e no atendimento mas nada disso transparecia na sua comunicação, redes sociais, não existia uma análise financeira antes de tomar decisões. Fui incorporando estes temas nas minhas formações e a procura cresceu tanto que acabei por expandir o método a outras áreas. Foi a primeira formação de marketing e gestão para profissionais de beleza em Portugal.

No trabalho que desenvolve, há uma componente visível, mas também muito trabalho de estrutura e de preparação. O que é que mais tempo e energia lhe exige, mas não é imediatamente percetível para quem está de fora?

Costumo dizer à minha equipa que apenas 5% do trabalho que fazemos é visível para fora. Como empresa de formação e consultoria, tudo o que fazemos tem de ser fundamentado. Dedico muito tempo a estudar, a analisar dados e métricas da nossa empresa e dos nossos clientes. Existe muito trabalho estratégico e analítico a acontecer no backstage.

“Profissionais mais bem pagas e respeitadas” é um objetivo que assume de forma clara. Quando olha para o terreno, para o dia a dia de quem trabalha na área, onde é que sente que isso ainda falha?

É uma missão ambiciosa, tenho consciência disso. Falo diariamente com muitos profissionais de beleza e estética em vários estágios de carreira – da pessoa que acabou a formação à que tem equipa e várias clínicas e salões.

Há sempre dois pontos em comum: demasiadas horas de trabalho e pouco lucro. E isso coloca em causa a saúde mental dos profissionais, as suas famílias, as suas finanças. É algo que estamos determinados em mudar no mercado de beleza, ajudar estes profissionais a construir um negócio com prosperidade, sem perder qualidade de vida e tempo para quem e o que realmente importa.

Há uma promessa muito presente neste mercado de ‘agenda cheia’, de crescimento rápido, de transformação quase imediata. Quem está de fora tende a ver o resultado final. O que é que raramente se diz sobre o caminho até lá, sobretudo sobre o custo real desse processo?

Existe essa promessa porque o imediatismo vende, infelizmente. Na nossa empresa temos duas palavras proibidas: fácil e rápido. Prefiro ter essa transparência com os nossos clientes. Existe sempre uma curva de aprendizagem e os resultados são cumulativos. Não vai ser imediato e também não basta fazer uma vez e fica resolvido. Temos de estar sempre a estudar, investir, recalcular a rota – como diz o GPS!

“Além de ler e estudar diariamente, procuro rodear-me de mentores. Pessoas que me inspirem a sair da zona de conforto”

O nome da sua empresa parte de uma ideia de procura ativa. No dia a dia, o que é que continua a trabalhar em si para sustentar esse crescimento?

Além de ler e estudar diariamente, procuro rodear-me de mentores. Pessoas que me inspirem a sair da zona de conforto e me mostrem através dos seus resultados como posso resolver os problemas que a empresa tem atualmente. Para ocupar essa posição de mentora e formadora dos meus clientes, preciso de me sentar no lugar de aluna também.

Ao ocupar este lugar, simultaneamente público e formativo, há sempre uma expectativa projetada pelos outros. O que é que sente que não pode falhar para se manter coerente com aquilo que construiu?

Disciplina e resultados. Para mim, a coerência é um valor inquestionável. Numa cultura digital e onde tudo se sabe, é essencial ter essa transparência e liderar por exemplo.

Em Portugal, há 52 anos que associamos este mês à liberdade. Num percurso como o seu, que significado é que essa palavra ganhou?

Há 52 anos, não poderia ser empresária sendo mulher em Portugal. Não poderia sequer abrir uma conta bancária ou sair do país sem autorização do meu pai ou marido. Hoje, mais do que nunca, é importante pararmos e refletirmos no privilégio que é viver em democracia. Não dou a minha liberdade por garantida. Os valores de Abril estão muito presentes no meu trabalho. A minha missão é permitir que mais pessoas possam viver essa liberdade na sua plenitude: sendo felizes, bem pagas e respeitadas.

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